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Dilema do Home-Care: ou digitaliza o cuidado, ou alguém o faz

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A luta pelo suporte digital ao paciente domiciliar

“Conhece-te a ti mesmo”, teria dito Sócrates nos escritos de Platão. Ambos os pensadores gregos deixaram com esse aforismo, 370 a.C., uma boa pista sobre como devemos conduzir a nossa existência: ao invés de deixar que o mundo, os deuses e o universo digam o que podemos fazer, devemos buscar nossa autotranscedência (expansão dos limites pessoais) para mostrar ao mundo como queremos que ele nos perceba. Nem sempre caminhamos dentro dessa perspectiva, mas a Covid-19 está nos empurrando para o contexto socrático: ‘quando cuidamos de nós mesmos, modificamos a nossa relação com os outros e com o mundo’.

Uma das expressões mais utilizadas ultimamente no eixo da saúde é “jornada do paciente”. Ela reflete o ‘conjunto de etapas que o paciente percorre desde o momento em que percebe um sintoma, procura ajuda médica, até o pós-atendimento’. Na ótica da Cadeia de Saúde, a ‘jornada do paciente’ é imprescindível, sendo um mapa pelo qual todos devemos seguir para sermos acolhidos pelos Sistemas de Saúde (público ou privado). Todavia, na imanência do paciente nem sempre essa sequência de “entradas e saídas” é a melhor. A pandemia nos conduziu por trilhas próprias, inovadoras e nem sempre ajustadas a lógica dos sistemas de saúde.

O primeiro elemento ‘desestabilizador da jornada’ foi o caótico fluxo de informações desencontradas e ambíguas no início da pandemia. Sabíamos tão pouco sobre tudo que a única certeza era que o “isolamento domiciliar” era a melhor trincheira contra o ‘bombardeio viral’. Nossa ‘home’ era a última barricada. Não ficamos totalmente desamparados, havia proteção virtual. Podíamos nos comunicar com o mundo pelo smartphone ou WhatsApp, conectar telejornais, streamings, videoconferência, utilizar a telemedicina, oxímetros, ou devices de arritmia cardíaca, pressão arterial, etc. O arsenal eletrônico foi crescendo e hoje, setembro de 2021, mesmo com todas as incertezas sobre os rumos pandêmicos, ficou claro que a jornada do paciente pandêmico pode “começar e terminar em casa”.  Nosso modo orgânico e contínuo de autocuidado passou a ser umbilicalmente domiciliar. Assim, tudo o que é care’ passou a ser também ‘home’. Se nosso Plano de Saúde não nos ajudar nesse alinhamento, vamos sem ele. Se os hospitais continuarem nos esquecendo depois das internações, vamos verticalizar cada vez mais nossa atenção-primária-domiciliar’, e se os médicos não nos apoiarem, iremos com eles, mas cada vez menos dependentes deles. Nossa residência definitivamente passou a ser o ‘lugar-de-batalha’ na resistência aos patógenos e a muitos outros vetores unhealthy.

O segmento de Home Care (Assistência Domiciliar), obviamente, conheceu na Covid-19 uma expansão importante. Com conhecimento, experiência e mecanismos para atuar junto aos pacientes domiciliados, o setor foi de grande valia na salvaguarda dos clientes. Segundo o NEAD (Núcleo Nacional de Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar) o número de pacientes atendidos pelo setor cresceu 35% no país. Mais do que isso, vários outros players da cadeia sanitária (hospitais, clínicas, seguradoras, etc.), que estavam apáticos com o segmento, passaram a expandir suas operações domiciliares, sem falar na centena de startupshealth coachs, ou mesmo grupos estrangeiros que aterrissaram no mercado nacional oferecendo assistência residencial.

Todavia, o paciente também está tentando se emancipar. Dezoito meses depois do início pandêmico, e já acostumado ao ‘entrincheiramento domiciliar’, passamos a contar com muitas healthtechs oferecendo opções digitais para apoiar o autocuidado. Mundo afora, o paciente aumentou seu acesso a ferramentas tradicionais de suporte domiciliar (google-health-search, telehealth, personal health records, ePrescription, ePharmacy, mHealth-apps, etc.), mas também está incorporando inovadoras plataformas digitais que o empoderam a cuidar de si “sem arredar o pé de casa”. Assim, está ficando claro que a ‘cosmologia self-care’ será cada vez mais digitalizada, conectada e domiciliar, com inúmeros novos digital-players tentando apadrinhar o paciente em sua trincheira residencial.

Nesse sentido, uma das matrizes que mais cresce é Digital Therapeutics, que ajuda o home-patient’ a suportar condições crônicas, doenças cardíacas, câncer, diabetes, transtornos mentais, alergias, osteoporose e centenas de outras inconformidades graves ou circunstanciais. Dentro dessa lógica, um dos maiores desafios do século é prover “condições para que pacientes crônicos ou desorientados mudem seus hábitos”. A healthtech Second Nature, por exemplo, disponibiliza um programa digital de 12 semanas para lidar com a obesidade, fornecendo apoio virtual, educação e ferramentas digitais para rastreamento de peso, controlando boas práticas alimentares e de exercícios físicos. Se alguém acha que isso é ‘atenção domiciliar’, esqueça. Outrora até poderia ser confundido com home care, hoje se desvinculou. Trata-se de uma empresa “provedora de soluções para suporte a mudança de hábitos”. Só isso. Seu eixo é o apoio digital e seu mote é “Kick bad habits. Get healthy ones”. Utilizado em larga escala no Reino Unido (NHS), o programa possui uma taxa de conclusão de 79% (desfecho positivo), onde os usuários obtiveram uma perda média de peso superior a 8,0% em 6 meses. Estudo publicado em 2020 (“Effectiveness of a Digital Lifestyle Change Program in Obese and Type 2 Diabetes Populations: Service Evaluation of Real-World Data”) mostra o impacto da Second Nature na alteração de hábitos para redução da obesidade. A prática de “incentivo suportado por aplicativos” já está sendo usada por vários sistemas públicos de saúde. Na Austrália, por exemplo, os Home Care Packages (HCP) são fornecidos pelo governo para incentivar as pessoas a permanecerem em suas casas e se habituarem a novas práticas saudáveis (até outubro de 2020, o governo australiano já havia injetado US$ 1,6 bilhão em  cuidados domiciliares para idosos, com suporte digital). O mesmo já ocorre no Canadá, França, Alemanha e inúmeros outros países, sendo que uma das diferenças fundamentais para o paciente, quando comparado a uma ‘atenção domiciliar profissional-comercial’, é o custo (muitas vezes perto de zero).

O sentido da terapêutica digital avança também na direção da saúde mental. A Meru Health também disponibiliza um programa virtual de 12 semanas para lidar com ansiedade, depressão e esgotamento. Os pacientes recebem serviços à distância de terapeutas, psiquiatras e suporte anonimizado, utilizando aplicativos que controlam o programa e o biofeedback das atividades. A plataforma digital vai da terapia cognitivo-comportamental (TCC), passa pelas terapias de ativação comportamental, até chegar às terapias cognitivas baseadas em atenção plena (MBCT). No fundo, trata-se de um provedor de saúde online com programas baseados em evidências (como mostra o vídeo), voltados ao consumo domiciliar, sem que seja realizado necessariamente por uma operadora de home care. Seu expertise foi publicado na pesquisa “Smartphone-Delivered, Therapist-Supported Digital Health Intervention for Physicians with Burnout”, que utilizou o programa em médicos com sintomas de burnout. As métricas do programa lograram resultados significativos, reduzindo os sintomas de depressão e esgotamento.

No suporte a prevenção não faltam também boas plataformas digitais programáticas. Um exemplo é a canadense LivNao, capaz de rastrear os usuários com indicadores sintomatológicos, indicando precocidades e fornecendo intervenções just-in-time. Trata-se de um aplicativo móvel baseado em ‘symptom algorithms’ que avalia a probabilidade, por exemplo, de um usuário estar infectado pela Covid-19. A Novoic, outra plataforma digital, utiliza análises abrangentes da fala (oralidade) do usuário para detectar doenças neurológicas décadas antes, sendo que em alguns casos são mais precisas do que os métodos diagnósticos formais. Não é um “assistente domiciliar”, mas uma empresa de biotecnologia digital que desenvolve inteligência artificial para diagnósticos e monitoramento preventivo, incluindo estágios iniciais de Alzheimer e Parkinson. A prevenção vem também dos ‘At-Home Diagnostic Testing’, como o Hyfe, que utiliza biomarcadores vocais para detecção e análise da tosse, indicando doenças infecciosas, como tuberculose, Covid-19 e outras condições crônicas. Sua plataforma rastreia ‘tosses orgânicas naturais’ e fornece constantemente variáveis ​​de dados, que o aplicativo Hyfe converte em imagem 3-D (espectrograma). O ruído é processado em machine learning (base de dados com 270 mil sons), indicando correlações com várias patologias.

CarePredict, por outro lado, fornece uma pulseira com sensor de toque, microfone e alto-falante que detecta as atividades dos seus usuários, sendo que em 7 dias o sistema ‘aprende’ os seus padrões, identificando a qualidade da alimentação, atividades físicas, deslocamentos e estado de humor. Com isso a healthtech é capaz de antecipar a necessidade de uma internação em 3,7 dias antes do diagnóstico ser feito. O site da empresa ressalta aos familiares: “Saiba que eles estão bem” (pesquisa da AARP - Associação dos Aposentados dos EUA - divulgada em abril último, mostra que 82% dos adultos com 50 ou mais anos dependem das tecnologias digitais para saberem como estão seus entes queridos). Sem falar nas empresas de ‘Technology Concierge’healthtechs que permitem aos domiciliados manter sua independência e perseguir suas paixões por meio de tecnologias de apoio, como a Volara ou a Candoo Tech.

monitoramento domiciliar tornou-se a ‘pedra angular’ no suporte ao paciente, mesmo que ele não consiga fazê-lo e permita que terceiros o monitorem, como médicos. A premiada TytoCare, por exemplo, criou um dispositivo de monitoramento residencial que permite aos médicos rastrear o coração, pulmão, abdômen, temperatura e frequência cardíaca do paciente (confira no vídeo). É voltada também para aqueles que ‘não suportam pisar num consultório médico no meio de uma pandemia’.

Da mesma forma, cresce o arsenal de Testes-Rápidos, cada dia mais “caseiros”. Os testes (controversos) de antígenos da Covid-19, por exemplo, permitiram o isolamento de novos casos, conforme exposto no estudo “Validation of an At-Home Direct Antigen Rapid Test for Covid-19”, publicado na JAMA em 21 de agosto último. Outrora imprecisos e falseadores de resultados, os testes-rápidos vem progredindo e melhorando a resolutividade, como o TestCard, um kit-teste para UTI (Urinary Tract Infection), não invasivo, embutido em um cartão-aplicativo, que transforma uma “câmera de smartphone em um scanner de nível clínico” (acompanhe no vídeo). Seu uso na pandemia ascendeu de tal forma no Reino Unido que a empresa lançou o “Test and Treat”, onde ela fornece os testes (UTI e HIV) e a plataforma de telemedicina da Zava fornece teleconsultas e tratamentos prescritos por GPs. Várias empresas no Brasil já fornecem o mesmo serviço, sendo os testes cada vez mais user-friendly. Podem até ser sanguíneos, como os da CureX, que contempla aqueles que sofrem com alergias. Uma picada de sangue e o kit determina quais alérgenos podem estar causando o problema. Esses testes, já utilizados há mais de duas décadas, passaram a ser oferecidos pelas healthtechs. Outrora, os hospitais, clínicas, labs e provedores de Home Care tinham suas próprias centrais de diagnóstico, ou estavam alinhados entre si. Hoje, o paciente tem cada vez mais opções digitais para apoiá-lo na conduta sanitária domiciliar (teleorientação, telediagnóstico, teleterapia, etc.). Nobi, por exemplo, é um elegante sensor de lâmpada que ilumina a sala e detecta movimento humano. Quando seu algoritmo identifica a queda de uma pessoa, ele envia instantaneamente um alerta para pedir ajuda. Para os domiciliados, Platão explica: “não espere por uma crise para descobrir o que é importante na vida”.

De forma observadora e tranquila (até pelo crescimento da demanda), o segmento global de provedores de assistência domiciliar tenta entender qual será o seu papel no pós-pandemia. Continuará cativo dos idosos, crônicos e inativos, ou adotará uma digitalização crescente no cuidado domiciliar para ampliar sua base de clientes? Da mesma forma, cabe a pergunta: players do setor deixarão que os provedores de serviços digitais (healthtechs) se ‘acomodem na sala de jantar’ dos pacientes? Talvez estejamos entrando na era em que o próprio paciente (ou seus familiares) farão o ‘residential self-care’ utilizando insumos digitais para suporte a saudabilidade. Trata-se, enfim, de uma disputa acirrada por quem ‘adotará’ o paciente digitalizado. É também de Sócrates uma pensata sobre as disputas: “Às vezes você coloca fronteiras não para manter as pessoas de fora, mas para ver quem se importa o suficiente com você para querer derrubá-las”.

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator Hospitalar Hub

Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

*Em 21/09 estaremos debatendo no HIS 2021 (Healthcare Innovation Show) o tema “Dilema do Home Care: ou digitaliza o cuidado ao paciente, ou permite que alguém o faça”. Um encontro rico em ideias e propostas para todos os protagonistas envolvidos com o segmento de Assistência Domiciliar. Maiores informações aqui.  

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