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Precisamos parar de aceitar resfriados e gripes como fatos inevitáveis

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Transmissão aerotransportada precisa ser enfrentada

Não bebemos água contaminada. Por que toleramos respirar ar contaminado?Há muito aceitamos resfriados e gripes como coisas inexoráveis da vida. Mas são? Por que não redesenhar o fluxo de ar nas edificações para evitar a contaminação? O Sars-CoV-2 provavelmente não será a última pandemia aerotransportada. As medidas que nos protegem de um vírus comum podem ser as mesmas que nos protegerão do próximo patógeno desconhecido”, explica o microbiologista Dr. Raymond Tellier, da Universidade McGill (Montreal). Ele se junta a inúmeros outros pesquisadores que advogam ‘medidas enérgicas’ para reduzir as ‘contaminações virais aerotransportadas’, ou seja: “limpar o ar dos ambientes fechados”. O coronavírus se espalha principalmente pela inalação de aerossóis, assim como o Sars-CoV, Mers-CoV, Influenza e os rinovírus causadores do resfriado comum. Eles se acumulam no ar interno, infectando por horas os ambientes fechados. Esse é o nosso maior desafio para deixar a Covid-19 e todas as demais pandemias virais para trás. É o que mostra o estudo “Airborne Transmission of Respiratory Viroses”, publicado em agosto último na Science.  

A confusão terminológica ocorreu no século passado, quando se criou divisões mal definidas entre a transmissão de “gotículas” e “elementos aerotransportados”, levando a mal-entendidos sobre o comportamento físico das partículas. Se você pode inalar partículas (independentemente do seu tamanho ou nome) você está respirando aerossóis. Esse é o fato, e, portanto, devemos parar de ignorar os estudos recentes e concentrar esforços na sua redução. Ambientes internos precisam ser seguros, não apenas para proteger os não-vacinados (ou aqueles para as quais as vacinas falham), mas também para deter as variantes resistentes e todos os demais patógenos aerotransportados que surjam. “Melhorar a ventilação interna e a qualidade do ar, especialmente em ambientes de saúde, trabalho e educação, ajudará todos nós a estarmos seguros agora e no futuro”, é o que assevera desde abril último outro estudo, “Covid-19 Has Redefined Airborne Transmission”, publicado no BMJ. A pergunta angustiante é porque pouco se fala e faz em relação as formas de tratamento do ar em ambientes fechados (HVAC - Heating, Ventilation and Air Conditioning). O descaso é só incompetência, ou é a preservação do interesse de várias indústrias que faturam alto na pandemia?

“Quando Londres venceu a cólera no século XIX, não foi uma vacina ou medicamento que a possibilitou, mas sim um sistema de esgoto. A água potável da cidade estava se misturando aos dejetos humanos, espalhando bactérias, gerando um surto mortal após o outro. Uma nova rede abrangente de esgotos separou os líquidos. Londres nunca experimentou um grande surto de cólera depois de 1866. Perto de 23 milhões de pés cúbicos de concreto foram suficientes para redesenhar a paisagem urbana da cidade e tirar Londres das armadilhas bacteriológicas que por milênios condenaram a cidade”, explica Sarah Zhang, editora da revista The Atlantic e autora de “The Plan to Stop Every Respiratory Virus at Once”. Os EUA eliminaram a febre amarela e a malária com uma combinação: (1) pesticidas; e (2) inserir nas janelas dos cômodos as gazes (telas) contra mosquitos. Enxames de moscas, insetos e pestes foram mantidos à distância com as telas, que ainda hoje são utilizadas em quase todos os países. Doenças como disenteria, febre tifóide, tifo, etc. foram mitigadas com a simples adoção das telas. “Mas depois de todo esse sucesso, depois de tudo o que fizemos para prevenir a propagação de doenças por meio da água e do afastamento dos insetos, parece que esquecemos algo. Sim, esquecemos do ar”, completa Zhang. Talvez não tenhamos esquecido, mas com certeza não estamos priorizando.  

Ao longo do século XX e no início da Covid-19, acreditava-se amplamente que os vírus respiratórios (incluindo o Sars-CoV-2) se propagavam principalmente através de gotículas produzidas pela tosse e espirros dos infectados (ou através do toque em superfícies contaminadas). Ocorre que existem numerosos eventos de ‘super espalhamento’ que exponenciam a transmissão em ambientes fechados, cujo ‘tratamento do ar’ não existe ou não é devidamente considerado. Essa realidade foi sendo percebida, estudada e aferida por pesquisadores de Taiwan, EUA e Israel, que identificaram nos últimos meses como o coronavírus e outros vírus respiratórios se propagam. Inúmeros trabalhos já comprovam que “a transmissão aerotransportada é a rota de transmissibilidade viral mais provável, e não os contatos com as superfícies ou com gotículas grandes”. O ar compartilhado por pessoas na mesma sala, em ambientes lotados, com ventilação deficiente e uso de máscaras inadequadas gera a ‘tempestade perfeita’. “A transmissão por inalação de aerossóis carregados de vírus tem sido subestimada há muito tempo. É hora de revisar os paradigmas convencionais, implementando precauções no meio aerossol para proteger o público contra essa rota de transmissão”, explica Chia C. Wang, diretora do Aerosol Science Research Center, da National Sun Yat-sen University (Taiwan), que liderou o estudo da Science.

Os aerossóis respiratórios são formados por atividades expiratórias, como respirar, falar, cantar, gritar, tossir e espirrar. Antes da Covid-19, o ‘corte de tamanho’ tradicional entre aerossóis e gotículas era de 5 µm (microns). Hoje, está claro que 100 µm é um tamanho mais apropriado para representar as partículas que podem permanecer suspensas por mais de 5 segundos (altura de 1,5 metro) e ‘viajar’ para a inalação de alguém. “O tamanho físico da partícula determina predominantemente (1) quanto tempo elas podem ficar suspensas, (2) a que distância podem alcançar, (3) se são inaláveis ​​e (4) a que profundidade podem entrar no trato respiratório quando inalados. A maioria dos aerossóis produzidos por atividades respiratórias são bem menores que 5 µm, o que lhes permite viajar profundamente pela região bronquiolar (alveolar) e lá se depositar”, explica o Dr. Josué Sznitman, fisiologista pulmonar e professor de Biomedical Engineering do Israel Institute of Technology Technion (Israel). Em 2020, a explicação pandêmico-contagiosa (gotículas) se mostrou insuficiente para explicar a velocidade viral. Nos primeiros meses, as principais preocupações eram: (1) lavar as mãos e (2) desinfetar tudo em que se tocasse. Mas, 18 meses após o início da Covid-19, as evidências deixam claro que as minúsculas partículas carregadas de vírus permanecem no ar em áreas mal ventiladas, explicando por que ‘ao ar livre’ é mais seguro. Nesse sentido, cientistas pressionam para centrar esforços na “ventilação e limpeza do ar em ambientes prediais fechados”. Trata-se de um ‘novo’ paradigma pandêmico. Ignorá-lo é uma colossal irresponsabilidade. Ou limpamos o ar interno, ou vamos continuar com ‘gripes e resfriados’ até o “juízo final”. A transmissão aérea foi rejeitada no início dos 1900 pela preocupação que sua simples menção assustasse as pessoas, e, sem perspectivas, elas poderiam abandonar as muitas práticas de higiene que já estavam consagradas. No fundo, foi um equívoco, ou uma suposição errônea, que sem suporte científico levou os epidemiologistas a concluir que as infecções de curta distância vinham principalmente por gotículas. “Essa suposição negligencia o fato de que a transmissão por aerossóis também ocorre em distâncias curtas, quando a concentração exalada é tanto maior quanto mais próximo o infectado está do infectante", explica a Dra. Kim Prather, cientista e professora da cadeira de Atmospheric Chemist, da University of California (San Diego), que também assina o estudo da Science.

Office_v2020_droplets_Cam2.jpgAssim, o comportamento dos aerossóis é influenciado diretamente pelo fluxo de ar e sua ventilação. Garantir taxas de ventilação e filtragem, evitando a recirculação do ar, passaram a ser fundamentais para reduzir a transmissão aérea. “A implementação de purificadores HEPA (high efficiency particulate air) e sistemas de desinfecção ultravioleta (UV) ajudam a reduzir as concentrações de aerossóis carregados de vírus”, acrescenta o Dr. Jose-Luis Jimenez, químico em aerossóis atmosféricos e professor da University of Colorado. Por mais incrível que possa parecer, a pesquisa “Airborne Transmission of Respiratory Viroses” mostra que as “barreiras de vidro, ou material plástico”, usadas comumente para bloquear a pulverização de gotículas em espaços internos (como supermercados, farmácias, bancos, etc.), podem piorar a situação, “impedindo a ventilação adequada e criando exposições mais altas para algumas pessoas", explica Linsey Marr, premiada cientista, pesquisadora e professora da Virginia State University. “A máscara é uma forma eficaz e econômica de bloquear aerossóis carregados de vírus, mas precisamos considerar várias outras barreiras à transmissão, como a ventilação. É improvável que uma única estratégia seja forte o suficiente para eliminar a transmissão das variantes emergentes da Covid-19”, acrescentou Seema S. Lakdawala, virologista da Universidade de Pittsburgh e também uma das autoras do estudo da Science.

Na sequência de indagações, outra se faz presente: se em maio de 2021, a OMS e o CDC (EUA) reconheceram que a inalação de aerossóis era a “principal via de disseminação de COVID-19”, porque ainda estamos sendo orientados a voltar aos escritórios, escolas, cinemas e demais ambientes fechados sem garantias concretas (auditáveis) de ventilação, filtragem e limpeza do ar? Sem mitigar a transmissão por aerossóis a pandemia não acaba, ou se transforma em outra, com neo-variants. Se quisermos eliminar ou mitigar as ‘gripes e resfriados epidêmicos’, devemos lutar com determinação pelas inovações de contenção viral aerotransportada, como, por exemplo, o projeto do primeiro filtro-anti-covid desenvolvido pelo Senai-Cimatec-Embrapii (eficácia de 99,9% na retenção e eliminação da carga viral em ambientes fechados e climatizados).

A pandemia pode nos fazer respirar melhor e mais livres dos patógenos. “O que aprendemos com a Covid-19 também ilumina as maneiras de fazermos as mudanças apropriadas para entrar na era pós-epidemia”, diz Wang. Nas palavras da Dra. Catherine Noakes, que estuda qualidade do ar em ambientes fechados na Leed University (Inglaterra): “para perceber a importância da transmissão viral por aerossol é preciso entender o quanto respiramos: cerca de 8 a 10 litros por minuto, algo como 4 garrafas grandes de refrigerante por minuto. Se multiplicamos esse volume de ar pelo número de pessoas em uma sala vamos perceber que nós (todos) estamos constantemente respirando as secreções pulmonares uns dos outros”. Sabemos, por meio de estudos sobre a tuberculose, que são necessários pelo menos 10 a 15 litros de ar fresco por segundo/pessoa para reduzir a transmissão aérea de doenças respiratórias em ambientes fechados. Isso é possível ser alcançado com sistemas de ventilação atualizados, bons purificadores, alertas eletrônicos (IoT) sobre a má qualidade do ar, manutenção constante e muita inspeção (aferição), o que, obviamente, é muito pouco praticado no Brasil e na maioria dos países. Ficou conhecido o caso do avião da Alaska Airlines com 54 passageiros, que atrasou sua decolagem por 3 horas (falhas no motor). O paper “An Outbreak of Influenza Aboard a Commercial Airliner” mostra que muitos passageiros permaneceram a bordo durante o atraso. Em 72 horas, 72% deles adoeceram com sintomas de tosse, febre, fadiga, dor de cabeça, dor de garganta e mialgia. O transmissor, um passageiro infectado com H3N3, contaminou 20 das 22 pessoas que ficaram a bordo.  

Outro estudo definitivo (“A Paradigm Shift to Combat Indoor Respiratory Infection”), publicado em maio último e assinado por 39 pesquisadores, representando 38 Centros de Estudos Científicos de vários países, foi quase ignorado pelas lideranças epidemiológicas. Ele já deixava claro nossa inépcia para resolver o problema: “O risco global contínuo de transmissão respiratória pelo ar, não apenas durante uma pandemia, mas durante todo o ano e em todos os espaços públicos fechados, não foi universalmente aceito, apesar das fortes evidências para apoiá-lo e nenhuma evidência convincente para refutá-lo. As diretrizes globais da OMS precisam ser estendidas para incluir patógenos aerotransportados. As normas devem reconhecer a necessidade de controlar o risco de transmissão aérea nas infecções respiratórias”. Embora a própria OMS mantenha um guideline a ser seguido (“Ventilation Roadmap”), ele está muito aquém das transmissões virais por aerossol já comprovadas. O relatório (“A Paradigm Shift...”) conclui de maneira quase doutrinária: “A pandemia Covid-19 revelou como o mundo estava despreparado para responder a ela. William Wells, pioneiro da transmissão por aerossol, lamentou em 1945 que o esforço para remover os patógenos da água potável e dos alimentos não havia sido replicado para o ar. Sete décadas depois, nos encontramos no mesmo ponto. Nossas sociedades, tanto a população em geral quanto os tomadores de decisão, estão agindo da mesma forma que as sociedades agiam na Idade Média, quando havia uma compreensão limitada das causas das infecções respiratórias e quando a ciência emergente era frequentemente suprimida por uma variedade de estranhas razões, algumas das quais prevalecem até hoje”.

Se está claro que o ar é o alvo, e se queremos eliminar os ‘resfriados e gripes epidêmicas’ de nossas vidas, é preciso expelir os patógenos que vagueiam pelos cômodos, sendo necessário esforço para cobrar os ‘acomodados’. Nada será fácil, mas toda a ciência para proteção de circuitos refrigerados e filtrados já está sob domínio. Ainda assim, precisaremos requerer proteção aos engenheiros, arquitetos, síndicos, lideranças urbanas, congressistas e educadores exigindo filtragem, purificação, renovação e circulação plena de ar qualificado. É imperativo pressionar Abrava, Anvisa, Inmetro, Abnt, SBM, PGR, etc., por um novo ciclo de recuperação de HVACs. Devemos exigir ação dos construtores de automóveis, de embarcações, elevadores, aeronaves e dos gestores de ‘ambientes-construídos’ para que minimizem a proliferação de fungos e vírus que ocupam nossas mucosas. Para sermos mais protegidos teremos de lutar todos os dias em todas as instâncias contra a falta de manutenção dos condicionadores de ar, ou contra o desleixo dos offices sem ventilação correta, ou dos bares e boates sem janelas, sem filtragem e com omissos usuários trocando juras de amor e patógenos mortais.


Guilherme S. Hummel
Scientific Coordinator Hospitalar Hub
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

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