Dados divulgados recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 30% da população mundial adulta têm hipertensão arterial. A pesquisa, anunciada em 16 de maio, aponta a pressão alta como responsável pela metade dos óbitos relacionados a derrames e doenças cardíacas. Outro dado revelado serve de alerta: entre 1980 e 2008, dobrou o número de obesos em todas as regiões do planeta. A obesidade é um dos fatores de risco para o desenvolvimento da hipertensão arterial.

De acordo com a cardiologista Andrea Brandão, Professora de Cardiologia da UERJ e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o aumento do número de casos pode estar relacionado ao ganho de peso da população: “É uma doença com diversas causas, mas este seria um fator preponderante para uma maior prevalência da hipertensão arterial. Hoje há mais pessoas com sobrepeso e obesidade, em todas as faixas etárias, inclusive crianças e adolescentes”, afirma. A ingestão excessiva de sal seria outro fator de risco para o desenvolvimento da doença.

Segundo a médica, o diagnóstico de pressão alta em jovens tornou-se mais comum: “Não se pode dizer que há uma acentuação da prevalência entre os mais novos. No entanto, é possível que o número de diagnósticos venha aumentando pela aceitação maior de que a hipertensão não é uma doença só dos mais velhos. Assim, aferir a pressão de jovens e crianças tem se tornado prática usual em consultas médicas”, explica a cardiologista.

Adesão ao tratamento

Não existe cura para a hipertensão arterial. Mas a doença pode ser controlada e, uma vez diagnosticada, demanda tratamento constante. Reeducação alimentar, prática de exercícios físicos e o uso de medicamentos são as principais medidas adotadas. No Brasil, apenas 20% dos hipertensos conseguem manter a doença sob controle, segundo as VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, da Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), publicadas em 2010. O dado é preocupante, uma vez que a falta de tratamento pode trazer complicações graves com o passar do tempo.

“O fluxo de sangue circulando com pressão elevada no organismo, ao longo dos anos, causa danos aos principais órgãos do corpo, como o coração, o cérebro ou os rins. Além disso, pode ser responsável pelo desenvolvimento da aterosclerose, doença inflamatória que atinge os vasos sanguíneos e está ligada a infartos e acidentes vasculares cerebrais”, afirma Dra. Andrea Brandão. “Nos casos em que há fatores de risco associados, como idade avançada ou diabetes, o perigo é ainda maior. O mesmo serve para pessoas com pressão arterial muito elevada. A falta de tratamento pode trazer problemas sérios em um prazo mais curto de tempo”, complementa.

A médica explica as principais razões que levam ao baixo índice de controle da pressão arterial entre os pacientes hipertensos: “O principal desafio é a adesão ao tratamento. Questões relacionadas ao uso crônico de medicamentos fazem com que muitas pessoas não tomem as doses regularmente, conforme a prescrição. Muitos pacientes sequer sabem que a doença não tem cura, e ao atingir o controle momentâneo da pressão, pensam que o remédio não é mais necessário. Outro fator está relacionado aos efeitos colateriais. A hipertensão em geral não apresenta sintomas. Quando o tratamento traz efeitos indesejados, o paciente o abandona antes de aguardar ajustes na estratégia”, conta Dra. Andrea Brandão.

De acordo com a SBH, apenas 25% a 30% dos hipertensos conseguem controlar a pressão arterial com o uso de um medicamento (monoterapia). “Como se trata de uma doença multifatorial, o médico precisa saber muito bem qual a combinação de medicamentos irá prescrever para cada paciente. Geralmente são usados remédios com mecanismos distintos de atuação, para que a soma de efeitos resulte no controle da pressão arterial”, explica a cardiologista.

Associação de betabloqueadores e diuréticos

Os betabloqueadores e diuréticos estão entre as principais classes de medicamentos anti-hipertensivos. Os betabloqueadores são substâncias capazes de inibir parte dos efeitos da adrenalina em alguns órgãos do corpo, como ocorre, por exemplo, no sistema cardiovascular. O organismo de pessoas submetidas a estresse tende a produzir maior quantidade de adrenalina, o que contribuiria para a elevação da pressão arterial. “Em geral, os jovens estão mais expostos ao estresse psicossocial, pelas características inerentes a esta fase da vida”, afirma Dra. Andrea. Segundo a médica, a prescrição de betabloqueadores representa uma possibilidade no tratamento de jovens hipertensos.

“Betabloqueadores podem ser indicados para jovens com pressão alta e que apresentem perfil metabólico favorável a seu uso. Essa classe de medicamentos também é amplamente prescrita a pacientes hipertensos com histórico de doença coronariana ou infarto, seja qual for sua idade”, afirma. Existem diferentes tipos de betabloqueadores. Segundo a especialista, a qualidade do medicamento utilizado é determinante para o surgimento ou não de efeitos colaterais: “Há os mais seletivos, ou seja, que atuam mais precisamente nas funções do coração e dos vasos sanguíneos. Outros, menos seletivos, tendem a gerar mais efeitos colaterais porque atuam também em outras áreas do organismo”, explica.

Outra classe de medicamentos anti-hipertensivos é composta pelos diuréticos. O mecanismo objetiva acentuar a eliminação de sódio (sal) e água pelo organismo através da urina. “A eliminação de sódio contribui para a redução da pressão arterial. É um processo totalmente diferente dos betabloqueadores. A combinação dessas duas estratégias pode ser uma opção para controlar a hipertensão, em determinados casos”, conclui Dra. Andrea Brandão.