Paredes, leitos e tomógrafos são monumentos estáticos; são ativos em depreciação acelerada que ocupam espaço e morrem no silêncio do ferro e do tijolo. O Ativo Físico, tangível, tem um teto de receita. Um leito só pode faturar 24h por dia. Para dobrar a receita física, o hospital precisa dobrar o prédio (investimento massivo). O Ativo Digital, por outro lado, refere-se a qualquer conteúdo ou recurso que seja armazenado digitalmente e que possua valor para a organização. Numa definição mais simples: ativos digitais são itens que existem de forma eletrônica, que possuem valor e que podem ser possuídos, transferidos ou negociados pela internet (não confundir com criptoativos, tokens, NFTs, contratos inteligentes, etc., que, por enquanto, continuam apartados do bioma-saúde).

Ativos digitais incluem: EHR, Dados de Imagem e Diagnóstico, Infraestrutura de Telehealth (plataformas de consulta remota e sistemas de monitoramento de pacientes), Algoritmos de IA e Análise de Dados (modelos preditivos), Sistemas de Gestão Laboratorial, sem falar em IoMT, sensores, biossensores, infraestrutura de segurança cibernética, assistentes agênticos, humanoides, robótica cirúrgica, bancos de dados, barramentos de interoperabilidade, VPNs e uma infinidade de outros elementos que transportam o hospital para a computação local ou em nuvem. Dias desses, o investidor bilionário Chamath Palihapitiya explicou a potência dos ativos digitais inteligentes para o crescimento empresarial: “Empreendedores inventaram a refrigeração e ganharam algum dinheiro, mas a maior parte dos ganhos foi realizada pela Coca-Cola, que usou a refrigeração para construir um império. LLMs são como refrigeração e as empresas devem usá-los para saltos transicionais em curto espaço de tempo”.

Hospitais inteligentes têm mais bits do que argamassa. Boa parte da base hospitalar nacional ainda insiste em subir torres de concreto em vez de produzir infraestrutura de conectividade interna e externa. Ativos digitais estão silenciosamente se tornando a camada de confiança, verificação e automação. “Análises recentes comprovam que os retornos sobre investimentos digitais em saúde são mais significativos. Investir apenas $ 0,24 por pessoa/ano em ferramentas digitais para doenças não transmissíveis, por exemplo, poderia salvar mais de 2 milhões de vidas e gerar quase $ 200 bilhões em ganhos econômicos até 2033”, explica o estudo do World Economic Forum (WEF) 2026, apresentado em Davos este ano.

Estudos atualizados no contexto de 2026 (Bessemer Venture Partners, McKinsey, PwC e HIMSS) revelam uma mudança estrutural profunda na forma como hospitais são avaliados (“valuation”). O modelo tradicional, pautado em ativos tangíveis (imóveis, leitos, hotelaria, localização), está cedendo espaço para um modelo híbrido onde a eficiência operacional, turbinada por Inteligência Artificial e Maturidade Digital, torna-se o novo ‘multiplicador’ de valuation.

Enquanto tijolos, ladrilhos e leitos (bens tangíveis) são ativos de exaustão, que perdem valor a cada uso e exigem manutenção constante, ativos digitais (bens intangíveis) são bens de acumulação, que se tornam mais precisos e valiosos a cada bit processado. Sem falar na Inteligência Artificial Física, como a robótica humanoide, que cresce de maneira galopante no ecossistema hospitalar. Isso não significa que bens digitais dispensem manutenção e substituição, mas, quando bem apropriados e atualizados, podem dar ‘saltos triplos’ de produtividade em semanas.

O mercado financeiro agora “desconta hospitais analógicos” pelo risco de margens decrescentes e custos trabalhistas insustentáveis. Por outro lado, o “Valuation AI-Driven” premia a capacidade da instituição de ser um “Sistema Preditivo” e não apenas reativo. O “hospital valuation” em 2026 vai sofrer uma transição estrutural, onde o modelo tradicional cede lugar a uma lógica de “Eficiência”, na qual o principal driver de valor passa a ser a “margem por paciente alavancada e aferida por inteligência artificial”. Nesse novo modelo, a métrica tradicional do “EBITDA baseado em serviços” perde espaço para indicadores de produtividade (como receita por FTE) e o ativo “premium” de “Localização e Hotelaria” é relativizado pela adição de “data lake, algoritmos proprietários e LLMs agênticos”. O “custo de mão de obra” (profissionais de saúde) declina em função do avanço da cognição artificial na redução dos tempos de diagnóstico e na assertividade gerada por máquinas de suporte à decisão clínica.

Organizações hospitalares que implementam LLMs Generativos para tarefas administrativas e clínicas (como digital-scribes, triagem preditiva, suporte ao diagnóstico, etc.) apresentam métricas radicalmente superiores. A “Receita por Funcionário” (métrica de ouro), por exemplo, gera entre $100k e $200k por funcionário no modelo tradicional, mas, em um hospital AI-enabled, chega a gerar entre $500k e $1M, com a IA permitindo que a equipe clínica atenda mais pacientes com maior qualidade. No hospital tradicional (70% analógico), existe um teto de valorização. O mercado paga “apenas” 11,5x o EBITDA dele (11,5 vezes o seu lucro operacional anual), pois os investidores desconfiam que o seu crescimento é difícil (caro e lento). Já o hospital digital (AI-driven) recebe múltiplos similares aos de empresas de tecnologia, que frequentemente variam entre 15x e 25x o EBITDA (o investidor paga mais porque a IA permite escalar o lucro rapidamente com baixo custo). Sem falar nas fusões e aquisições (M&A) de hospitais com alta maturidade digital, em que o ágio costuma ficar entre 20% e 60% sobre o valor do mercado tradicional (fontes: FirstPageSage; Focus e BVP).

Trata-se, portanto, de um mundo novo, em que a “Localização Física” compete (e perde) para a Telemedicina Híbrida (a “porta de entrada” valiosa não é o saguão do hospital, mas o aplicativo proprietário que tria o paciente antes de ele sair de casa). O “Ambiente de Hotelaria” ainda importa para a percepção do paciente, mas garante cada vez menos rentabilidade. Sem falar que a “Experiência do Paciente” (conceito moderno) não pode mais ser aferida apenas pelo conforto do quarto, mas também pela velocidade e pela personalização do atendimento. A “Maturidade Digital” (nível HIMSS 6 ou 7) correlaciona-se agora diretamente com escores de satisfação do paciente entre 1,8x e 2,2x maiores do que os de hospitais tecnologicamente imaturos.

Um exemplo é a Mayo Clinic, que anunciou estar levando o tratamento do câncer de cérebro e coluna vertebral para a casa dos pacientes, utilizando a plataforma NOA (Neuro-Oncology Anywhere). Trata-se de uma solução remota de avaliação cognitiva que acompanha pacientes com histórico de radioterapia cerebral. A operação usa um aplicativo web para consultas telemédicas, em conjunto com dispositivos inteligentes (inclui dispensação inteligente e entrega de medicamentos pelo correio). Um segundo estudo da Mayo, denominado NOA-242, comparou sistematicamente avaliações presenciais com avaliações remotas (pacientes submetidos à quimioterapia oral). Os resultados ajudaram a assegurar que a remotelização quimioterápica fosse aceita pelos pacientes, sem comprometer a adesão ao tratamento ou aumentar eventos adversos.

Ter um paciente internado no hospital já não garante, sozinho, um incremento de valuation. Ele precisa, como nunca antes, ter uma experiência diagnóstica assertiva e rápida, um plano terapêutico que possa ser acompanhado remotamente e uma continuidade de cuidado que vá muito além da doença circunstancial. Nada disso é possível sem uma malha de ativos digitais inteligentes e confiáveis.

Qual o valor intrínseco de um ativo digital usado na Inglaterra para prever quando os departamentos de emergência estarão mais ocupados? A previsão de demanda, que outrora era feita por uma dezena de gestores, é realizada hoje por uma única plataforma de IA para todos os Trusts do NHS. “A IA já está melhorando a saúde ao acelerar o diagnóstico e desbloquear novos tratamentos. Agora vamos um passo além. Ao ajudar a prever a demanda, a ferramenta de previsão por IA proporciona ao paciente o atendimento que precisa de forma mais rápida, ao mesmo tempo em que apoia nossa incrível equipe do NHS. Isso significa aliviar a pressão da cadeia hospitalar”, explica Liz Kendall, secretária de tecnologia do NHS (o sistema de saúde britânicogarantiu investimentos de 10 bilhões de libras para transformação digital cognitiva no biênio 2028/2029).

A nova era digital, propelida pelos LLMs, tornou-se uma questão mais de governança e menos de TI. O que antes era considerado “habilitação tecnológica” tornou-se agora infraestrutura fundamental para cuidados acessados, prestados e vivenciados. Chamadas de voz, mensagens de texto, chat, portais, consultas virtuais e interações assistidas por IA formam, em conjunto, a “Porta de Entrada Digital” (PED) das cadeias de saúde. O valor econômico de uma unidade de prestação de serviços médicos está diretamente ligado ao desempenho de seu PED. Conselhos hospitalares precisam entender a mudança de responsabilidade na governança. “O desempenho da porta de entrada digital agora afeta o custo do atendimento, a equidade no acesso, a satisfação do paciente, a geração de receita e o risco operacional. Decisões sobre automação, inteligência artificial e engajamento digital podem afetar materialmente os resultados de forma comparável a grandes iniciativas clínicas ou financeiras”, explica Jeff Hartweg, vice-presidente da Impact Advisors.

Aqueles “Conselhos de Administração”, que historicamente aprovam as “obras do hospital”, devem perceber que o ‘brilho’ do valuation está migrando para a governança digital. Erros e atrasos nas decisões que envolvem os ativos digitais vão desvalorizar qualquer outro ativo da cadeia hospitalar (IA não é inerentemente insegura; IA sem governança certamente é insegura).

Negócios de M&A no setor brasileiro de saúde tiveram alta de 37% em relação a 2024 e continuarão aquecidos em 2026 (fonte: KPMG). Nos EUA, a corrida pela transformação digital hospitalar continua impulsionada pelos LLMs: o investimento em saúde digital em 2025 foi 35% maior em relação a 2024. Ativos digitais, como LLMs, atraem maior prêmio: em 2025, 50% dos negócios foram fechados por empresas com “habilitação em IA”. Ou seja, healthtechs com IA capturaram 54% do financiamento total, um aumento de 37% em relação a 2024.

O relatório da PCE Investment Bankers, publicado em janeiro/2026, ressalta que “em 2025, o mercado de transações no setor de saúde já precificou a eficiência ‘mensurável’ (IA/automação/analytics) como diferencial de valuation. Perto de 75% dos 10 maiores negócios em Saúde focaram automação de back-office e plataformas orientadas a dados, refletindo um valor premium em ganhos mensuráveis de eficiência. Os adquirentes miram empresas que aumentam o fluxo de clientes, reduzem custos administrativos ou melhoram a coordenação do cuidado por meio de ativos digitais”.

Já o report “Digital Health Funding in 2025: From Hype to Hard Results” da Galen Growth, publicado também em janeiro/2026, avaliou que, em 2025, o mercado de saúde cansou de IA como promessa e começou a exigir ‘IA como resultado’. Segundo o documento, em 2025 a IA (hoje, o mais poderoso ativo digital disponível no bioma-saúde) deixou de ser broche e virou PDV, ou seja, se não virar receita, vira custeio. Não basta dizer “temos IA”. A pergunta mudou para: quanto ela devolve. A partir daí, investidores e compradores passaram a valorizar quem consegue utilizar as GenAIs para produzir mais com o mesmo hospital (mais eficiência, mais margem, mesmo prédio). Outro estudo (“State of Health AI 2026”), publicado este ano pela Bessemer BVP, dita um presságio:“O mercado reprecifica ‘velocidade e margem’ e os hospitais que internalizam IA viram plataformas”.

Um exemplo é o HCA Healthcare (rede norte-americana de 188 hospitais, mais de 50 mil leitos e 30 mil funcionários). A empresa resolveu tratar IA menos como “laboratório de inovação” e mais como “chão de fábrica”: em janeiro de 2026, ela descreveu como a IA reduziu a sua carga administrativa e aumentou a cognição vinculada ao cuidado. Começou pelo ‘calo’ que lhe dói todos os malditos dias: o Nurse Handoff é um LLM voltado a automatizar e qualificar a troca de turno, atacando aquela etapa em que profissionais entram no EHR para “garimpar” e remontar a história do paciente (um trabalho que pode tomar mais de uma hora só para organizar a informação). A mesma lógica aparece no uso de IA como suporte à decisão clínica na gestão de risco materno-fetal, padronizando avaliações que hoje são subjetivas e manuais. O HCA conseguiu reduzir variabilidade, antecipar identificação de risco e diminuir retrabalho (“back charting”).

Para se avaliar o peso dos ativos digitais do HCA, basta um número simples: análises setoriais do mercado norte-americano colocam a mediana da margem operacional dos health systems perto de 1,1%, e a mediana hospitalar (ano-até-outubro/2025) em 2,7%. No 3º tri de 2025, o HCA já registrava 12,6% de margem operacional. Em outras palavras: não é que o HCA está “um pouco acima” do setor; eles estão jogando em outra liga…

Se o ativo físico tem teto de receita, os ativos digitais algoritmizados, como Cognware (cognição artificial em saúde), não têm teto. Uma IA de predição de sepse ou de triagem oncológica pode processar 10 ou 10.000 pacientes simultaneamente com custo marginal. Sem a inteligência de dados, gerada por humanos e/ou máquinas artificiais, um hospital é apenas uma rede hoteleira para enfermos, em geral de alto custo. Se essa tese incomoda às organizações hospitalares e a seus stockholders, muito melhor. No fundo, o que está mudando não é o hospital; é a natureza do capital hospitalar. O dado clínico, por décadas, foi “subproduto”: abundante demais e utilizado de menos. Hoje, é o contrário: a vantagem competitiva já não reside no equipamento em si, mas no conjunto de mediações que o torna produtivo: integração com EHR, pipelines de qualidade, observabilidade do modelo, validação local, auditoria de vieses, mecanismos de ‘override’ humano, registro de decisão, rastreabilidade, etc.

A Transformação Digital no fim deste primeiro quarto de século radicalizou: se o hospital só conseguiu avançar nos seus ativos digitais em 15%, em comparação com a última década, seu valuation já desabou e não suporta níveis de aceleração tecnológica compatíveis com os tempos atuais. Definha como um Mercedes-Benz Classe S fabricado há duas décadas: tem a melhor engenharia automobilística do mundo, até o dia em que o virabrequim quebra (ou o módulo eletrônico colapsa, sem que ninguém mais o fabrique). A reposição custa caro, pode demorar anos, e ninguém se interessa em comprar uma máquina que não roda. Hospital sem ativos digitais robustos entra nessa lógica: pode ter tomógrafo, leito, brand name e paredes de cristal; sem transição digital em Cognware, está condenado a ser caro demais para manter, lento demais para competir e difícil demais de vender.

Guilherme S. Hummel
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)