Na rotina intensa dos serviços de saúde, é comum que a prática assistencial ocupe quase todo o espaço mental e de energia dos profissionais. Atender pacientes, resolver demandas administrativas, lidar com familiares, cumprir protocolos, enfrentar plantões.

Mas existe um risco silencioso nessa lógica: quando focamos nossa carreira assim, perdemos dois pilares fundamentais que sustentam o crescimento profissional e a evolução do setor como um todo — o ensino e a pesquisa.

A pergunta que abre essa reflexão é simples e provocativa: o que seria da saúde se cada profissional se limitasse a repetir apenas o que aprendeu na faculdade ou na residência, sem ensinar ninguém nem investigar novas respostas?

Multiplicar também é aprender

Ensinar não significa apenas dar aula em um auditório ou ser professor universitário. Ensinar está presente em momentos simples e cotidianos:

  • Orientar um novo colega sobre um procedimento;
  • Treinar estagiários e residentes;
  • Compartilhar uma prática bem-sucedida em uma reunião de equipe;
  • Explicar um processo a profissionais de outras áreas;
  • Participar de jornadas, simpósios ou encontros científicos.

Cada vez que um profissional compartilha conhecimento, ele fortalece sua própria compreensão, amplia sua visibilidade e reforça sua credibilidade. Mais do que isso: contribui para a continuidade da qualidade assistencial, já que o saber não se perde, mas se multiplica.

O profissional que ensina é visto como referência, e essa percepção abre portas para novas oportunidades de carreira, seja em cargos de gestão, em programas de formação ou em redes de liderança.

O papel da pesquisa: transformar problemas em soluções

Pesquisa, para muitos, ainda soa como algo distante, restrito a laboratórios, protocolos complexos e publicações acadêmicas. Mas é importante ampliar essa visão. Pesquisar é, essencialmente, buscar respostas para melhorar a prática.

No contexto da saúde, isso pode assumir diferentes formas, com a devida estruturação metodológica:

  • Registrar dados de atendimento e analisar padrões;
  • Investigar causas de um problema recorrente em determinado setor;
  • Aplicar protocolos novos e mensurar resultados;
  • Produzir relatos de experiência para compartilhar em congressos;
  • Colaborar em estudos multicêntricos ou redes de pesquisa.

A pesquisa, mesmo em escala pequena, permite que a experiência cotidiana se transforme em evidência. E evidências são a base para decisões clínicas mais seguras, gestão mais eficiente e políticas de saúde mais assertivas.

O profissional que se envolve com pesquisa aprende a questionar, validar e propor soluções. E essa habilidade o diferencia no mercado e em sua instituição.

Benefícios do ensino e da pesquisa para a carreira

O impacto de integrar ensino e pesquisa à trajetória profissional é amplo:

  • Maior reconhecimento: ser visto como referência técnica e intelectual.
  • Diferencial competitivo: em processos seletivos, concursos e promoções.
  • Abertura de redes: contato com universidades, sociedades científicas e associações.
  • Crescimento contínuo: manter-se atualizado em um setor em constante mudança.
  • Satisfação pessoal: transformar a rotina em algo que gera impacto além do paciente atendido.

Além disso, quem ensina e pesquisa geralmente desenvolve habilidades de comunicação, pensamento crítico e liderança, que são valorizadas em qualquer contexto.

Barreiras e mitos que precisamos quebrar

Apesar da importância, muitos profissionais ainda resistem a integrar ensino e pesquisa em suas carreiras. Alguns argumentos comuns:

  • “Não tenho tempo.” – Tempo é realmente um desafio, mas começar pequeno é possível: escrever um relato de caso, participar de uma discussão em grupo, dar uma palestra interna.
  • “Isso é só para quem está na universidade.” – Pesquisa aplicada e ensino interno também têm grande valor. Não é preciso ser professor universitário para ensinar nem ter doutorado para pesquisar.
  • “Eu não sei por onde começar.” – Existem cursos, mentorias e redes de apoio para orientar os primeiros passos. O mais importante é a disposição para aprender e compartilhar.

Romper essas barreiras é essencial para ampliar a cultura do ensino e da pesquisa em saúde.

Caminhos práticos para integrar ensino e pesquisa

  1. Participar de projetos da instituição: oferecer-se para colaborar em treinamentos, capacitações ou grupos de trabalho.
  2. Registrar boas práticas: documentar processos que funcionaram bem e compartilhar com colegas.
  3. Publicar relatos de experiência: congressos e revistas valorizam descrições de casos práticos.
  4. Orientar colegas mais novos: ser mentor formal ou informal de estagiários e residentes.
  5. Buscar parcerias acadêmicas: aproximar-se de universidades locais, sociedades médicas ou associações de classe.
  6. Investir em capacitação pessoal: cursos de metodologia científica, didática ou oratória.
  7. Participar de jornadas científicas: apresentar trabalhos, pôsteres ou palestras.
  8. Propor pequenas investigações: coletar dados de rotina para propor melhorias.

Profissionais que ensinam e pesquisam transformam a saúde

A carreira em saúde não se resume ao atendimento de hoje ou ao plantão da semana. Ela se constrói ao longo dos anos, na capacidade de aprender, ensinar e gerar novas soluções.

Ensino e pesquisa são os pilares que sustentam a evolução da saúde. Eles fortalecem o profissional, dão consistência à instituição e, acima de tudo, beneficiam o paciente, que recebe cuidado mais qualificado e baseado em evidências.

A pergunta que fica é: qual tem sido o seu papel além da atividade diária? Você apenas executa… ou também multiplica e transforma?

Se cada profissional se visse como educador e pesquisador, a saúde daria um salto de qualidade importante. E esse futuro começa no presente, com as pequenas escolhas que fazemos hoje.