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Telepharmacy e a automedicação nossa de cada dia

TAG: Hospitalar
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O autocuidado acelerando a transformação digital das farmácias

Antes da Covid-19, a automedicação já era um hábito comum a 77% dos brasileiros, que fizeram uso de medicamentos seis meses antes de serem inqueridos pela pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF), realizada pelo Instituto Datafolha em 2019. Quase a metade dos patrícios (47%) se automedica pelo menos uma vez por mês, sendo que 25% deles o faz todo dia (ou pelo menos uma vez por semana). Somos uma das nações mais usuárias da automedicação, que há muito deixou de ser no Ocidente uma prática ocasional para se tornar uma “prática de vida”. Embora sempre com o rótulo de “perigosa, não recomendada e de consequências adversas”, a automedicação não conhece reducionismo na maior parte do mundo, principalmente nas nações emergentes. Pesquisa realizada pela Vintura/GSK entre maio e setembro de 2020, cobrindo Alemanha, Itália e Reino Unido, mostrou que 48% dos europeus se automedicam, e que 8 em cada 10 indivíduos aceitam que a responsabilidade de cuidar de sua saúde é deles mesmos. Cresce também a ideia de que o Estado deve educar e orientar o cidadão nas práticas de autocuidado e automedicação, como já faz o Reino Unido. Sem essa conscientização será cada vez mais difícil gerenciar os Sistemas de Saúde. Na Grã-Bretanha, a necessidade de self-management passou a ser economicamente imperiosa: o tempo médio de espera para obter uma consulta médica presencial (clínico geral) é de 13 dias, mas todos os anos cerca de 18 milhões dessas visitas envolvem doenças autotratáveis. Um sorvedouro de recursos públicos.

Com ou sem o apoio do Estado, a Comunidade Europeia, com suas mais de 160 mil farmácias físicas, assiste cerca de 46 milhões de europeus visitá-las pelo menos uma vez por semana. Está cada vez mais claro que poucos se automedicam por esporte, vício ou lazer (drogas alucinógenas), sendo que a maioria o faz por legítima e inquestionável necessidade, seja por falta de acesso aos canais de atendimento médico, seja pelos custos destes, ou ainda pela simples razão de que a dor é um dos mais incontornáveis flagelos humanos. Nos EUA, por exemplo, 6 em cada 10 indivíduos vivem com uma condição crônica e 40% têm duas ou mais. Esses pacientes, com múltiplas morbidades crônicas, ingerem em média 5 medicamentos para controlar seus sintomas e dores. A US Consumer Healthcare Products Association (CHPA) afirma que 81% dos adultos nos EUA usam medicamentos OTC para tratamento de doenças menores.

A primeira metade deste século está sendo palco de uma das mais disruptivas transformações na Cadeia Farmacêutica, a chamada “drug retail chain digitalization”, onde distribuidores e redes varejistas de farmácias trabalham incessantemente não só na digitalização do setor, mas também na sua transformação digital. Parte dessa evolução tem como alvo apoiar o paciente em sua ‘automedicação-monitorada’. A chamada Telepharmacy, ou Remote Pharmacy, ou ainda Online-pharmacy, passou a ser nas últimas duas décadas um modelo, onde pacientes acessam suas demandas medicamentosas (com ou sem prescrição) dentro da biosfera digital. A extensão do conceito pode eliminar em poucos anos a farmácia de “tijolo e argamassa”, quando farmacêuticos, pacientes, estoque, faturamento e dispensação estarão a milhas de distância entre si.

‘telefarmácia’ já é uma realidade em quase todo o mundo desenvolvido, com também em muitos países emergentes. Começou a ser levada a sério no ano de 2000, quando o Conselho de Farmácias do Estado de Dakota do Norte (EUA) relatou que dezenas de comunidades rurais estavam sem uma única farmácia comunitária. Em resposta, o Conselho estabeleceu em 2001 um projeto-piloto de telepharmacy para manter os serviços do varejo farmacêutico nas áreas rurais. O projeto foi um sucesso, e o Estado com a North Dakota State University (NDSU) o tornaram definitivo. Em 2003, a Remote Pharmacy passava a existir formalmente em mais de 16 estados dos EUA, sendo que em 2019 já eram 45. 

No Reino Unido, solicitar prescrições online é cada vez mais comum, fácil e acessível. O NHS apoiou totalmente a transição para o receituário online, aliviando a pressão sobre os GPs e farmacêuticos, sendo que mesmo antes do avanço das Remote Pharmacy as redes de drogarias britânicas já incorporavam um EPS (Serviços de Prescrição Eletrônica). Hoje, boa parte das receitas são assinadas, processadas e enviadas eletronicamente. Na França, desde janeiro de 2013 os farmacêuticos podem comercializar medicamentos pela Internet, sendo que em 2016 o “Code de la Santé Publique” (boas práticas) criou um arcabouço regulatório mais denso e centrado na venda de produtos OTC (sem receita médica). No Brasil, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) publicou em 2006 uma Resolução (448) regulamentando os atendimentos remotos, mas a telefarmácia segue a regulamentação da ANVISA (RDC 44/09), que veda o atendimento remoto quando não existe o atendimento presencial. Trata-se de uma idiossincrasia do tamanho daquela que proibia a consulta-virtual, e que foi demolida pela Covid-19. Mas essa exigência não é uma singularidade nossa, na Europa a maioria dos países também só permite a venda online se a empresa possuir unidade física (com exceção da Holanda e Reino Unido). Apesar disso, alguns players contornam os requisitos (como também ocorre no Brasil), utilizando o espaço cibernético para comercializar medicamentos, como a DocMorris, um varejo online holandês que vende medicamentos no mercado alemão, apesar das inúmeras contestações jurídicas dentro da Comunidade Europeia.

farmácia digital avança rapidamente e tende a “adestrar” o ímpeto regulatório com apoio da enorme abundância tecnológica capaz de auditar milimetricamente os sistemas (blockchain, por exemplo). Embora a maioria das Telepharmacies só opere no mercado OTC, o contexto de Farmácia 4.0 vai muito além e expande o supply-chain para além da transação sem receituário médico. Os novos players se preparam para atuar diretamente na automedicação, principalmente quando o paciente possui uma condição crônica e costuma passar por vários médicos (as vezes simultaneamente) e seguir um diversificado “menu” de medicamentos. Identificar, catalogar, ‘bular’, rastrear, prover consulta virtual, prescrever, vender, entregar e suportar o paciente no pós-venda (acompanhamento farmacoterapêutico) fazem parte desse novo supply-chain, que objetiva ‘arrimar’ o paciente em seu autocontrole sanitário. Uma criança nascida em 2021 provavelmente nunca entrará numa farmácia física.

Os aplicativos de Telepharmacy já podem calcular e alertar sobre dosagens, frequência, horário, contraindicações e, principalmente, prover serviços de drug-checking, quando algoritmos identificam os efeitos colaterais da ingestão de duas ou mais drogas. As aplicações estão nos smartphones, são conectadas a plataformas digitais de inteligência artificial, podendo ser acessadas pelo médico (se o usuário assim autorizar), sendo muitas vezes integradas a serviços públicos de verificação de colateriedade, como já acontece na Suíça (Basel, Berna, Genebra ou Zurique). Desde a Medly Pharmacyuma simples telepharmacy de medicamentos prescritos, onde os usuários realizam ‘pesquisas bulárias’ e recebem o medicamento de forma agendada (só recebido pelo próprio usuário ou por alguém por ele autorizado); passando pela Nurx, uma plataforma digital (acesso somente na California e New York) onde os usuários selecionam a droga, respondem a um questionário e os médicos da empresa analisam o pedido, emitindo (ou não) a receita, já existe uma colossal quantidade de remote pharmacies. A Zava, por exemplo, um portal britânico digital em funcionamento desde 2011, é uma plataforma online para medicamentos prescritos. Antiga DrEd, além da logística farmacêutica, ela oferece também a consulta médica online, onde um médico avalia o ‘alcance clínico’ da prescrição. Se for aprovada (muitas vezes o paciente não sabe nada sobre a medicação, sendo o médico quem o orienta) a receita é prescrita com a medicação enviada por courier. Na Arabia Saudita, a mais usada telepharmacy é a Al-Dawaa, que oferece aconselhamento farmacêutico, ou clínico, além de instruções sobre o uso correto da medicação.

No ambiente de Saúde Conectada, onde a consulta virtual passou a ser um “dever de ofício” do médico, o Brasil ainda precisa avançar muito. Para bem ou para mal, vamos assistir ao fim das farmácias físicas, principalmente nos grandes centros urbanos. Serão substituídas por conectividade, inteligência artificial, blockchain e, principalmente, pela competência do profissional farmacêutico, que há anos experimenta no país um descaso, sendo transformado neste século num “balconista estilizado”. Na biosfera digital da farmácia remota, ele voltará a ter lugar de fala. 

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico – HIMSS Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

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