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Que profissionais de saúde estamos formando?

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Apesar de algum avanço nos índices de educação, possuímos vários desafios a serem superados ainda.

Apesar de algum avanço nos índices de educação e melhoria na alfabetização da população brasileira de forma geral, possuímos vários desafios a serem superadas ainda. Um dos mais importantes se encontra nas questões sócio-culturais e educacionais que ainda permeiam a formação primária e universitária.

A educação primária e secundária obviamente passa pelo aperto financeiro e falta de investimento na (desproporcional) maioria dos casos. No entanto, mesmo nas instituições mais afluentes - tanto públicas quanto particulares - observa-se uma rigidez organizacional que incorpora o peso do vestibular. Apesar de diferentes métodos educacionais e diferentes investimentos em atividades “extra-curriculares”, são poucas as escolas que são capazes de instigar a curiosidade do aluno na sua essência.

Temos ainda, uma cultura determinista em termos absolutos e relativos: o Brasil infelizmente ainda conta com baixa mobilidade social e o melhor preditor para o salário do seu descendente é o seu próprio salário. Além disso, as universidades são tratadas como um ultimatum na sua vida profissional - e os cursos universitários agem como tal.

Há pouca criatividade em termos de percurso profissional pós-universitário em termos gerais. “O fulano está fazendo uma coisa nada a ver” é uma expressão comumente usada para aqueles que não trabalham com algo que tem o mesmo nome daquele escrito no seu diploma. Os que pensam em trabalho interdisciplinar, curiosidade para fusionar conhecimentos diferentes e em inovação através de diversidade são excessões à regra. A formação universitária, além de possuir uma carga horária incompatível com o sentido mais abrangente da palavra “formação”, dá se por memorizações infinitas e métodos educacionais que não funcionam.

O Brasil é um dos países com a maior carga horária na graduação, independentemente da área de estudo e particularmente - e contraditoriamente - nas universidades a pedagogia é uma ficção científica. Há professores que se comprometem com a educação e o aprendizado - mas a maioria parece estar ensinando códigos aos computadores. E, vamos convenhar que computadores decoram códigos muito melhor que nós. A burocracia, ineficiência e o “feudalismo” completam o bolo para que as aulas sejam autoritárias, desprazerosas e desmotivantes.

Talvez essa tentativa de tecnicizar, robotizar e padronizar pessoas seja um empecilho para que as pessoas consigam juntar conhecimentos, ser criativo e comprometido com a curiosidade a mais diferentes campos de estudo. Podemos citar muitos fatores, como a forma da colonização e exploração, monarquia, ditadura, paternalismo e demagogia, democracia recente etc, mas o fato é que, para nos tornarmos competitivos, inovadores e, talvez, mais felizes, precisamos incorporar novos valores.

E o que tem a ver com a saúde? Basicamente tudo. Decorar detalhes e praticamente vomitar informações na prova em vez de praticar o raciocínio e consolidar os conhecimentos teóricos. Carga horária aberrante nos primeiros anos, em que o conceito de “universidade” poderia ser mais explorado - abarcando conhecer outros institutos e matérias - é deixado de lado para que a qualidade de vida seja comprometida. Na realidade, não há o curso mais contraditório que a medicina: insistimos exercício físico, hobbies e manutenção de amizades aos pacientes, enquanto a nossa saúde, relacionamentos e gostos pessoais ficam para a expectativa do futuro quando “vamos ganhar dinheiro e ter dinheiro para nós mesmos”. Esta carga horária é realmente um feito brasileiro de não se orgulhar - países como Canadá, Alemanha, Estados Unidos e Holanda possuem espaços para que os alunos possam ter atividades fora da faculdade - inclusive de estudar medicina, aprofundar-se em tema de interesse em medicina e manter a saúde, como a medicina preza - quase uma ironia. Imagina um médico, que ao mesmo tempo que entende de ciências médicas, aprendeu sobre design e inteligência artificial na faculdade...ou história da formação cultural do Brasil...ou pedologia: o que a conexão de conhecimentos e pessoas pode gerar?

Muitos sabem disso, o porquê de não agir não tenho resposta. Lembro, por exemplo, o caso de uma respeitada faculdade de medicina em que a coordenação não bastava ter mentido, omitido e negligenciado as necessidades dos alunos, precisava de ego para a sua chefia, mesmo que fosse de forma antiética e imoral, e engajava em atividades, inclusive do uso dos recursos públicos, para o benefício próprio. Talvez tenhamos desistido? Mas é incrível que, na mesma faculdade a mudança na gestão conseguiu trazer novos ares: é do conhecimento de todos que liderança e criação de cultura é crucial para o bem estar e alinhamento do mindset. Faz diferença para quem está no poder estar engajado em melhorar e melhorar.

Queremos um Brasil com profissionais inovadores, criativos e que possamos nos valer das nossas potencialidades. Temos muitos problemas sociais, econômicos, de competitividade e moralidade que se valer dos modelos atuais vamos falir em múltiplos níveis como uma sociedade, ou talvez saborear a deterioração de geração em geração. A pauta da educação é uma delas, mas crucial para que possamos construir o alicerce necessários para que aquela nossa vibração e entusiasmo de 2008 para 2012 possa continuar.

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