“A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.” (Peter Senge)
O governo do Reino Unido propôs no ano passado uma reforma profunda para enfrentar o que considerava a maior crise da história do seu sistema de saúde, o National Health Service (NHS).
O “Fit for the Future – 10 Year Health Plan for England” é um plano estratégico para tratar de problemas que parecem extraídos do nosso cotidiano. São exatamente os mesmos desafios enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Por se basearem na mesma estrutura lógica, trata-se de uma oportunidade valiosa para identificarmos novas estratégias para o futuro do sistema público de saúde.
Segundo o relatório inglês, o NHS é excessivamente “hospitalocêntrico” – modelo de saúde centrado no hospital e no tratamento de doenças, em vez de focar na prevenção e na atenção básica –, além de fragmentado e desconectado da comunidade.
A ausência de um sistema integrado de gestão do prontuário do paciente resulta em processos dependentes de papel e sistemas analógicos ineficientes. Consequentemente, as filas se tornaram gigantescas, pacientes esperam meses por especialistas, dentistas ou até clínicos gerais.
Áreas remotas sofrem com acesso desigual e baixa qualidade nos serviços. Nesse contexto, os profissionais encontram-se desmotivados, sobrecarregados e com altos índices de afastamento por problemas de saúde, muitos deles relacionados à Síndrome de Burnout.
Para reverter esse quadro, o governo britânico estabeleceu algumas estratégias:
Fortalecimento da atenção primária: denominada como “serviços de saúde da vizinhança”, a meta é garantir acesso ao médico generalista no mesmo dia e transferir uma parcela maior do orçamento para o cuidado comunitário.
Interoperabilidade e dados: criação de um registro único de pacientes, garantindo que profissionais de toda a rede e o próprio cidadão tenham acesso às informações em qualquer unidade do sistema.
Transformação digital: From bricks to clicks, expressão que se refere`à transição do meio físico para o digital. Essa estratégia passou a priorizar o acesso remoto para reduzir as filas, em unidades básicas e nas emergências, por meio de ferramentas digitais que permitam resolver demandas à distância e reduzam a necessidade de visitas presenciais de profissionais. Similarmente, no Brasil atual, os hospitais consomem recursos atendendo presencialmente casos de baixa complexidade ou até irrelevantes (como viroses, dores crônicas e fornecimento de receitas de uso contínuo) que poderiam estar na atenção primária digital. O objetivo seria liberar os hospitais para casos complexos, resolvendo o restante na própria comunidade.
Sistema proativo: desenvolver estratégias que facilitem escolhas saudáveis nos hábitos de vida, com foco no combate à obesidade, na criação de uma geração sem tabaco, na ampliação da vacinação e no uso de genômica populacional para identificar riscos genéticos anos antes do surgimento de doenças.
No campo da gestão, essas iniciativas envolveram um novo modelo operacional, com transparência total no desempenho das organizações e um foco rigoroso no ganho de eficiência contínuo, com meta de 2% ao ano. Notadamente, o plano do NHS não prevê investimentos vultosos em infraestrutura de alta complexidade física, mas, sim, em processos e tecnologia.
A realidade brasileira: do absenteísmo às filas invisíveis

Na nossa realidade, os dados são alarmantes. O absenteísmo no setor da saúde é significativamente superior aos de outras áreas: enquanto a taxa média no Brasil gira em torno de 5,1%, na saúde ela atinge 10,56%.
Em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), os índices chegam a impressionantes 31%. Estima-se que a Síndrome de Burnout afete cerca de 30% dos profissionais no país, e os de enfermagem perdem, em média, por causa disso, 54 dias de trabalho por ano.
Do ponto de vista assistencial, a fila para cirurgias eletivas especializadas no SUS é estimada em mais de 1 milhão de pessoas. Apenas os estados de São Paulo e de Minas Gerais somam 600 mil pacientes em espera.
Talvez esses números ocultem uma outra realidade ainda mais grave: a demanda reprimida por falta de acesso e diagnóstico. Em um projeto para gerar maior acessibilidade ao tratamento oncológico em um município do Estado de São Paulo, o número de pacientes com acesso ao tratamento entre 2017 e 2024 saltou de 700 para 1.400 ao ano, após a ampliação do cuidado e uma melhor gestão das filas.
Isso revela que anteriormente, o sistema não “enxergava” metade dos pacientes. É provável que esse fenômeno da “fila invisível” se repita nacionalmente nas cirurgias eletivas e em diversas especialidades.
O crescimento de 55% dos pacientes renais crônicos em tratamento dialítico nos últimos 10 anos também se deve, em parte, à epidemia silenciosa de hipertensão arterial e diabetes, doenças não adequadamente tratadas na atenção primária. Isso representa cerca de 60% de novos pacientes em diálise.

O custo do desperdício e o valor da qualidade
A justificativa habitual para as filas cirúrgicas é a falta de leitos, mas uma análise mais cuidadosa revela o custo do desperdício invisível.
O 2º Anuário de Segurança Assistencial Hospitalar no Brasil, de 2017, identificou que 54.700 brasileiros morreram naquele ano por eventos adversos hospitalares. Desses, 36.000 mortes eram potencialmente evitáveis se houvesse padrões superiores de segurança e qualidade. Essas falhas consumiram 14 milhões de “leitos-dia”, o equivalente a manter 39.000 leitos ocupados ininterruptamente por um ano (cerca de 14 dias extras de internação por evento adverso).
Pensando em infraestrutura, esse desperdício equivale a aproximadamente 90 hospitais de 400 leitos operando exclusivamente para tratar falhas do próprio sistema. A construção de apenas um hospital desse porte custaria, de forma otimista, cerca de R$ 450 milhões. Com o valor de apenas uns poucos hospitais, o sistema poderia oferecer treinamento em segurança e qualidade para centenas de milhares de profissionais da saúde por décadas.
Como prova de conceito, o projeto “Lean nas Emergências”, iniciativa do Ministério da Saúde feita pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS), já capacitou cerca de 400 hospitais brasileiros com um custo estimado de 500 mil Reais por unidade durante três anos.
Os resultados falam por si: em uma amostra de 97 hospitais, a melhor gestão de leitos “criou” o equivalente a 13.000 novas vagas mensais com a otimização de processos, reduzindo o tempo de permanência em 27% e permitindo 48.000 novos atendimentos por mês. Estima-se que perto de 8 mil mortes por ano tenham sido evitadas com essa maior agilidade no cuidado.
A qualidade como imperativo estratégico
Historicamente, questiona-se o retorno financeiro de investir em segurança e qualidade assistencial. Hoje, os dados oferecem respostas definitivas: a ineficiência mata tanto quanto a doença e custa mais caro do que a excelência. Não se trata apenas de construir mais paredes, mas de redesenhar os fluxos de cuidado.
Não há mais espaço para que a segurança e a qualidade sejam tratadas como metas secundárias ou departamentos isolados. Elas devem ser o pilar central da estratégia de qualquer organização de saúde que pretenda ser sustentável.
O futuro não reside na expansão da capacidade física ilimitada, mas na aptidão intelectual e tecnológica de transformar o desperdício em cuidado, garantindo que o sistema seja, de fato, seguro para o paciente e viável para a sociedade. Investir estrategicamente em qualidade é, objetivamente, o único caminho possível para garantir a sobrevivência das instituições e a dignidade do cuidado.
Este é apenas um dos temas que atravessam a transformação do setor. Leia mais, no Saúde Business, sobre caminhos possíveis para um sistema de saúde com menos desperdícios e mais sustentável.