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O impacto do digital na rede de segurança de populações vulneráveis

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A pandemia evidenciou globalmente as inequalidades dos sistemas de saúde, especificamente em comunidades carentes. A falta de acesso à instituições que permitam atendimento de qualidade no tempo certo, além do sentimento de descaso e isolamento, podem agravar as desigualdades existentes. 

A Covid-19 forçou o reconhecimento da necessidade de sistemas de saúde mais integrados e que cuidem das populações clínica e socialmente vulneráveis. Agora pode ser o momento que estávamos esperando para colocar em prática modelos de atendimento e pagamento sob a perspectiva da inovação e da centralidade no usuário.

Contudo, com a aceleração das soluções digitais na saúde, na evolução de um modelo presencial para um híbrido, que considera a tecnologia, devemos prestar atenção em quem pode ser deixado para trás. A inclusão das experiências digitais demandam recursos e habilidades que podem aumentar a disparidade já existente em populações desamparadas.

Neste cenário, o qual o digital é considerado, é nítido que os os determinantes sociais da saúde (DSS) precisam ser encarados como componentes fundamentais dos modelos, visto seu impacto nos resultados dos usuários, na qualidade dos cuidados e nos custos médicos. A raça, etnia, nível de renda ou localização geográfica de um indivíduo tem mais influência sobre sua saúde física e mental do que fatores clínicos. 80% de todos os resultados de saúde são devidos a fatores sociais, comportamentais e ambientais. Fatores como violência, insegurança sanitária ou alimentar são englobadas nos cinco domínios dos DSS: estabilidade econômica, acesso e qualidade da educação, acesso e qualidade dos cuidados de saúde, ambiente, e contexto social e comunitário.

Melhorar os resultados de saúde de populações vulneráveis requer uma abordagem coordenada, proativa e comunitária. A coleta dos dados desses usuários continua sendo um desafio para muitas organizações, e assegurar que as informações sejam representativas daquele público ainda é uma barreira. Além disso, muitos provedores, seja pelo sistema público ou privado, não dispõem de tempo e recursos para tirar conclusões significativas e acionáveis a partir de dados de determinantes sociais.

Isso já é nítido desde o ensino formal de medicina, no qual o treinamento é focado em como tratar doenças, e não como prover saúde através dos DSS. As perguntas habituais da anamnese são imprescindíveis, mas outras questões relacionadas aos determinantes permitem uma imagem holística do paciente e ajudam a melhor mapear as suas necessidades.

A lógica por trás da ideia é simples, mas a execução é complexa, dependente de várias partes interessadas, tecnologia, estratégia, e retorno indiretos sobre os investimentos. O compartilhamento de dados através de uma sólida infra estrutura permitiria direcionar os esforços e pensar, de fato, em um cuidado coordenado médico e social. Em um mundo ideal, quebrar o ciclo de privação.

Os usuários fora de uma rede de segurança estão expostos a situações evitáveis que comprometem sua saúde, recebem cuidados inconsistentes, se locomovem de forma errônea no sistema, e majoritariamente adotam um comportamento reativo com a sua saúde. A conta da invisibilidade dessas pessoas, especialmente no Brasil, é paga com a vida ou com dinheiro público mal alocados.

A saúde não é apenas a soma das intervenções administradas durante um único episódio de atendimento, mas inclui a experiência geral do atendimento e os fatores que os pacientes vêem fora das quatro paredes do hospital. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos da Carolina do Norte, por exemplo, implantou uma plataforma de admissão de pacientes, que envia alertas em tempo real aos provedores e coordenadores de atendimento sobre as necessidades sociais individuais dos pacientes. Como parte do projeto, a Carolina do Norte também implantou a primeira rede coordenada (ACO) em todo o estado com uma tecnologia compartilhada conectando prestadores de serviços sociais e de saúde, facilitando a conexão de pacientes com recursos para atender suas necessidades sociais.

Um estudo de 2017 do Massachusetts General Hospital mostrou um exemplo de como a tecnologia poderia contribuir neste contexto. A instituição utilizou técnicas de processamento de linguagem natural (PLN) para ajudar a extrair dados socioeconômicos significativos do prontuário eletrônico e gerir o risco extraclínico daquele paciente. Como as informações DSS são geralmente coletadas dentro do prontuário em um formato não estruturado, em textos livres ou códigos não padronizados, ferramentas como a PNL poderiam ajudar os provedores a obter as informações necessárias para encaminhar os pacientes a serviços sociais críticos, além de guiar o seu fluxo no sistema caso os dados fossem interoperáveis.

Até o encaminhamento poderia se beneficiar de uma rede integrada e focada na comunidade. Por exemplo, uma sinalização positiva para a insegurança alimentar pode receber uma prescrição digital para um banco de alimentos local, que estará aguardando a visita do paciente já com as informações necessárias. Recursos como este, pensados como uma estratégia macro e centrada no paciente já possuem tecnologia para serem implantados.

Um ponto que deve ser considerado sobre o tema é o papel dos médicos, especialmente os médicos de família, responsáveis pela atenção primária. Uma pesquisa da Academia Americana de Médicos de Família de 2018 mostrou que 80% deles sentem que não têm tempo para discutir os determinantes sociais durante as consultas de rotina. Sessenta e quatro por cento disseram que não acreditam ter recursos para fazer algo sobre fatores de risco social, mesmo que possam identificá-los.

A pandemia está despertando um avanço na transformação do cuidado e no olhar holístico no paciente que outrora caminhava a base de pequenos pilotos. É uma oportunidade de ampla mudança em todo o ecossistema de saúde - um sistema melhor, que conecta os cuidados, que instrui as pessoas sobre o momento certo de utilizar cada recurso e que utiliza tecnologias para proporcionar uma experiência de qualidade ao paciente. É um modelo que considera valor, e mais do que isso, um modelo que não existe um “dono” que calcula meticulosamente o retorno para cada dinheiro investido. É um projeto coletivo. Um ecossistema que, sem dúvidas reduz os custos globais, mas principalmente salva vidas.

 

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