Março começa com um convite à reflexão — e à ação. No Mês da Mulher, o Saúde Business lança a série especial Mulheres na Saúde, dedicada a lideranças que influenciam decisões, moldam estratégias e impulsionam a transformação do setor.  

Mais do que destacar trajetórias individuais, a proposta é ampliar o debate sobre equidade de gênero como agenda estratégica para a sustentabilidade da saúde.   

Embora as mulheres representem cerca de 70% da força de trabalho em saúde no mundo, ocupam apenas 25% dos cargos de liderança — segundo a Women in Global Health Brazil. Se a lógica fosse proporcional à presença no setor, sete em cada dez posições estratégicas estariam sob comando feminino. A discrepância evidencia um desafio estrutural que ultrapassa fronteiras organizacionais.  

 A desigualdade de gênero na liderança reflete uma questão mais ampla da sociedade. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública — quatro mortes por dia. 

Empoderamento feminino

Danielle Sousa Feitosa Ferreira tem uma trajetória marcada pelo compromisso com a saúde, a inclusão social e a valorização do trabalho feminino. Bacharel em Direito e pós-graduanda em Gestão de Negócios da Saúde pela Fundação Dom Cabral (FDC), ocupa a posição de Diretora Administrativa na Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde) Mulher.

A executiva é considerada uma referência na luta pela melhoria das condições de vida das mulheres e pela promoção de uma saúde suplementar mais inclusiva e eficiente. Em 2025, concretizou ainda mais esse objetivo sendo coautora do livro Mulheres na Saúde – Vol II, da Editora Leader.

Em uma cerimônia na Câmara dos Deputados, em comemoração aos 30 anos da CNSaúde, destacou que o setor de saúde é o terceiro maior empregador do Brasil, com 76% da força de trabalho composta por mulheres. Ela enfatizou a importância de gerar empregos para mulheres e jovens, reconhecendo o setor como um espaço de valorização e inclusão.

Com mais de 31 anos de atuação no setor de saúde suplementar, em Brasília e no Brasil, ocupa posições de destaque, como Superintendente do Sindicato Brasiliense de Hospitais, Casas de Saúde e Clínicas (SBH), Vice-Presidente da Federação Nacional dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde (FENAESS), Gestora da Câmara de Saúde do Codese/DF, Conselheira de Saúde do Distrito Federal e Diretora Honorária do Riex/DF e também é sócia-fundadora do Hospital de Olhos do Distrito Federal (HODF).

Durante a pandemia de Covid-19, desempenhou um papel fundamental como facilitadora das relações entre prestadores privados e autoridades. Sua atuação contribuiu para ampliar a oferta de leitos, alertar sobre a falta de insumos e equipamentos, e apoiar iniciativas como hospitais de campanha financiados pela saúde privada.

Danielle Feitosa, diretora administrativa na Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde); Juliana Vicente, head do portfólio de Saúde da Informa Markets no Brasil; Tacyra Valois, diretora do DECOMSAÚDE da FIESP.

Saúde Business: O setor da saúde é historicamente hierarquizado. Na prática, há diferenças no acesso ao poder e na forma de liderar quando a liderança é feminina? 

Danielle Feitosa: Sim. O setor da saúde é, por natureza, técnico e altamente hierarquizado, e historicamente os espaços de decisão estratégica foram ocupados majoritariamente por homens, mesmo sendo a base assistencial composta, em grande parte, 76% por mulheres.

Na prática, ainda existem diferenças no acesso ao poder, principalmente no empreender, nos conselhos, nas diretorias executivas e nos espaços de governança institucional. Muitas mulheres chegam à liderança por competência comprovada e desempenho excepcional, mas enfrentam um caminho mais longo, com necessidade constante de validação. Sem contar na diferença de remuneração, o que é lamentável.

Quanto à forma de liderar, percebo que a liderança feminina tende a ser mais colaborativa, agregadora e orientada ao impacto coletivo. Mulheres costumam construir pontes, fortalecer redes e promover ambientes mais inclusivos e humanizados, características extremamente estratégicas para um setor que lida diretamente com vidas.

SB: Quais mudanças concretas — de governança, cultura organizacional ou modelos de gestão — são indispensáveis para ampliar a presença feminina em posições estratégicas no setor da saúde? 

Danielle Feitosa: Algumas mudanças são essenciais para promover a equidade e a valorização feminina nas organizações. É fundamental estabelecer metas claras de diversidade na governança, garantindo a presença de mulheres em conselhos e diretorias.

Além disso, processos estruturados de sucessão devem ser implementados para identificar e desenvolver lideranças femininas. Políticas que promovam o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, especialmente em fases como a maternidade, também são indispensáveis. Programas formais de mentoria e formação executiva são necessários para preparar mulheres para ocupar cargos estratégicos.

Por fim, construir uma cultura organizacional orientada por mérito e competência, com avaliações baseadas no desempenho, eliminando vieses inconscientes. Não se trata de concessão, mas de reconhecer talento e ampliar o acesso às oportunidades de decisão.

SB: Quais competências são inegociáveis para quem ocupa cargos de alta liderança na saúde? 

Danielle Feitosa: Algumas competências são absolutamente indispensáveis para o sucesso em qualquer área de atuação. Entre elas, destacam-se a visão estratégica e a capacidade de antecipar cenários, essenciais para planejar e tomar decisões assertivas. Uma governança sólida, aliada à responsabilidade institucional, garante a credibilidade e a eficiência na gestão.

Além disso, a inteligência emocional e a capacidade de negociação são fundamentais para lidar com desafios e construir relacionamentos produtivos. A gestão de riscos e a sustentabilidade financeira asseguram a estabilidade e o crescimento a longo prazo, enquanto a capacidade de inovação e adaptação tecnológica permite acompanhar as transformações do mercado. Por fim, a comunicação clara e a habilidade de construir consensos são indispensáveis para engajar equipes e alcançar objetivos comuns.

O setor da saúde exige líderes preparados para equilibrar qualidade assistencial, sustentabilidade econômica e responsabilidade social, sejam eles homens ou mulheres.

SB: Quais transformações estruturais serão determinantes para a sustentabilidade e eficiência do sistema de saúde nos próximos anos? 

Danielle Feitosa: Destaco cinco transformações estruturais. A primeira delas é a integração de dados e a interoperabilidade dos sistemas de informação. Em seguida, o uso estratégico da tecnologia e da inteligência artificial, acompanhado por modelos de remuneração baseados em valor e desfechos. Além disso, o fortalecimento da governança público-privada ganha destaque, e, por fim, o foco na prevenção e na coordenação do cuidado.

Sem eficiência operacional, previsibilidade regulatória e equilíbrio econômico-financeiro, não há sustentabilidade. A saúde precisa ser tratada como política pública estruturante e também como setor estratégico da economia.

SB: Você se inspira em qual liderança feminina e por quê?   

Danielle Feitosa: São muitas. Tenho grande admiração por Janete Vaz e Sandra Costa, cofundadoras do Grupo Sabin. Suas trajetórias reúnem empreendedorismo, inovação, responsabilidade social e uma liderança genuinamente humanizada. Elas demonstram que é possível crescer com propósito, construir governança sólida e gerar impacto coletivo, sem perder a essência.

Também me inspira profundamente a brilhante pesquisadora Tatiana Coelho, cujo trabalho científico, com a descoberta de uma proteína capaz de contribuir para a recuperação da mobilidade de pacientes, representa esperança concreta para milhares de pessoas. Ciência, propósito e transformação social caminham juntos em sua atuação.

Além delas, inspiro-me diariamente nas mulheres que lideram hospitais, clínicas e instituições de saúde em todo o país. Sabemos que não é simples. Enfrentamos desafios regulatórios, econômicos e assistenciais constantes. Ainda assim, seguimos com coragem, competência e senso de responsabilidade, sustentando organizações, gerando empregos e impactando vidas.

Porque, no fim, liderança feminina na saúde é sobre compromisso com pessoas e com o futuro. Acredito profundamente que, quando ampliamos a presença feminina nos espaços de decisão, ampliamos também a capacidade de transformação do setor.

Como costumo dizer: “Quando uma mulher avança, todos avançam.”

Esta reportagem faz parte da série especial Mulheres na Saúde. Ao longo do mês, o Saúde Business trará novas entrevistas com executivas que vêm influenciando decisões e redesenhando o futuro do setor. Acompanhe e faça parte dessa reflexão!