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Reinicializando a Sala de Aula: nunca desperdice uma boa crise!

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A escola pós Covid-19 será híbrida e fascinante

Não há como negar os estragos que a Covid-19 está causando na vida escolar. A perturbação pandêmica e econômica agravou a crise educacional global, que já era preexistente e persistente. Na entrada do segundo quarto do século, os modelos de Ensino e Educação Formal, em todas as suas esferas, mostram-se esgotados e perdidos em meio as exigências da Quarta Revolução Industrial. Entre tantos experimentos educacionais, chegamos a 2019 sem consenso, sem prumos claros e carentes de uma nova forma de pensar a Educação. De repente, a Covid-19 gritou: “Pare! Parem tudo! Vamos começar do zero!”. Em menos de dois meses, 1,5 bilhões de estudantes frearam suas aulas e milhares de escolas frearam o chamado ensino estruturante. No início de 2021, entre tantas polêmicas de voltar ou não as aulas, poucos percebem a incrível oportunidade de fazer dessa ‘parada obrigatória’ um ponto de ancoragem para repensar os sistemas de ensino, notadamente a ‘Sala de Aula’, tradicional polo de aglutinação formacional. Será que as lideranças públicas e privadas do setor estão conscientes de que devem aproveitar esse “Parem tudo!” para reinicializar o ensino de maneira progressista? O modelo de sala de aula, onde alunos enfileirados gastam todo o seu tempo escolar ouvindo um professor, faz ainda algum sentido? Não seria agora o momento de uma ‘reinicialização’ que abandonasse o anacronismo da Era do Ensino para entrar cuidadosa, mas definitivamente na Era do Aprendizado? Certamente que existem ilhas de excelência e experiências exitosas no setor educacional, mas a predominância escolar presencial ainda tem o mesmo cenário de 100 anos atrás.

No mundo, cerca de 258 milhões de crianças em idade escolar primária e secundária já estavam fora da escola antes da Covid-19, com um índice de ‘Pobreza de Aprendizagem’ (incapacidade de ler e compreender um texto simples aos 10 anos de idade) de 53% nos países de baixa e média renda, significando, segundo o Banco Mundial,  que mais da metade de todas as crianças de 10 anos dessas nações não sabem ler e entender um simples texto. Assim, o fechamento das escolas só conseguiu agravar essa crise sistêmica, onde as ‘perdas de aprendizagem’ e a evasão escolar geram desperdícios globais superiores a US$ 10 trilhões (quase 10% do PIB mundial). A pandemia forçou o aprendizado remoto, mas a transformação digital do setor ainda é um núcleo de controvérsia, ganhando aplausos, mas também alguns urros de intolerância de professores (mal capacitados para o ensino digital), de alunos (insatisfeitos com o distanciamento da sala de aula), de pais (atormentados com a ideia de terem que assessorar os filhos a conduzir seus estudos), das escolas, de seus funcionários e de quase todos aqueles que gravitam ao redor da “lousa e do giz”. Um relatório do Banco Mundial (“The Covid-19 Pandemic: Shocks to Education and Policy Responses”), publicado em 2020, deixa claro o caminho a seguir: “O planejamento para um futuro melhor tem que começar agora. Mesmo quando os sistemas lidam com o fechamento de escolas, eles precisam começar a planejar como gerenciar a continuidade quando as escolas forem reabertas e como melhorar e acelerar o aprendizado. O princípio orientador deve ser usar todas as oportunidades, em cada fase, para fazer coisas de modo superior ao que era feito antes. É preciso aprender com as inovações e gerar novos modelos educacionais que possam escalar soluções cada vez mais eficazes. As sociedades têm agora uma oportunidade real de reconstruir a educação de uma forma melhor".

O fechamento das escolas também forçou as pessoas a confiarem mais nas tecnologias digitais, fazendo crescer o chamado movimento edTech (empresas centradas em tecnologias educacionais). Com ele cresceram as oportunidades de fazer girar a correia e reinventar a sala de aula. Como explica Silvio Meira, professor emérito da UFPE (Recife), cientista-chefe da The Digital Strategy Company e presidente do conselho de administração do Porto Digital (um colossal parque incubador com mais de 300 empresas e instituições de tecnologia): “inovação é mudança real, que tem impacto e afeta a vida das pessoas. Tudo, ao redor da educação, em todos os níveis, está mudando muito rapidamente. Se a educação não mudar, se os comportamentos associados ao processo educacional não mudarem, todas as instituições, estruturas e organizações, métodos, processos e conteúdos educacionais que conhecemos se tornarão irrelevantes, porque deixarão de atender a demanda do seu contexto. Ultrapassadas, obsoletas, elas serão substituídas por outras formas e locais de aprendizado. Ao contrário do que muitos pensam e professam, mesmo dentro do ambiente educacional, o essencial no processo educacional não é o ensino, mas o aprendizado. Se eu puder aprender fora do sistema, de forma mais eficaz e eficiente, por que iria perder meu tempo com o sistema?”. Meira, que foi professor do Berkman Klein Center (Harvard University), sendo hoje uma das melhores cabeças a pensar a reinvenção da sala de aula, adiciona: “É preciso repensar a sala de aula. Talvez até acabar com a sala e a aula. Já há um número de escolas assim, onde a sala e a aula foram trocadas por ambientes de aprendizado baseado em problemas, muitos deles reais e concretos. O principal problema a ser resolvido no processo de aprendizado é o engajamento dos alunos. À medida que o tempo passa, os alunos, que deveriam estar cada vez mais envolvidos no processo de aprendizado, estão cada vez mais distantes dele. Os resultados estão aí nas avaliações dos sistemas de ensino público e privado. E não será só a introdução de novas tecnologias, ou a injeção de mais recursos físicos ou financeiros, que vai mudar esse status quo. É preciso inovar de verdade, é preciso rever as bases sobre as quais o sistema educacional está assentado, é preciso centrar o sistema no aprendiz, para que os resultados fluam para a sociedade como um todo”.

O que está claro é que o ensino pós-pandemia caminha para um modelo híbrido, onde as tecnologias educacionais serão parte fundamental do aprendizado. Dos recém-nascidos aos mais jovens, todos deveriam herdar da Covid-19 um novo modelo de aprendizado, uma nova forma de estudar, conhecer, entender, e perceber as disciplinas escolásticas e o mundo em que vivem. Eles nasceram num mundo digital, e aprender nele e com ele será uma implacável realidade. As condicionantes da Escola Híbrida são claras e sufocam a ortodoxia dos que se recusam em aceitar o “novo-educacional”. A Profª. Heloísa Argento, pedagoga, Mestre em Educação, Especialista em Psicopedagogia, Diretora da “Professor do Futuro”, com 30 anos de experiência em Educação Básica (15 em EAD) explica: “o futuro de qualquer coisa ou área em nosso planetinha azul será híbrido, com uma dose de realidade aumentada e inteligência analítica (IA), que vão sendo progressivamente incorporadas”. Para ela, o futuro da educação é híbrido porque: (1) o mindset deste século é inegavelmente tecnocêntrico, ao mesmo tempo em que é também altamente empático; (2) a acessibilidade tecnológica das últimas duas décadas influenciou comportamentos, hábitos de consumo e o volume de dados disponíveis para ser aproveitado em qualquer área do conhecimento; e (3) a transversalidade passou a ser uma marca dos processos, produtos e serviços, onde profissões, especialidades e tecnologias interagem de forma diferente, demandando formações híbridas e perfis profissionais mais flexíveis e empáticos.

Assim como é difícil negar o estrago pandêmico na educação, é também difícil descartar a brutal influência que edTech está tendo no novo-educacional. Na Índia, por exemplo, a escolaridade digital antecedeu a pandemia, mas o surto interrompeu uma migração gradual e firme para o ensino digital. Em 2020, o Governo Central acelerou a digitalização, colocando o país na defensiva pandêmico-educacional. Tendo a metade da população com menos de 25 anos (600 milhões de indivíduos), o país fechou 2020 com cerca de 4.450 startups em edTech, concentrando como usuários mais de 300 milhões de alunos das escolas fundamentais e 40 milhões do ensino superior. Com isso a Índia tem duas de suas cidades (Bangalore e Delhi) na 7 ª e 14 ª posição do ranking mundial (Global Edtech Index), com o país verificando uma taxa de aprendizado ascendente de 7%, em comparação ao 1% dos formatos convencionais de ensino somente em salas de aula.

WEF (World Economic Forum) vem subsidiando cada vez mais a ideia do uso crescente da Realidade Aumentada (RA) e da Inteligência Artificial (IA) no aprendizado digital interativo. Um bom exemplo da WEF é o Virtuali-tee, da Curiscope: uma camiseta & aplicativo que permite ao usuário aprender sobre seu corpo, utilizando um smartphone que explora virtualmente as várias camadas do interior humano. Já a plataforma Sparx Maths utiliza aprendizado de máquina para apoiar os professores no fornecimento de tarefas personalizadas, ajudando também as crianças desfavorecidas a progredir na mesma proporção que as demais. O KidSense.AI usa deep learning para ‘alimentar’ o Robô Roybi, um device inteligente que ensina idiomas e habilidades básicas em ciência e matemática. Em Gana, Nigéria, Libéria, Serra Leoa e Gâmbia o aplicativo de aprendizado ULesson já é largamente utilizado, com os alunos acessando inúmeras práticas digitais em matemática, língua inglesa e ciências básicas. O Genial.ly, com seus 5 milhões de usuários, é apoiado pela AWS e permite que alunos e professores façam ‘demonstrações de estudos e trabalhos’ em formato digital. O Zero Gravity, outro exemplo, é um completo sistema de mentoria para ensino superior, cujo objetivo é conectar alunos de escolas públicas do Reino Unido com alunos da Graduação, que passam a compartilhar experiências com os aspirantes. No Brasil, existiam em 2019 mais de 450 edTechs (23% a mais do que em 2018), de acordo com o Mapeamento Edtech 2020, da Abstartups. Foi um dos segmentos que mais cresceu em 2020, com inúmeras novas plataformas educacionais surgindo no mercado público e privado nacional.

Não são só as salas de aula que estão defasadas, as ementas escolares, notadamente no Brasil, também não refletem o contexto deste século. Conforme estudo publicado em janeiro/2021 pela The Lancet (“Covid-19: The Intersection of Education and Health”) no mundo todo a ‘defasagem temática’ ainda é gritante: “Os sistemas educacionais serão mais benéficos quando fornecerem mais do que um currículo em ciências, matemática, línguas e outras disciplinas acadêmicas. São os programas que melhor apoiam as habilidades cognitivas e comportamentais das crianças - autossuficiência, tomada de decisão, controle da ansiedade, comunicação e assertividade – aqueles que realmente permitirão que elas avancem. As habilidades educacionais tradicionais precisam ser expandidas para incluir também o treinamento em saúde, direitos sexuais e reprodutivos, nutrição infantil e saúde mental”. No Brasil, os desafios curriculares são descomunais. Quando em 2017 a BNCC - Base Nacional Comum Curricular (Educação Infantil e Ensino Fundamental) foi aprovada, com implementação agendada para 2020, não havia no horizonte a pandemia. Isso desintegrou planos, cronogramas e inicializações, embora a expectativa seja de que em 2021 o processo deslanche. Construir efetividade com o BNCC é importante, mas empoderar a forma de seu aprendizado é ainda mais decisivo.

O novo palco de aprendizagem será menos ‘sala de aula’ e mais ‘biosfera digital’. Alunos serão capazes de cooperar com os professores aumentando drasticamente a disposição de ambos em aprender e ensinar. Se tornarão ‘parceiros de negócios’ e sócios das inovações educacionais. Escola, professor e aluno estarão engajados em um sistema híbrido, trabalhando em colaboração, em equipe, dentro e fora dos espaços físicos (construção coletiva de conhecimento). A socialização humana continuará acontecendo nas salas físicas, num formato muito mais interativo e menos competitivo, onde professores serão tutores com função de fazer o aluno ‘aprender a aprender’. É preciso desconstruir o conceito de que “um professor e 40 alunos” é uma receita de futuro. É necessário aproveitar o momento pandêmico e estabelecer um novo contexto de aprendizado. Caso desperdicemos essa oportunidade, continuaremos no mesmo perfil escolástico descrito pelo Diretor de Inovação do Instituto Ayrton Senna, o educador Mozart Neves Ramos“O Brasil tem uma escola do século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI”.

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico – HIMSS Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

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