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Hospitalistas sobrecarregados nos EUA.

guilherme

Posso dizer que fui testemunha ocular da história da Medicina Hospitalista nos EUA. Visitei hospitais antes do grande boom e ao longo das últimas duas décadas.

Pressão por eficiência e produtividade foram vetores que lá atrás fizeram com que pelo menos um tipo de profissional fosse colocado no centro do cuidado médico hospitalar e não mais dividisse o seu tempo e a sua energia com outras muitas atribuições, na época eminentemente extra-hospitalares. O perfil escolhido estrategicamente foi de generalista. Surgiu o médico hospitalista.

Pois parece que uma também pressão por eficiência e produtividade, embora com natureza diferente e, por vezes, bem menos objetiva, quando não confusa, tem alterado o cenário novamente. Hospitalistas estão sendo deslocados para outras muitas atribuições - agora dentro do próprio hospital ou alguma instituição afilhada, como através de telemedicina. O que antes garantiu foco e dedicação à assistência médica no hospital, agora está distanciando o profissional dos seus pacientes, ou reduzindo o tempo para atendê-los, ou trazendo atribuições que concorrem entre si.

Tenho percebido meus contatos hospitalistas cada vez mais cansados, quando não esgotados. Já descrevi isso aqui e aqui. Escutei novos testemunhos agora em julho e agosto durante viagem. Atendem mais pacientes por dia do que anos atrás, o período continua com 24hrs e, mesmo assim, estão a abraçar o mundo nos hospitais, sob o comando de gestores na onda do “já que estão por aqui mesmo”.

Conversando com colega brasileiro, respondeu que, por isso, na sua instituição, tiraram os hospitalistas de todas as atividades não diretamente assistenciais. Mas não se trata disso, como é difícil!!! Nas organizações que estão no ponto de equilíbrio, hospitalistas não deixam de buscar a interface com o “sistema”. Jamais! Foi-se o tempo do "médico-avestruz", atento apenas ao seu doente e alheio à complexidade e ao dinamismo do ambiente no qual ambos estão inseridos. "Mas perdiam tempo demais nos grupos de trabalho, longas reuniões", insistiu ele. Escancarou histórica dificuldade das organizações em gerenciar projetos. Sejamos sinceros e humildes: ainda estamos, na maioria dos locais, aprendendo a fazer reuniões minimamente boas. O médico é um recurso oneroso e seu aproveitamento fora da atuação principal deve ser como o de antibióticos no hospital: quando devidamente indicados, na dose certa (nem mais, nem menos), pelo menor tempo possível.

Minha questão é outra: muitas novas atribuições dos hospitalistas são inclusive clínicas, apenas adicionais, algumas vezes fora do escopo. Como cobrir a sala de recuperação cirúrgica durante buraco de 3 horas na escala, para conveniência de anestesistas. Quando não clínicas, como antes não eram tantas, protegiam o tempo do médico para uma coisa ou outra (as boas instituição, ao menos). Estão cada vez mais ignorando isso, a medida em que mais e mais demandas surgem. Vivemos, por exemplo, um turbilhão de iniciativas no campo da qualidade e segurança, muitas questionáveis. É uma repetição do absurdo já feito com a Enfermagem nos EUA e no Brasil, afastando o profissional do paciente, mesmo que de maneira relativa, ou seja, comprometendo o tempo possível com cada doente individualmente.

Nos EUA, o movimento que prejudica tempo disponível ao paciente hospitalizado se dá partindo de médias de permanência já absurdamente otimizadas. Aqui ainda não colhemos os benefícios da primeira onda de eficiência e produtividade. E, mesmo lá, isso surge com alguns desafios bastante dependentes de tempo com o paciente ainda não adequadamente explorados, como da melhora no processo de estabelecermos diretivas antecipadas de vontades nos hospitais.

Percebi, além da exaustão, preocupação com médicos residentes novamente mais desacompanhados no dia-a-dia das enfermarias. Mais uma vez escancarando que eficiência e produtividade podem ser causa/consequência de modificações positivas no sistema. Ou o contrário. Razão pela qual não devem representar muito além de meios para um cuidado centrado nos pacientes e na comunidade em que estão inseridos.

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