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Saúde Conectada: o risco de saltarmos para o “velho-futuro”

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As armadilhas de voltar aos planos pré-pandemia

Com o início da vacinação, o ecossistema de saúde se encoraja a retomar planos e estratégias para os próximos anos. A Cadeia de Saúde entrou em espiral de ascensão. Com players  ‘insolventes, debilitados ou entrantes’, nunca os Sistemas de Saúde passaram a ser tão emergentes como em 2021. Quando as luzes da imunização começam a cintilar no fim do túnel, há um frescor para montar estratégias, tirar o pó dos planos de 2019 e pensar em projetos e estruturações para alçar voo num mercado global superior a 7,2 bilhões de consumidores (com poucas exceções, todos usuários de serviços públicos ou privados de saúde). Um ano após o início da pandemia, afloraram transformações de comportamento e de condicionamento que as pessoas passaram a incorporar para se moldarem as instancias da Covid-19. Dentre as mais cabais, estão as transformações digitais; sejam aquelas ofertadas pelos prestadores de serviço ou aquelas introjetadas pelos próprios usuários. Todos passaram a conviver no mesmo éter: digital environment. Na Saúde, o cisne negro pandêmico fecundou a maior transformação socio-tecnológica da civilização contemporânea.

Artigo do The Economist publicado em dezembro último (“The dawn of digital medicine”) citava que antes da pandemia cerca de 70% dos hospitais norte-americanos ainda enviavam registros de pacientes por fax. Essa ‘singeleza utilitarista’ acontecia (e ainda acontece) na maioria dos países. Antes da Covid-19, a digitalização não tinha pressa, não era acossada por pilhas de cadáveres, não tinha compromisso com civilidade ou cidadania. Com as devidas exceções, a Transformação Digital em Saúde era só mais uma ambição, um plus, uma cesta de pretensões quase sempre confundidas com ações para ‘digitalizar fluxos operacionais anacrônicos’. Demograficamente, não mais do que 30% dos Sistemas de Saúde públicos e privados em todo o mundo tem ‘salvaguardas digitais’ consistentes para enfrentar as grandes demandas. Aliás, um dos poucos resultados positivos do Sars-Cov-2 foi o seu impacto ‘equalizador’: em 2020, algumas healthtechs recém chegadas ao mercado ofereciam serviços de telemedicina com a mesma destreza que os serviços oferecidos pelos notórios incumbents. Assim, o mercado consumidor passou a favorecer as empresas que priorizaram o virtual, ou seja, aquelas que oferecem serviços de saúde com experiências online, especialmente para necessidades ambulatoriais e de baixa acuidade. Quem não oferecer não ‘dobra a esquina de 2021’.

Segundo dados do estudo “Ericsson Mobility Report”, publicado em julho/2020, o uso da banda larga fixa pelos consumidores aumentou na pandemia em média 2,5 horas por dia (na telefonia celular o aumento em média foi de 1 hora). A pesquisa da Ericsson ressalta ainda que 83% dos entrevistados (em todos os mercados pesquisados) afirmaram que as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) foram de grande ajuda para lidar com o impacto da pandemia, sendo que 3 em cada 4 idosos (60+) afirmaram que elas foram fundamentais durante a crise, especialmente por mantê-los em contato com a família, amigos e serviços. Como descreveu o recém-publicado The Global Risks Report 2021”, do WEF (World Economic Forum): “A Covid-19 acelerou e ampliou a Quarta Revolução Industrial com a rápida expansão do e-commerce, educação online, saúde digital e trabalho remoto. Essas mudanças continuarão a transformar dramaticamente as interações humanas e os meios de subsistência muito depois da pandemia estar atrás de nós”. A pandemia ‘epidemializou’ o coronavírus, mas também o consumo digital de serviços. Na saúde, fomos ‘infectados’ pelas plataformas de ‘saúde conectada’ com a mesma velocidade que a contaminação viral, lembrando que essa epopeia está apenas começando: a tecnologia 5G deverá ser mais um fenomenal indutor para ‘connected-care’.

novo-futuro tem pouco a ver com o “velho-futuro”. Um exemplo: Telehealth e as consultas virtuais deixaram de ser o futuro, passando a ser uma mera síntese de 2020, um millestone que separa as instituições “bem-intencionadas” daquelas que sobreviverão aos próximos quatro anos. Sim, cerca de quatro anos: esse é o leadtime mediano para que a torrente de procedimentos clínico-assistenciais represados desabe integralmente no colo das cadeias de saúde do Brasil e do resto mundo. O velho-futuro desestimulava a Telemedicina, dava importância restritiva a inteligência artificial e considerava a sensorização como um mero ‘gadget-business’. O CIO era o “orador da turma”, sabia explicar o futuro das organizações de saúde, mas era pouco requisitado a sentar na mesa para planejá-lo com a diretoria. O novo-futuro devolve ao CIO a responsabilidade estratégica, incorporando definitivamente o seu empowerment na luta para reinventar as instituições sanitárias. Em Telemedicina, por exemplo, o novo-futuro envolve mais do que conectividade e acesso, exigindo: (1) integração full com sistemas back-end (EHR - Electronic Health Records); (2) avanços para atender pacientes com base na tipologia de atendimento, geolocalização e participação direta dos cuidadores; (3) tradução de idiomas em tempo real; (4) inserção de aprendizado de máquina para apoio as decisões clínicas à distância; (5) incorporação de Realidade Aumentada para procedimentos fisioterapêuticos; (6) larga envolvência de IoMT para suporte a pacientes longevos; etc. Tudo isso estava na ‘alça de mira’ do velho-futuro de 2019, mas não havia gatilho que fizesse a culatra cuspir o tiro. A partir de 2021 quem não atirar e acertar o alvo desaparece.

velho-futuro adorava flertar com as plataformas de EHR. Registro Médico Digital sempre foi cortejado, mas pouco usado. Em 2022, se um hospital demorar mais de 3 minutos para acessar o prontuário clínico do paciente na ‘porta da internação’ será listado como decadente, ainda que suas qualidades clínicas sejam superlativas (Brasil: o tempo médio de acesso aos dados clínicos hoje é superior 43 minutos). Milhares de novos players (healthtechs) estão invadindo o novo-futuro, entregando valor, efetividade (não só eficiência), agilidade e combinando com o paciente um novo pacto de acesso as tecnologias utilitaristas, com o EHR no centro dessa combinação.

Outro eixo acelerado é a ‘consumerização dos serviços de saúde’, que avançou sobremaneira na pandemia porque duas necessidades básicas do usuário foram atendidas digitalmente: conveniência (o risco de contágio na visita ao hospital, ou a uma simples consulta médica, criou medo e ansiedade), e simplicidade & custeio (acessar o sistema de saúde remotamente passou a ser tão simples e barato como uma ligação telefônica). De forma abrupta mas nítida, a Covid-19 mostrou que é possível ‘expandir o acesso sem expandir os custos de acessar’. "Acho que as pessoas agora estão se sentindo mais capacitadas por causa dos avanços na tecnologia móvel e na conectividade onipresente e acessível. Esse sentimento de capacitação se traduz no desejo de ter mais controle sobre a própria vida: das finanças ao namoro, das viagens à saúde”, explica Matteo Berlucchi, CEO da britânica Healthily, cujo ‘self-care app’ foi catapultado aos píncaros durante a pandemia. O novo-futuro pensará mais em Extended Care & Continuum Care e menos em Hospital Care.

Aceleradas pela Covid-19, essas articulações estratégicas pareciam um mito em 2019. Parecia que faziam parte dos planos de todas as empresas do setor, mas de alguma forma eram excomungadas ou procrastinadas. A Saúde Conectada alçou voo e mostrou que não é placebo. No velho-futuro, o mindset trabalha com mecanismos mentais insuficientes para 2021: (a) “não adianta, não existe escala na Telemedicina”; (b) “remuneração por valor agregado é fantasia”; (c) “inteligência artificial é um entrave a função médica competente”; (d) “fora de propósito achar que médicos vão clinicar por videoconferência”; (e) “atendimento estendido, fora do hospital, é panaceia”; (f) “implementação de prontuário clínico digital? ...jogue para o próximo ano, as prioridades agora são outras”; (g) “remuneração por desempenho clínico é uma história antiga, que já mostrou ser insustentável”; etc. O velho-futuro continuará existindo em muitas organizações de saúde. Escapar dele exige competência e audácia. Talvez seja mais cômodo achar que os antigos planos e retóricas permanecerão. Talvez seja até fácil entender que é preciso inovar, embora nem todos percebam para qual lado seguir. O grande diferencial será perceber “o que” do velho-futuro não cabe mais no presente. O autor da magnífica obra “The Nature of Natural History”, o epidemiologista Marston Bates, deixou uma pista: “pesquisar o futuro é sempre um processo de entrar em vielas para ver se elas são becos sem saída".

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico – HIMSS Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

 

TAG: Hospitalar
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