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Cirurgia bariátrica - onde vamos parar ?

O número de cirurgias bariátricas só tem aumentado no Brasil. Isso é tema só da auditoria médica ?

A obesidade é um problema

importante de saúde pública e a população de obesos mórbidos aumentou 900% em

apenas 20 anos, atingindo 0,76% da população e, portanto, temos mais de um

milhão de brasileiros nesta condição. Neste contexto, em muitas situações, a

cirurgia bariátrica tem sido considerada a panaceia para o problema, tendo

cobertura tanto no SUS quanto na saúde suplementar. No entanto, o tema é pouco

estudado e há poucas referências na literatura científica nacional sobre o

tema.

Portanto, assume grande

importância a contribuição de Silvana Marcia Bruschi Kelles, da Faculdade de

Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que foi a vencedora do

IV Prêmio IESS de Produção Científica em Saúde Suplementar na categoria “Promoção

da Saúde” com o seu estudo sobre o “Impacto da Cirurgia Bariátrica, em Médio

Prazo, na Utilização de Serviços de Saúde, Mobi-mortalidade e Custos com

Atenção Médica”.

Inicialmente, a autora fez uma

revisão sistemática da literatura para analisar a comorbidade dos pacientes

submetidos à cirurgia bariátrica atendidos pelo SUS que está disponível para a

população desde 1999. Uma barreira importante para as pesquisas neste campo é a

inexistência de um banco de dados nacional com as informações clínicas dos

pacientes operados. A autora identificou 1051 estudos e, na média, os pacientes

têm 40,4 anos, IMC 49,1 kg/m², 77% são mulheres, 65% são hipertensos e 21% são

diabéticos. Este perfil demonstra comorbidades e IMCs mais elevados do que o

observado em estudos internacionais e, consequentemente, um risco aumentado de

desfechos adversos.

Em seguida, a autora analisou dez

anos de cirurgia bariátrica no Brasil, comparando a mortalidade intra-hospitalar

de pacientes atendidos pelo SUS e por uma operadora privada de saúde em Minas

Gerais.  Neste período foram realizadas

24.342 cirurgias bariátricas pelo SUS (10.268 na região Sudeste).  A operadora de saúde realizou 4.356

cirurgias. Uma informação bastante relevante foi a de que a frequência de

cirurgias realizadas pelo SUS aumentou em todo o Brasil de 0,65/100.000

habitantes em 2001 para 5,23/100.000 em 2010 e na operadora de saúde passou de

48/100.000 para 91/100.000 indivíduos acima de 18 anos. A autora conclui que a

mortalidade intra-hospitalar dos pacientes atendidos pelo SUS na região Sudeste

(0,44%) foi semelhante ao observado na operadora (0,3%).

Finalmente, a autora faz um

estudo que, sem dúvida, deve ser referência a todos os planejadores de saúde.

Realizou uma análise nas tendências de utilização do sistema de saúde antes e

após a cirurgia bariátrica numa coorte de 4 anos acompanhando 4006 pacientes

operados, associados a uma única operadora de saúde brasileira. Constatou que

há um aumento consistente nas internações hospitalares, consultas no

pronto-socorro após a cirurgia bariátrica, mesmo excluindo as hospitalizações

por cirurgia plástica e partos nos quatro anos que se seguiram ao procedimento.

Chama a atenção neste estudo que a idade média dos pacientes era de apenas 36,2

anos. Deste modo, a redução nos distúrbios relacionados à morbidade após a

cirurgia não implica em redução nos custos e na utilização do sistema de saúde.

O cenário apresentado por estes estudos demonstra que a

questão da cirurgia bariátrica não é somente assunto a ser abordado pelas áreas

de auditoria e regulação médica. Trata-se de problema que deve envolver as

pessoas, as empresas, as operadoras de saúde e o governo. A prevalência de

obesidade mórbida tende a aumentar e o número de cirurgias bariátricas

realizado na saúde suplementar supera, em muito, os parâmetros internacionais.

Deste modo, é muito relevante a necessidade de elaborar programas realmente

efetivos de promoção da saúde, de âmbito populacional, para que a discussão não

fique somente nos casos de obesidade mórbida, quando as medidas comportamentais

têm resultados limitados. Não bastam somente oferecer informações(com palestras

e material informativo), ou motivacionais. Estudos têm demonstrado a

importância das mudanças ambientais, do acesso a alimentos saudáveis, a

estímulos efetivos para a atividade física e uma abordagem renovada nos

serviços de saúde (incluindo os médicos e nutricionais). Neste contexto, as

empresas têm grande importância, pois é amplamente reconhecida a importância

dos programas no ambiente de trabalho, que deve envolver uma abordagem

integrada, inclusive com o serviço de saúde ocupacional, além de, naturalmente,

não estimular a judicialização do tema.

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