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Metade dos ingleses já adota Digital Health (em 2020 não chegava a 5%)

Thomas Holt / Shutterstock.com nhs.png
Sugestão ao SUS: mire o NHS

A britânica Sylvia Diggory tinha apenas 13 anos quando em 5 de julho de 1948 apertou a mão de Aneurin Bevan (1897-1960), então Ministro da Saúde, sendo a primeira paciente do National Health Service (NHS). Sofrendo de nefrite aguda, Sylvia estava no Park Hospital em Trafford (Manchester) quando percebeu certa agitação no hospital. Parecia que a equipe médica estava esperando alguém importante, talvez um paciente ilustre. O visitante era Bevan, que tinha escolhido o hospital como local para lançar oficialmente o novo Serviço Nacional de Saúde (NHS). Bevan atravessou o quarto e foi direto até Sylvia. Apertou-lhe a mão e perguntou se ela sabia que aquela era uma ocasião histórica. Sylvia, diante da confusão em volta, ouviu Bevan sussurrar em seu ouvido: “estamos dando o passo mais civilizado que qualquer país já deu". Era a gênese do mais consagrado sistema público de saúde do ocidente, inspiração para muitos outros, como o SUS.

Em 25 de outubro de 2021, o NHS informou que quase 28 milhões de ingleses (metade da população da Inglaterra) registraram login no NHS, com mais de 16 milhões se inscrevendo no NHS App. Trata-se de uma das mais rápidas evoluções tecnológicas da história sanitária, visto que em setembro de 2020 o país tinha pouco menos de 2,2 milhões de usuários digitais. A velocidade dessa transição não tem paralelo neste século, e o Reino Unido é o melhor exemplo do que vem pela frente. Setenta e três anos depois que Bevan encetou o NHS e em meio a pior crise epidêmica do século (no epicentro da insegura e confusa gestão de Boris Johnson) a Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) avança na transformação digital da saúde de modo a inserir seus 67,2 milhões de habitantes (56 milhões na Inglaterra) no bioma digital.

Os londrinos são os maiores usuários do NHS Digital (20,3%), sendo as pessoas entre 20 e 29 anos o grupo mais envolvido, seguidos das faixas entre 30-39 e 40-49. O NHS App é o aplicativo gratuito mais baixado na Inglaterra, com mais de 12 milhões de novos usuários desde que o NHS COVID Pass entrou no ar em maio último. Um total de 45 aplicativos e serviços de saúde-eletrônica estão disponíveis pelo login do NHS, incluindo serviços de referência, suporte, aconselhamento, maternidade e saúde infantil, farmácias online, telehealth e monitoramento do bem-estar. O número de prescrições digitais realizadas no app aumentou 495% entre janeiro e novembro de 2020, com as ‘sessões-virtuais’ crescendo 257% em relação a 2019 (funcionários e médicos do NHS são apoiados e habilitados a fornecer cuidados aos pacientes a partir de suas próprios casas).

Só a plataforma de ‘intercomunicação entre profissionais da saúde’ (NHS Digital Workplace) já atinge 1,3 milhão de usuários, sendo que em 6 meses substituiu 14,5 milhões de chamadas telefônicas e hospedou mais de 32 milhões de reuniões virtuais, liberando 2,9 milhões de horas de seu corpo profissional. “Esse tem sido um componente vital que permite aos colegas de healthcare se conectar, se comunicar e colaborar em conjunto e sem maiores esforços. Ter mais de 1,3 milhão de colaboradores na mesma plataforma de comunicação está permitindo melhorias massivas em todo o sistema, que passam a funcionar de forma mais eficaz e em conjunto”, explicou Chris Parsons, Head of Collaboration Services do NHS Digital. Muitos podem pensar que essa ‘plataforma de colaboração’ é um sistema que exigiu grande esforço de desenvolvimento, possuindo funcionalidades do “estado-da-arte”. Nada disso, trata-se da plataforma Microsoft Teams devidamente explicada ao corpo de profissionais e ‘infraestruturada’ para atender simultaneamente milhares de encontros virtuais por dia. Nada do que qualquer país do hemisfério sul não pudesse implementar. No Brasil, por exemplo, até agosto de 2020 mais de 70% dos profissionais de saúde da atenção primária do SUS utilizavam seus próprios celulares para diligenciar sobre os pacientes, sendo que não existem ‘celulares institucionais’ para essa comunicação (fonte: pesquisa conduzida pela USP, Fiocruz, Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal de Pelotas).

Um exemplo da ‘expansão digital pública’ do NHS será o lançamento em janeiro de 2022 de um aplicativo projetado especificamente para ‘incentivar as pessoas a fazerem mudanças positivas em seu estilo de vida’. O Governo investiu 3 milhões de libras esterlinas para financiar um sistema de recompensa’, onde os usuários receberão pontos por comportamentos saudáveis ​​que poderão ser trocados por ‘prêmios’, como passe-livre em academias, vestuário, vale-alimentação, ingressos para espetáculos ou parques temáticos, etc. O aplicativo faz parte do projeto Health Incentives Scheme, um pacote de 100 milhões de libras (fundos do governo) para ajudar as pessoas a terem uma vida mais saudável. Ou seja, o uso da tecnologia digital para prevenir patologias antes que elas se desenvolvam. Outros países, como Canadá e Cingapura, já lançaram aplicações digitais para promover hábitos saudáveis, compensando os usuários de todas as formas possíveis. Trata-se de ‘autocuidado direto nas artérias da população’, primeiro por convencimento e, depois, obviamente, por meio de modelos compulsórios. “Queremos garantir que estamos fazendo tudo o que podemos para enfrentar as disparidades da saúde em todo o país, e este novo piloto abrirá caminho para o desenvolvimento de maneiras inovadoras de melhorar a vida dos indivíduos, e também ajudar a reduzir a pressão sobre o NHS”, explicou Sajid Javid, Secretário de Saúde e Assistência Social do governo britânico. A ideia não é nova: em maio de 2019, o relatório da Social Market Foundation (que contou com a colaboração do médico, professor e mentor Eric Topol) deixou claro que o acesso a melhores resultados de saúde “não deve ser ditado pela capacidade de uma pessoa em pagar por tecnologia inovadora e voltada ao autocuidado”, sugerindo que o NHS deveria financiar aqueles que não podem pagar por ela.

Embora haja jubilo na digitalização da saúde britânica, não faltam problemas e reclamações, principalmente com as dificuldades de acesso derivadas da Covid-19: a lista de espera para tratamento hospitalar chegou a 5,6 milhões em julho de 2021. Em outubro de 2021, as esperas para A&E (pronto atendimento) eram de 4 horas, e a fila para tratamento oncológico consumia 62 dias, muito longe dos padrões estabelecidos pelo próprio NHS. Entre abril de 2020 e agosto de 2021, houve 3,9 milhões a menos de procedimentos eletivos e uma redução de 26,8 milhões atendimentos ambulatoriais. Como em todos os países, a demanda reprimida pela Covid-19 esgarça o NHS. Mesmo o exuberante NHS Digital sofre frequentemente ataques cibernéticos à sua base de dados, o que o obrigou a lançar o programa “Keep IT Confidential”, um kit de ferramentas online (gratuito) para conscientização sobre segurança cibernética, ajudando as organizações de saúde e os usuários a entender e aprender sobre as práticas de segurança computacional.

Em 17 de março de 1986, uma segunda-feira chuvosa, o então presidente José Sarney deu por iniciado os trabalhos da 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS). O Ginásio de Esportes de Brasília estava lotado. Sergio Arouca, presidente da conferência, alavancou os trabalhos como uma expressão que só mais tarde se tornou definitiva: “este evento é o mais significativo em termos de debate da política de saúde já acontecido na história do país”. Arouca tinha razão. Por mais de cinco dias, perto de quatro mil pessoas discutiram a Saúde nacional como talvez em nenhuma outra oportunidade tenha sido feito. Eram 98 grupos de trabalho, e pouco adiantou as forças ‘privativistas’ boicotarem o evento. Pouco funcionou a estratégia dos representantes das entidades de medicina privada de se colocarem “frontalmente contrárias” as moções debatidas. Apesar de representarem 80% do atendimento médico-hospitalar do país de então, sua representação na Conferência (em número de votos) chegou a pouco mais de 2%.

As moções foram aprovadas em 21 de março de 1986 e a conferência “pré-constituinte” jogou uma ‘pá de asfalto’ nos pessimistas, obtendo consenso em torno da criação do Sistema Único Descentralizado de Saúde (SUDS), que depois se transformaria no Sistema Único de Saúde. As bases conceituais da Reforma Sanitária (que voltariam a ser discutidas intensamente durante a Assembleia Constituinte – 1987/88) estavam lançadas. A Nova República, que não passava de um imenso e confuso painel das idiossincrasias políticas nacionais, havia patrocinado a Conferência que mudaria a história da Saúde no país. Em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituinte, o país pariu o SUS. Nessa época, o Brasil tinha pouco menos de 140 milhões de habitantes, ou seja, crescemos ‘mais de um Reino Unido’ nesses 32 anos. O SUS tornou-se realidade, uma magnifica e exuberante realidade.

Todavia, se o Estado em todas as suas instâncias (parlamento, executivo e judiciário) não invadir o mundo digital “como um viking em busca de caça” e não “como um bambi perseguindo borboletas” será desconstruído pela demanda do acesso. Não seria diferente com o NHS. No século XXI, ecossistemas públicos (não só no setor de saúde) são estruturas eminentemente reféns de dois vetores imanentes a sua suficiência: (1) ciência de dados; e (2) transformação digital (ininterrupta). Como bem explica o estudo “Digital Technologies: a new Determinant of Health”, publicado no The Lancet na edição de novembro/2021: “a fraca governança das tecnologias digitais está causando iniquidades na saúde e comprometendo os direitos humanos. Essa descoberta é agravada pelo fato de que muitas empresas estão expandindo seu alcance no setor de saúde, coletando e analisando dados pessoais e de saúde. A governança futura das tecnologias digitais na área sanitária deve ser impulsionada pelo propósito público, não pelo lucro privado”. Não menos incisivo é o relatório publicado este ano pelo Open Data Institute (“Secondary use of health data in Europe”): “a equidade nos ecossistemas de saúde só decorrerá das iniciativas que reconheçam as tecnologias digitais como um novo determinante-chave para as nações, semelhante à renda, educação ou sexo e gênero”. Não é difícil de entender: uma criança que nasça hoje no Brasil está totalmente inserida no ecossistema digital, tendo dificuldades de legitimar o SUS se este não fizer parte da sua dialética, se não estiver em seu espaço social (digital) e se não conseguir se comunicar com ela de modo remoto. Não importa o grau de legalização envolvido, legitimação é pertencimento, ou o ato de reconhecer algo como agregado ao seu contexto estrutural, social e transacional.

O SUS nasceu da mesma semente-altruísta que cunhou o NHS. Foram moldados em meio a enormes descontroles na organização da saúde pública, foram projetados adotando metodologias similares e metas contemporâneas muito parecidas: prover assistência sanitária e saudablidade às suas populações sem custo, de forma equânime e universal.  É necessário hoje que o “SUS21 perceba o metabolismo digital que o NHS está produzindo todos os dias. É legitimo e magnânimo achar que “o Brasil não precisa se espelhar em ninguém e deve seguir seus próprios rumos e velocidades”. É lustroso, mas é tolo. Pensar que podemos resistir ao século “sem uma profunda transformação digital num dos cinco maiores sistemas públicos de saúde do mundo” é uma incontestável ‘dissonância cognitiva’. Devemos observar o NHS e outros sistemas públicos, aprendendo, criticando e absorvendo aquilo que nos cabe. Seria útil contemplar as inovações sociodigitais britânicas e perceber sem desdém, sem arrogância, sem demérito aqui ou acolá, desvencilhando-se das comparações ou objeções voláteis, aquilo que nossa intuição achar que aqui vale implementar.


Guilherme S. Hummel
Scientific Coordinator Hospitalar Hub
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute

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