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China já tem a maior “Plataforma (IA) de Suporte Clínico” do mundo

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A força da Inteligência Artificial no ecossistema chines de saúde

“Ping An Smart Healthcare”. Guarde esse nome. Na próxima década essa plataforma digital deverá ser uma das referências para todos os projetos públicos e privados que envolvem Inteligência Artificial (IA) na Saúde. Não importa o quanto você é ou não simpático a China, em algum momento nos próximos anos você poderá estar utilizando insumos tecnológicos, estratégias e práticas extraídas dessa espantosa plataforma. Desenvolvida pela gigante chinesa Ping An Insurance, considerada a maior seguradora do planeta, com US$ 1,25 trilhão de ativos e 500 milhões de usuários online, a Ping An Smart Healthcare suporta e monitora uma expressiva parte da Cadeia de Saúde da China. A empresa e sua plataforma acompanham e apoiam hospitais, médicos, farmácias e provedores de digital health, sem contar os milhões de usuários que utilizam sua malha de algoritmos. Em 2021, ela já suporta mais de 500 mil médicos espalhados por 37 mil instituições chinesas de saúde, ajudando, por exemplo, cerca de 2,6 milhões de pacientes crônicos a controlar suas morbidades.

Em menos de três décadas, a China tirou 600 milhões de habitantes da linha de pobreza, mas criou um perverso impacto colateral na saúde. Só no ‘eixo’ diabético, o país possui 114 milhões de pacientes (o maior contingente do mundo), sendo que apenas 37% deles estão cientes de sua patologia (na França, por exemplo, a taxa de consciência do diabetes é de 67%). Para enfrentar esse e outros desafios sanitários, a China foi socorrer-se nas estruturas públicas e privadas, mas, acima de tudo, nas máquinas de inteligência artificial. O relatório “The Chinese approach to artificial intelligence: an analysis of policy, ethics, and regulation”), publicado em 2020 pela Oxford Internet Institute (University of Oxford), detalha a expansão da indústria chinesa de IA, ressaltando que o setor deve facilitar nas próximas duas décadas um incremento superior a 150 milhões de novos empregos no país, um feito singular quando a culpa pelo desemprego global quase sempre tem recaído nos ombros das tecnologias inovadoras.

Ping An Smart Healthcare é um exemplo perfeito da pujança chinesa. A plataforma, que utiliza mais de 2700 modelos de IA, tem como missão: (1) apoiar o governo em seus mecanismos sanitários: 50% dos serviços médicos na China são custeados pelo governo, enquanto as ‘Comissões’ (centrais e municipais) gerenciam a organização da saúde. Nesse sentido, a Ping An Smart Healthcare suporta o governo na agilização dos serviços, utilizando IA para gerenciar a sua ciclópica massa de dados clínicos; (2) suportar a descomunal rede hospitalar chinesa, que embora sustente a equação clínica do país é um de seus maiores gargalos. O país possui 1 milhão de instituições médicas, mas apenas 2.500 hospitais públicos respondem por quase um quarto dos atendimentos. A plataforma não só identifica os ‘gaps de atenção ao paciente’, como também agiliza tratamentos e diagnósticos, amparando principalmente o controle das patologias crônicas; (3) apoiar os profissionais médicos nas tarefas diárias: com carência de 700 mil médicos e cerca de 10 milhões de profissionais de enfermagem, o país abriga uma vasta quantidade de profissionais sobrecarregados, pouco treinados e de qualidade inferior. A plataforma disponibiliza um rol de aplicações em machine learning que libera os profissionais para prestar um atendimento mais efetivo e individualizado; e (4) reduzir as barreiras para a produção de insumos farmacêuticos. O país faz grandes avanços no desenvolvimento de medicamentos, mas é tolhido por uma avalanche de critérios burocráticos, técnicos e científicos que aumenta dramaticamente a necessidade de investimentos, reduzindo na mesma proporção o capital turnover.

Por tudo isso, a China talvez seja hoje a nação que detém o maior volume de projetos de inteligência artificial no segmento da saúde. Embora o país já estivesse avançado no desenvolvimento de ‘máquinas de suporte à decisão’, saiu atrasado na Saúde, correndo nos últimos cinco anos para implementar soluções que resolvam boa parte de seus imensuráveis problemas de atenção médica. A Ping An Smart Healthcare é responsável, por exemplo, pelo AskBob Doctor, uma workstation robótica de ‘assistência à diagnósticos e tratamentos’ que utiliza uma rede de algoritmos para acessar um portentoso banco de dados clínicos. Lançado em 2019 e utilizando tecnologia MAS (multi-answer summarization), o serviço AskBob Doctor já foi utilizado 33 milhões de vezes por 740 mil médicos, que antes gastavam de 10 a 15 horas semanais na busca, consolidação e interpretação de dados. A MAS sintetiza automaticamente longos resultados de pesquisas médicas (consubstancia a ideia principal dos textos), fornecendo também insights propedêuticos que ajudam os médicos a identificar diagnósticos e tomar decisões terapêuticas. A ferramenta ficou em primeiro lugar no MEDIQA 2021, um concurso de inteligência artificial focado em saúde, organizado pela Association for Computational Linguistics (ACL). Dentre as suas várias práticas, a Ping An Smart Healthcare é capaz, por exemplo, de rastrear uma DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) com machine-learning-interlacing, identificando a patologia com mais de 80% de precisão.

A estratégia da Ping An no ecossistema de saúde vai mais longe. Além da Ping An Smart Healthcare, o conglomerado chinês conta com o Ping An Good Doctor, o maior serviço de saúde conectada da China, que até junho de 2020 já tinha em sua base mais de 340 milhões usuários, 1.800 clínicos gerais e cerca de 10 mil especialistas médicos, realizando diariamente perto de 900 mil consultas virtuais. O aplicativo também ‘entrega’ serviços offline a 110 mil farmácias, 49 mil clínicas e cerca de 2 mil centros de Medicina Diagnóstica, fornecendo indicações diagnósticas e medicamentosas para mais de 3 mil doenças.

Na mesma direção, em 2016, o grupo chines lançou a Ping An HealthKonnectuma rede inteligente de serviços antifraude que otimiza os recursos contra a corrupção e ineficiências administrativas. A rede é impulsionada por big data e algoritmos extraídos de décadas de experiência da Ping An em gerenciamento de risco. Além disso, a Ping An HealthKonnect utiliza IA para produzir decisões que otimizem cada centavo gasto em saúde, tentando reduzir os custos médicos e incrementar melhorias na cobertura securitária. Vale lembrar que na China os pacientes são os que mais sofrem com o financiamento da saúde: se o governo assume 50% das despesas médicas, o seguro privado é responsável por apenas 6%, ficando o resto para os usuários. Assim, os gastos diretos dos pacientes representam mais de 10% da renda disponível na China, em comparação com 7% nos EUA. Essa pressão de custeio exige que o Governo e a iniciativa privada ignorem o incrementalismo e se lancem em saltos estratégicos para reduzir seus gaps sanitários

Nesse sentido, a ‘mãe de todos os saltos’ vem do Ping An Health Technology Research Institute, um dos maiores centros globais de soluções inteligentes para a tomada de decisão clínica. Na pandemia, por exemplo, o Instituto apoiou mais de 30 cidades do país, provendo análise preventiva e preditiva de infectados com 98% de precisão. O Ping An Health Technology Research Institute possui um dos maiores bancos de dados médicos do mundo, cobrindo perto de 30 mil doenças. Essa gigantesca base de informações clínicas possui mais de 1 bilhão de registros ambulatoriais, sendo dividida em 5 bibliotecas: (1) ‘Doenças’, que contém 100 mil conceituações patológicas e 420 mil terminologias de enfermidades típicas; (2) ‘Produtos de Saúde’com 180 mil bulários de drogas e 84 mil modelos de prescrição; (3) ‘Prescrição de Tratamentos’,  contendo 150 mil formulações farmacêuticas e 30 milhões de estudos e pesquisas médicas; (4) ‘Recursos Médicos’, um localizador de serviços assistenciais com registro de 500 mil médicos chineses e 2,2 milhões de pesquisadores científicos (nacionais e internacionais); e a (4) ‘Biblioteca Pessoal de Saúde’, um compendio abrangendo 800 milhões de diagnósticos, self-care guidelines e desfechos reais de tratamentos.

Os mais de 400 milhões de pacientes crônicos do país sorvem 70% do total de seus recursos para saúde. Nessa lógica, a China precisa desesperadamente de tecnologia inteligente para gerenciar seus gravames sanitários, sendo um deles a ‘distribuição desigual’ de recursos. De todos os pacientes internados no país, 23% estão em hospitais de primeira linha, que representam apenas 0,3% do número total de unidades hospitalares. Como no Brasil (e em quase todos os países com alta densidade populacional), os dados médicos dos pacientes estão fragmentados em milhares de unidades de atendimento, tornando labiríntico o desenvolvimento de políticas públicas em saúde. A Ping An não precisou pensar muito para nuclearizar sua estratégia de saúde (“Ping An’s Healthcare Ecosystem”) na inteligência artificial, não só por sua capacidade de reduzir os tempos de decisão, mas principalmente pelas possibilidades de alocar máquinas inteligentes que melhorem a logística sanitária. Se por um lado o país conta com 3,8 milhões de médicos e 4,4 milhões de profissionais de enfermagem, por outro lado sua população de 1,4 bilhão de habitantes “cobra” uma expansão assistencial revolucionária. Essa exigência não será superada sem uma maciça expansão tecnológica, principalmente por instrumentos que possam “inteligenciar a decisão clínica”, como as ferramentas de deep learning.

Segundo registros paleontológicos, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é praticada há mais de 3 mil anos, sendo diferente da medicina ocidental, que foi introduzida no território chinês no século XIX pelos missionários europeus e norte-americanos. Quase 200 anos depois, a China continua a empregar a MTC em quase toda sua cadeia sanitária, ao mesmo tempo em que revoluciona o país com novas tecnologias de inteligência sanitária artificial’XI Jianguo, um aposentado de 65 anos, morador da cidade de Shenzhen, no sudeste da China, volta de sua sessão de acupuntura e ao chegar em casa coloca o pulso em um ‘bracelete de metal’ que está sobre a mesa de refeições. Alguns minutos depois, recebe em seu smartphone uma análise diagnóstica realizada a partir de seus batimentos cardíacos e de outros sinais vitais. Faz isso sem acompanhamento de um médico, mas com acompanhamento da plataforma Ping An Good Doctor. Esse é um exemplo do novo espírito socioassistencial chinês: unir a milenar acupuntura (MTC) ao arrasador desenvolvimento de tecnologias médicas inteligentes, introduzidas no país há pouco menos de uma década. Para sobreviver a escassez de médicos, a China pode estar mostrando ao mundo da saúde como é impossível sobreviver a escassez tecnológica.

 

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator – [email protected]

Head Mentor - eHealth Mentor Institute (EMI)

TAG: Hospitalar
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