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Fintechs: a nova força revolucionária no Mercado de Saúde

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A chance da Cadeia de Saúde se dedicar só a Saúde

“As pessoas precisam de serviços bancários, não de bancos”, explicou Ranjit Sarai, o jovem VP da não menos jovem Credit Sesame, uma fintech criada em 2010 e que hoje possui 15 milhões de clientes. Ela faz parte do universo das Fintechs 2.0, também conhecidas como ‘financial wellness platform’, ou seja, organizações centradas em prover crédito rápido para ‘indústrias específicas de serviços’, quase sempre mal atendidas pelos sistemas bancários tradicionais. Segundo a PWC88% dos bancos convencionais acreditam que parte de seus negócios será perdida para as fintechs nos próximos 5 anos, sendo que os serviços bancários digitais já quase controlam as operações financeiras: 46% das pessoas no mundo usam exclusivamente canais digitais para suas necessidades bancárias (fonte: Singularity University).

Na outra ponta, os custos administrativos já são responsáveis ​​por 15% das despesas totais com Saúde, consumindo mais de US$ 300 bilhões ao ano. Essa quantidade de recursos não parece dar sinais de redução num futuro próximo, que prevê em 2027 gastos de US$ 6 trilhões para o sistema global de saúde. Nesse sentido, as fintechs estão chegando e prometendo remodelar o frontispício do setor de saúde. Se isso parece mais uma provocação da chamada “monetização da saúde”, esqueça. As fintechs miram o ‘intestino’ da indústria de serviços sanitários, aquele órgão dentro da Cadeia de Saúde que: (a) ainda operacionaliza ‘contas-a-pagar-e-receber’ como fazia na primeira metade do século XX; e (b) continua com imensas dificuldades de personalizar ‘operações de crédito’ para cobrir custos de saúde. Assim, uma grande (e antiga) pergunta volta à tona: “deveria o segmento de saúde dirigir seus esforços e investimentos tecnológicos para as estruturas de backoffice e operações de crédito, ou se concentrar nas tecnologias clínico-assistenciais centradas no paciente e no eixo P4-medicine (Predictive, Preventive, Personalized and Participatory)?” Pergunta difícil, mas que um aforismo comum das healthtechs pode ajudar a responder: ‘o que importa são experiências, não transações’. 

As fintechs têm dois diferenciais em relação aos tradicionais players da cadeia sanitária(1) são vorazes provedoras de crédito, está em seu dna, e o fazem com uma agilidade que nenhum outro dealer do segmento financeiro consegue fazer; e (2) são máquinas de blockchain, artificial intelligence e deep learning, ou seja, não só usam essas ferramentas, mas são responsáveis por sua expansão e aperfeiçoamento contínuo. Essas tecnologias ganham nas fintechs moto-próprio, sendo recicladas, atualizadas e reinventadas todos os dias. Nesse sentido, os fintechers gostam de preconizar o seu poder de resolutividade: “blockchain oferece a resiliência necessária contra um ataque de negação de serviço".

A Covid-19 fez emergir ainda mais o quadro de improficuidade dos arcaicos processos de gestão de contas da cadeia de saúde. Olhando por esse lado, a coalização (ou competição) com as fintechs é inexorável. Elas devem introduzir sólidas transformações no mercado de saúde, que incluem: (1) um melhor envolvimento com os clientes (da solicitação de uma demanda até a sua autorização, uma fintech leva em média 112 segundos, enquanto no setor de saúde uma autorização ‘efetiva’ de um procedimento clínico pode levar 48 horas); (2) transparência de preços e custos nos procedimentos médicos (80% dos hospitais no Brasil, por exemplo, não sabem ou não conseguem calcular ‘custos por procedimento’ em tempo real); (3) crédito aos pacientes e às empresas provedoras de serviço (nos EUA, muitas fintechs já financiam procedimentos cirúrgicos com zero de juro; sem falar que qualquer fintech no Brasil já opera uma ‘antecipação de recebíveis’ de forma on-line); (4) gerenciamento de despesas médicas planejadas e não-planejadas (uma família de classe média é capaz de planejar a aposentadoria de seu cabeça, ou a compra de um ativo (carro, casa, smartphone, etc.) ou mesmo o nascimento de um filho, mas em geral não tem qualquer controle ou previsibilidade sobre seus custos com saúde); (5) expertise na liquidação de sinistros (o custo de recuperação de sinistros nos EUA chega a ser o dobro do valor do próprio sinistro); (6) conveniência na remuneração rápida dos profissionais de saúde (no Brasil, por exemplo, a terceirização de serviços médicos criou um cipoal de entraves fiscais e burocráticos de larga ineficiência operacional); (7) métodos de reembolso e empréstimos personalizados (a inferência de “tecnicismos” para inibir o paciente-beneficiário a utilizar um serviço, faz com que ele busque as operações “direct payment driven”, cada vez mais oferecidas e financiadas pelas fintechs); etc.

O mercado de saúde sempre teve latência natural para absorver inovações: enquanto outras indústrias caminham na transformação em ‘velocidade F5’, aproveitando as inovações para adicionar valor, o Setor de Saúde é lento e reticente em adotar novas modelagens estratégicas. É como se o segmento pertencesse a uma outra galáxia, onde tudo é exclusivista. Alguns vetores certamente o são, mas a maioria não difere em nada das demais indústrias de serviços. Mas a Covid-19 e a insolvência sem precedentes dos service-providers amplia (ou força) o mercado a aceitar novos modelos e novos entrantes. Dessa forma, o encontro das fintechs com as demandas do setor de saúde passou a ser inevitávelsendo até comemorado por alguns stakeholders do setor. 

Um exemplo pode ser a fintech PayZen, introduzida em 2021 e que remunera antecipadamente os hospitais pelas faturas, oferecendo simultaneamente aos pacientes planos de pagamento sem juros e sem taxas. As predições do mercado norte-americano sinalizam que a plataforma possa aumentar a arrecadação hospitalar em 50%, ao mesmo tempo em que torna os cuidados de saúde mais acessíveis aos consumidores. Como ela produz esse milagre? Trabalha em escala, oferece produtos complementares (cascading horizontal earnings) e utiliza algoritmos-neurais para criar ‘planos de pagamento individualizados’ (que não passam pelas seguradoras). Descoberto o filão, as fintechs “healthcare-oriented” não param de surgir (ou migrar de outros segmentos para a cadeia de saúde). A Walnut e PrimaHealth Credit, por exemplo, chegaram oferecendo crédito para procedimentos eletivos, como cirurgias dentárias ou oftálmicas. As fintechs Cedar e OODA Health abordam o ‘faturamento’ por diferentes ângulos: a Cedar cuida dos provedores (hospitais, principalmente) e a OODA Health está centrada nas fontes pagadoras. Cada uma introduziu alta tecnologia em AI para reduzir riscos e minimizar o fluxo operacional da ‘tesouraria’. Em maio último ambas se juntaram criando uma “giantech” de US$ 3,2 bilhões. A fintech SmartHealth, por outro lado, disponibiliza o PayCard, um cartão de crédito dedicado à Saúde que oferece aos membros opções de pagamento acessíveis e benefícios sensivelmente incomuns para os cuidados emergenciais. Fornece também acesso a telehealthhigh-deductibles, copagamentos, programas de cuidados preventivos e vários outros utilitarismos. A startup WellPay é uma fintech diferente: sua missão é construir soluções que capacitem os consumidores a lidar com os crescentes custos de saúde. Ou seja, mais do que apoiar economicamente o paciente, ela se obriga a manter linhas de “literacy on health costs” (seu aplicativo tem como lema “saúde primeiro, pagamento depois”). Da mesma forma ela atua na ponta dos provedores de serviços, oferecendo um conjunto de ferramentas projetadas para reduzir a carga de trabalho e otimizar as operações de faturamento (lema: “trabalhe menos, cure mais”). Em 2020, a empresa lançou uma plataforma para ajudar as pessoas sobrecarregadas com as contas médicas da Covid-19, apoiando os contaminados de “cauda longa” a equacionar suas dívidas com soluções de “payment stretch” (estende o parcelamento em função da criticidade clínica do paciente).

Alguém pode imaginar um grande banco de varejo indo as TVs publicitar: “primeiro cuide de sua saúde e depois pense em pagar por ela” (!). Pois as fintechs adentram no mercado de saúde com essa missão: ocupar espaço nas mentes desarrimadas dos usuários, repletas de ansiedade, medo e insolvência. A Medxoom, por exemplo, atua no universo dos empregadores, apoiando as empresas e seus funcionários a economizar 10% ou mais em saúde por meio de soluções de data-driven cost containmentA fintech permite que seus beneficiários (empregadores e empregados) economizem por meio de contratos diretos com fornecedores, com ‘preços baseados em valor’ e negociações creditícias inovadoras, ou seja, “vamos espremer em conjunto todos os lados da cadeia para melhorar os serviços e a pagabilidade”. Na vertical das HSAs (health savings accounts), também conhecidas aqui como ‘conta-poupança de saúde’ (inexplicavelmente ainda pouco utilizadas no Brasil), a Bend Financial avança a passos largos. Com viés altamente tecnológico, a empresa fornece HSAs e soluções de ‘bem-estar financeiro’ para indivíduos, empregadores e organizações ‘administradoras de benefícios’. Sua plataforma inteligente produz contratação de HSA robotizada, oferecendo aos funcionários engajamento em ‘saudability-economy’, algo de extrema importância nos HSAs, onde o usuário deve perseguir continuamente o autocuidado e outras precauções que evitem o enfrentamento com a cadeia de saúde, protegendo com isso sua poupança de aposentadoria. Sem falar nas fintechs que já oferecem soluções de faturamento e pagamento integradas aos EHRs (electronic health records), como a HealthPay24, ou a Salucro.

É importante perceber que uma fintech não existe apenas para disponibilizar crédito ou digitalizar dinheiro, mas, principalmente, para monetizar dados. Nessa direção, o segmento de Saúde é um manjar. Por mais que as healthtechs tenham avançado muito nessa dimensão, ela ainda é pouco “explorada”. E aqui é necessário separar o buzzword da privacidade de dados. As informações clínicas ainda são pouco (ou nada) aproveitadas por seus “proprietários”, os pacientes. O histórico médico permanece uma caixa preta, distante, complexa, de difícil acesso, sendo talvez o maior ativo de um paciente. As fintechs (ou mesmo as healthtechs) não vislumbram os dados clínicos para oferecer a terceiros, mas para disponibilizá-los aos próprios pacientes, com acesso inteligente, organizado e alavancado por poderosos algoritmos voltados ao diagnóstico, a gestão de tratamentos contínuos (doenças crônicas) e as práticas de personalized self-care. O maior exemplo disso são os novos “clusters de segundo diagnóstico”, que proliferam por todo o mundo. São arquiteturas-robóticas hábeis com capacidade de varrer “qualquer” prontuário digital, somando milhares de pesquisas acadêmicas, estudos randomizados e opiniões médicas de modo a prover um laudo seguro de segunda ou terceira opinião clínica (um subset da escola ‘watson-ibm’). Outra vantagem evidente é que uma fintech utiliza boa parte de seu esforço ($) para proteção contra fraudadores, hackers, data thieves, etc., utilizando medidas de segurança avançadas e atualizadas diariamente. Essa orientação-raiz também promove um elo claro com a Saúde, que, da mesma forma, exige que seus dados contemplem alta segurança e critérios rígidos de inconfidência.

Apenas nos últimos 6 anos mais de 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo obtiveram acesso a contas bancárias e dinheiro-móvel devido à tecnologia financeira digital. Uma notável quantidade, mas incomparavelmente menor do que os desafios da Cadeia de Saúde, que de alguma forma precisa atingir mais de 7 bilhões de indivíduos. Talvez o maior colapso dos bancos tradicionais antes da revolução fintech tenha sido o foco no processo’ em detrimento da ‘experiência do cliente’ (estudo da consultoria UX Built for Mars mostrou que com 24 clics você pode abrir uma conta na fintech Revolut, contra 99 clics no HSBC, ou 120 no First Direct, divisão do HSBC). Em vista disso, as fintechs também podem contribuir na Saúde oferecendo ferramentas inteligentes de ‘experiência-personalizada’. Todos ganham, mas é certo que os sistemas de saúde e seus usuários ganham mais. A Covid-19 mostrou a força da ciência médica, mas também escancarou a vasta imensidão de problemas que ainda persistem nas cadeias de saúde. Parafraseando o jornalista Anderson Cooper“O setor sanitário é a mais poderosa cadeia de provimento do mundo, mas nós ainda a vemos como uma tartaruga obesa, de costas, se debatendo sob o sol quente, tentando desesperadamente mudar”.

 

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator – [email protected]

Head Mentor - eHealth Mentor Institute (EMI)

TAG: Hospitalar
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