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Conseguiremos usar dados para evitar uma 2ª onda de COVID-19 no Brasil?

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Christopher Murray, diretor do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) e professor da Universidade de Washington, nos explica como são feitas as projeções para a COVID-19 e o que podemos fazer a respeito 

O diretor proferiu uma palestra no CONAHP 2020 intitulada “A importância da mensuração e análise de dados no combate à pandemia”. O IHME foi constituído em 2007 na Universidade de Washington e tem como missão melhorar a saúde através de evidências. Dr. Murray é também o fundador da abordagem Global Burden of Disease (GBD), um esforço sistemático para quantificar a magnitude comparativa da perda de saúde devido a doenças, lesões e fatores de risco por idade, sexo e geografia ao longo do tempo.

O IHME vem realizando projeções globais desde o início da pandemia, descrevendo as trajetórias prováveis da doença. O primeiro modelo estatístico desenvolvido pelo instituto, CurveFit, utilizado de março e maio, tinha como principal objetivo prever o pico no uso de recursos hospitalares e era baseado principalmente no número de mortes. Nos EUA, a previsão foi bastante precisa, apesar de não predizer sobre o declínio após o pico.

De maio a junho, a modelagem se tornou híbrida, utilizando ainda o CurveFit, mas agora associado ao modelo SEIR, que considera número de pessoas suscetíveis, expostas, infectadas e recuperadas. As análises do que ocorreu no passado geram previsões da próxima semana e utilizam variáveis como mobilidade, testagem, temperatura ambiente e densidade populacional.

A partir de junho, a atualização começou a considerar fatores como uso de máscara auto reportado (pesquisado mundialmente pelo Facebook), mobilidade baseada em smartphones, tabagismo, sazonalidade e taxa de mortalidade por pneumonia. Nomeada como MS-SEIR, a modelagem é a utilizada até hoje. A cada semana os dados são retificados, originando uma nova previsão.

Uma lição importante observada foi sobre sazonalidade. Seus efeitos não são tão marcantes como para Influenza, mas ainda assim pode significar que os esforços que deram certo durante o verão podem não funcionar durante o inverno. Ela também ajuda a explicar a ressurgência atual da doença no hemisfério norte.

O modelo tem uma boa performance, possuindo o menor erro dentre os modelos arquivados publicamente no mundo (de 20% em 10 semanas). Foi o único que desde abril previa uma 2ª onda no outono/ inverno europeu, que tem se concretizado.

As previsões consideram 3 cenários: i. onde nenhuma medida é adotada pelos governos, ii. onde os governos retomem protocolos de segurança em resposta ao aumento das taxas de internação e iii. onde é estabelecido o uso de máscara de forma universal. O primeiro cenário é o mais catastrófico, com números de morte que superam a 1ª onda da pandemia.

Uma vantagem da abordagem utilizada pelo IHME é mostrar como diferentes decisões políticas podem impactar a trajetória da COVID-19, uma vez que se baseia principalmente em dados do mundo real, em vez de suposições sobre como a doença se espalhará.

O IHME realizou projeções por estado em grandes países como Brasil, Índia e México. Apesar de estados como Pará e Maranhão ainda viverem pressões em seus sistemas hospitalares, não está prevista uma 2ª onda dentro dos próximos 4 meses. Mas caso ela ocorra, se dará entre abril e maio, de acordo com o prognóstico. Para este período, há chances de termos uma vacina já aprovada, que poderá alterar os desdobramentos da doença especialmente no hemisfério sul. As limitações nas capacidades de produção e distribuição da vacina serão incluídas nas próximas modelagens, assim que estiverem disponíveis.

Muitos governos das Américas, Europa e Oriente Médio já utilizam as projeções do instituto para tomada de decisão. Atualmente, o foco está no aconselhamento sobre como gerenciar o pico exponencial que pode vir a ocorrer. A atenção primeiramente precisa ser voltada ao uso de máscara. “Não há porque não adotar esta medida”, enfatiza Christopher. Não sendo resolutiva, o pacote mínimo de medidas a serem tomadas não prevê um lockdown total, mas sim o fechamento de locais onde as evidências mostram o maior número de transmissões, como bares, restaurantes, academias e outros locais com aglomerações maiores que 10 pessoas.

Ainda não existe uma resposta que nos diga quanto tempo estas medidas precisam durar. Porém, Dr. Murray reforça que os comportamentos de indivíduos e governos podem sim afetar o rumo das transmissões mesmo com o país se aproximando do verão. Um fator ainda pouco abordado, mas que pode ser preocupante para as transmissões, são as reuniões familiares. “Estamos vendo cada vez mais evidência que transmissões estão ocorrendo em reuniões familiares ao redor do mundo. As pessoas precisam ser cautelosas ao redor de outras, não é somente usar a máscara, mas evitar se aproximar de outras pessoas também”, alerta o professor.

Se quiser conhecer e acompanhar as projeções em tempo real do IHME para o Brasil, basta acessar este link. É possível filtrar também por estado.