O esporte de alto rendimento consolidou uma lógica de gestão baseada em antecipação, dados e mitigação de riscos. Em ambientes onde a margem de erro é mínima e o custo das falhas é elevado, a preparação deixou de ser acessória para se tornar parte central da estratégia. Esse mesmo racional vem ganhando relevância crescente na gestão da saúde, onde decisões clínicas e operacionais impactam diretamente vidas, carreiras e a sustentabilidade dos sistemas. 

O público de esportes de alto rendimento enxerga o momento final: o sprint, o salto, o gol decisivo. Mas, por trás de cada movimento potente, existe uma engrenagem silenciosa que sustenta a performance. Nesse contexto, a medicina diagnóstica deixou de ser um apoio periférico ou satélite, para se tornar um dos elementos centrais da estratégia esportiva contemporânea. 

Essa mesma lógica se aplica à gestão aos dos modelos assistenciais que buscam equilibrar qualidade clínica, previsibilidade de custos e desfechos sustentáveis. No ciclo de preparação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, atletas de ponta já têm sua jornada em curso, com planejamento de longo prazo, controle rigoroso de cargas, prevenção de lesões e monitoramento contínuo da saúde desde as etapas iniciais. 

Não por acaso, essa preparação inclui tecnologia de ponta, de análises clínicas a exames de imagem. Isso já ocorre no Brasil, em parceria com o Comitê Olímpico Brasileiro, que vem incorporando o olhar preventivo da Dasa à formação de seus atletas. O horizonte aponta para uma medicina esportiva cada vez mais individualizada, respeitando as particularidades biológicas de cada atleta e ampliando a capacidade de cuidado. 

Trata-se do mesmo princípio que orienta sistemas de saúde mais maduros: investir em diagnóstico e monitoramento contínuo custa menos, financeiramente e humanamente, do que reagir tardiamente a eventos adversos, lesões graves ou descompensações clínicas. 

Esse movimento não se restringe ao esporte profissional. Dados de 2024 da TotalPass mostram que a busca por modalidades olímpicas cresceu 83% entre 2023 e 2024, com destaque para o boxe, que avançou 178%. Durante o período olímpico, o interesse aumentou ainda mais, com alta adicional de 27%. 

Para gestores de saúde corporativa, esses números ampliam a responsabilidade preventiva: mais pessoas fisicamente ativas significam maior demanda por protocolos estruturados de avaliação, mitigação de riscos e acompanhamento longitudinal, reduzindo afastamentos, sinistralidade e custos assistenciais evitáveis. 

Tudo começa pela segurança. Antes de qualquer temporada, a avaliação pré-participação não apenas verifica se o atleta está apto a competir, mas identifica riscos silenciosos por meio de exames como a ergoespirometria e o ecocardiograma, que avaliam capacidade aeróbica, função pulmonar e riscos cardíacos. Na prática hospitalar, essa lógica é equivalente à estratificação de risco e à avaliação pré-operatória bem conduzida, fundamentais para reduzir complicações, tempo de internação e eventos adversos, pilares centrais de qualquer modelo de cuidado baseado em valor. 

Superada a barreira da segurança, o diagnóstico passa a atuar como ferramenta de otimização. No futebol profissional, por exemplo, onde a exigência física é contínua e intensa, o desafio não é apenas treinar mais, mas treinar melhor. O acompanhamento laboratorial periódico permite compreender como o organismo responde às cargas impostas, identificando sinais precoces de fadiga, inflamação ou desequilíbrios metabólicos. A modulação do preparo é decisiva para manter desempenho e longevidade. 

Mesmo com protocolos preventivos robustos, a lesão faz parte da realidade do esporte. Quando ela ocorre, o tempo e a precisão do diagnóstico são determinantes. Exames de imagem como a ressonância magnética e a ultrassonografia não apenas identificam a lesão, mas orientam todo o processo de reabilitação e o retorno seguro à competição. Diagnósticos precisos e oportunos cumprem papel semelhante no sistema de saúde: reduzem reinternações, encurtam jornadas de cuidado e evitam desperdícios associados a tratamentos tardios ou mal direcionados. 

Acompanhamentos seriados oferecem parâmetros objetivos sobre a cicatrização tecidual, reduzindo decisões baseadas exclusivamente na dor ou na urgência competitiva. Esse modelo integrado de cuidado exige mais do que tecnologia. Depende de acesso rápido aos exames, excelência técnica na interpretação dos resultados e comunicação fluida entre equipes médicas e gestores, transformando dados clínicos em decisões que protejam o indivíduo e sustentem resultados ao longo do tempo. 

O esporte de alto rendimento já demonstrou que atuar de forma antecipatória é condição para sustentar performance, reduzir riscos e preservar longevidade. Quando essa lógica é transposta para a gestão da saúde, o diagnóstico deixa de ser um recurso acionado diante da falha e passa a ocupar o centro da estratégia assistencial. Sistemas que investem em prevenção, monitoramento contínuo e decisões orientadas por dados não apenas protegem melhor indivíduos e populações, como também operam com maior eficiência, previsibilidade e sustentabilidade ao longo do tempo – em concordância com protocolos técnicos. 

No fim, assim como no esporte, o melhor resultado é aquele que preserva o corpo, e o sistema, aptos para seguir em movimento. 

*Alexandre Valim é diretor de Operações Médicas da Dasa.