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Telemedicina pode reduzir o efeito estufa? Sim, já está reduzindo

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O impacto da Saúde Conectada na redução de CO2

setor de saúde raramente é incluído no debate das políticas públicas de descarbonização, embora seja um dos principais emissores de carbono no planeta. Mas a Covid-19 está impelindo o setor para dentro da concertação social gerada pelo efeito estufa. Um ano após o início da pandemia, um dos maiores sistemas de saúde dos EUA quantificou alguns dos impactos ambientais resultantes da rápida mudança para o ‘atendimento online’ (telemedicina aplicada, também chamada de ‘remotelização do atendimento médico’). CommonSpirit Health é o maior sistema de saúde católico do mercado norte-americano e a segunda maior rede de hospitais sem fins lucrativos dos EUA, operando mais de 700 centros de saúde e 142 hospitais em 21 estados. Foi fundada em 2019 pela fusão da Dignity Health com a Catholic Health Initiativesformando uma das maiores redes de assistência médica sem fins lucrativos do Ocidente. Esse gigante assistencial realizou um estudo sobre a redução na emissão de carbono com o uso intensivo das “consultas médicas virtuais”. A CommonSpirit calculou que 1,5 milhão de visitas virtuais realizadas em suas clínicas entre 8 de março de 2020 e 2 de abril de 2021 evitaram a queima de 6,4 milhões de litros de combustíveis fósseis, que liberariam 15 mil toneladas de dióxido de carbono. Além disso, o sistema estimou que seus pacientes economizaram cerca de US$ 11 milhões por não precisarem se dirigir até o local físico das consultas. Não é muito no contexto geral da emissão de uma rede hospitalar, mas é expressivo quando adiciona mais um item dentro da cadeia de benefícios da consulta virtual.

segmento de serviços de saúde, cuja missão é proteger e promover a saudabilidade, há décadas dá uma grande contribuição para a crise climática global. Além das principais emissões (dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, clorofluorocarbonos, perfluorocarbonos e hidrofluorocarbonos), o setor também contribui com outras ameaças ambientais à saúde humana, principalmente pela contaminação terrestre e hídrica, como explica o documento “Health Care’s Climate Footprint” de 2019. Não é necessário pensar muito para perceber também os estragos que os resíduos poluentes promovem durante a pandemia: estima-se que globalmente cerca de 130 bilhões de máscaras faciais e 65 bilhões de luvas foram utilizadas na Covid-19 somente em 2020 (fonte: “Protecting the environment from plastic PPE” – PubMed, 2021).

Uma avaliação atualizada das emissões ambientais do Setor de Saúde nos EUA, por exemplo, foi realizada pela publicação Health Affairs em dezembro de 2020 (“Health Care Pollution And Public Health Damage In The United States: An Update”). O estudo mostrou que as emissões de ‘gases de efeito estufa (GEE) geradas pelo setor de saúde’ nos EUA aumentaram 6% de 2010 a 2018, atingindo 1.692 kg per capita em 2018, ou seja, a mais alta taxa entre as nações industrializadas, significando que só em 2018 a liberação de poluentes atmosféricos tóxicos do setor resultou na perda de 388 mil anos de vida por incapacidade. Assim, a indústria mundial de serviços de saúde já é responsável por cerca de 4,5% das emissões globais de gases de efeito estufa (só os EUA respondem por ¼ das emissões globais de GEE). Não é diferente no Canadá, cuja redução de GEE é uma missão de Estado. Quando comparado a outros 47 sistemas de saúde, o canadense tem a terceira maior emissão per capita, segundo a Canadian Medical Association (CMA).

Nessa direção, a telemedicina passou a ser (mais uma vez) um recurso adicional para ajudar a solucionar os problemas do século XXI. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da University of Cambridge (“Does telemedicine reduce the carbon footprint of healthcare? A systematic review”), publicado no Future Healthcare Journal em março/2021, revisou 14 pesquisas sobre a “telemedicina e a sua correlação com as emissões de carbono”. A conclusão é que “os ensaios relataram unanimemente que a telemedicina reduz a emissão de GEE, principalmente pela redução de emissões associadas ao transporte" (segundo o trabalho, a redução por consulta médica virtual variou entre 0,70 e 372 kg de CO2). A desfecho dos pesquisadores de Cambridge foi claro: “Isso poderia ter amplas implicações na redução da emissão de carbono dos serviços de saúde em todo o mundo”.

O paradoxo continua quando o mais colossal surto epidêmico dos últimos cem anos fez emergir de maneira visceral a chamada remotelização do atendimento médico, também conhecida como Saúde Conectada. Quando o ‘efeito da mudança climática’ sinaliza ser o próximo flagelo da humanidade, a Covid-19 impulsiona o sistema global de saúde a utilizar uma poderosa ferramenta de digital health que, entre outras coisas, também reduz a emissão de carbono. O uso da ‘saúde conectada’ para redução da poluição ambiental não é novo. Já em 2014 a pesquisa “Carbon Footprint of Telemedicine Solutions - Unexplored Opportunity for Reducing Carbon Emissions in the Health Sector”, conduzida pelo University Hospital of Umeå, na Suécia, mostrava que em duas de suas unidades de reabilitação a substituição das visitas presenciais por consultas virtuais resultou na redução de emissões de CO2 entre 40 e 70 vezes. Segundo o estudo, uma consulta de telerreabilitação pode gerar até 6,4% de economia nos ‘custos de carbono’ quando comparados as consultas presenciais. Ou seja, já em 2014 a conclusão do estudo era clara: “a telemedicina é uma estratégia potente na redução de carbono no setor de saúde. Ela contribui significativamente para a mitigação das transformações climáticas, promovendo uma mudança de paradigma, onde a consulta remota passa a ser não só um componente essencial das atividades sanitárias, mas também um poderoso redutor dos problemas ambientais”. Outro estudo (“Using telemedicine for a lower carbon footprint in healthcare: A twofold tale of healing”), realizado por pesquisadores da University of Crete (Grécia) e publicado em março/2021, vai na mesma direção, mostrando que a redução das emissões de carbono e o aumento escalar da telemedicina seguem trajetórias paralelas, abrindo caminho para uma relação mais amigável entre o setor de saúde e o meio ambiente.

Inúmeros outros trabalhos de pesquisa mostram como a saúde conectada pode mitigar a emissão de CO2, como o estudo realizado em 2017 pela University of California (“Telemedicine saves patients time, Money”), que examinou cerca de 20 mil consultas remotas entre 1996 e 2013, constatando um sólido resultado: os pacientes evitaram um deslocamento superior a 5 milhões de milhas, o equivalente a quase 2 mil toneladas de CO2. Em 2019, a Espanha também publicou um minucioso estudo (“Impact of a Telemedicine Program on the Reduction in the Emission of Atmospheric Pollutants and Journeys by Road”) que analisou mais de 12 mil referências de telemedicina feitas entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019 por centros de atenção primária na região central da Catalunha. Os pesquisadores identificaram quase 200 mil quilômetros de viagens economizadas pelas consultas remotas, com uma redução de 29,4 toneladas de CO2 e 36,6 toneladas de CO.

Mas não deve haver ilusões: se por um lado a telemedicina permite a redução da emissão de carbono, na outra ponta ainda existe uma clara compensação de outros elementos que pesam desfavoravelmente contra a Cadeia de Saúde na conservação ambiental. Um exemplo dessa discrepância foi publicada em abril/2021 na pesquisa “Impact of COVID-19 on the social, economic, environmental and energy domains: Lessons learnt from a global pandemic”, que evidenciou um cenário de maximização na emissão de CO2 no contexto pandêmico, notadamente nos grandes hospitais com alto volume de pacientes pandêmicos. Ou seja, se a saúde conectada pode aliviar a emissão de carbono, a cadeia sanitária ainda tem muito o que fazer. Ela ainda é uma das principais indústrias de serviços a contribuir com resíduos que comprometem o meio ambiente: produz mais de 13 kg de resíduos por leito/dia, gerando anualmente mais de 5 milhões de toneladas de resíduos poluentes (fonte: Practice Greenhealth).

Certamente que a Covid-19 está deixando muito pouco tempo para a cadeia global de saúde se dedicar a avaliação dos impactos da telemedicina na redução dos GEEs. Mas não precisa ser um gênio da lâmpada para perceber que os ganhos existem e serão cada vez mais metrificados nos próximos meses. Por ora, todos avançam rapidamente para obter os benefícios da Saúde Conectada, que ainda revelará nos próximos anos inúmeros outros ganhos. É um pouco como o pintor que cria uma tela com a expressão de “uma flexa deixando o arco para atingir um alvo”. O artista capricha no arco, na flexa e no esforço do arqueiro, mas deixa o desenho do alvo para o final de tudo. Ele não tem pressa. Sabe que por mais que a flecha ziguezagueei sempre existirá um inequívoco alvo à sua frente.  

 

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator – HIMSS@Hospitalar

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

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