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Black Friday na saúde?

Rodrigo-Suprevida

Uma semana de expectativa que termina em compras, muitas compras. A Black Friday, antes muito mais popular em outros países que aqui, caiu no gosto dos brasileiros. E pandemia nenhuma é capaz de mudar isso. Nesta semana vimos oferta de tudo. Até posto de combustível deu um jeito de entrar na onda. Todos querem abocanhar um pedaço do montante que circula nesta época do ano. Para quem não sabe dos números, a Black Friday de 2019 movimentou mais de R$ 3,87 bilhões em compras no e-commerce, segundo levantamento do movimento Compre&Confie.

Mas nesta linha de “qualquer ramo pode entrar”, fica a reflexão: e a saúde, tema mais falado em 2020? Também pode fazer seu dia de oferta ou até mesmo a semana, como muitos estabelecimentos têm feito? A resposta é não. E posso enumerar vários motivos. O primeiro e talvez mais importante é que compras relacionadas à saúde são feitas por necessidade, então nenhum estímulo deveria impulsionar a demanda.

Além disso, é importante que os preços nessa área sejam sempre estáveis para as pessoas terem condição de manter seu tratamento. Se é possível baixar o valor por uma semana, pensando que estamos falando de artigos de necessidade, o preço deveria baixar o ano todo, permitindo acesso de maneira contínua e democrática, não apenas para quem tem recursos disponíveis nesta ocasião.

Outro ponto de atenção é o estresse. Sim, sabemos que esta época do ano deixa as pessoas tensas. Conseguirão comprar o que querem? Cairão em alguma fraude? Terão o cartão de crédito clonado? Afinal, até os golpistas preparam esquema especial para se fazerem presentes na semana mais aguardada do ano. Acontece que estresse é uma palavra que não combina com paciente. Pelo menos não deveria. Preços muito baixos podem ser golpes, produtos falsificados, contrabandeados, vencidos ou roubados que não atendem aos requisitos de segurança e eficácia dos produtos e da logística da saúde.

A saúde tem uma cadeia de fornecimento que trabalha com previsão estável de demanda para não gerar desequilíbrios e falta de produto. O ciclo não depende de coleções ou sazonalidades, mas sim do desenvolvimento tecnológico e adoção pela classe médica. Esse tipo de esforço pontual sobrecarrega a necessária atividade operacional e logística, aumentando a chance de falhas de produção e entrega, que na saúde são inadmissíveis.

Isso significa que nunca devemos ter redução de preço na saúde? Claro que não. Em situações pontuais de excesso de estoque por problemas de planejamento ou até alguma aquisição não cumprida, é possível uma redução maior no valor, mas não necessariamente com data marcada para uma sexta-feira específica. Na minha visão, a manutenção da saúde é um esforço contínuo de prevenção, diagnóstico, tratamento, recuperação e sustentação, incompatíveis com a lógica do impulso consumista da Black Friday.

Vou além… Em um ano em que a saúde esteve no foco em todos os momentos, vale lembrar que o esgotamento de crédito provocado pelo excesso de compras de algumas famílias pode impedi-las de adquirir itens de primeira necessidade caso surjam emergências pontuais. Por isso, vale a festa toda das compras, mas com limite e responsabilidade. Na saúde, o que importa é a sustentação e não o impulso com data marcada e validade curta.

Sobre o autor

Rodrigo Correia da Silva, CEO da Suprevida