Março começa com um convite à reflexão — e à ação. No Mês da Mulher, o Saúde Business lança a série especial Mulheres na Saúde, dedicada a lideranças que influenciam decisões, moldam estratégias e impulsionam a transformação do setor. 

Mais do que destacar trajetórias individuais, a proposta é ampliar o debate sobre equidade de gênero como agenda estratégica para a sustentabilidade da saúde.  

Embora as mulheres representem cerca de 70% da força de trabalho em saúde no mundo, ocupam apenas 25% dos cargos de liderança — segundo a Women in Global Health Brazil. Se a lógica fosse proporcional à presença no setor, sete em cada dez posições estratégicas estariam sob comando feminino. A discrepância evidencia um desafio estrutural que ultrapassa fronteiras organizacionais.  

A desigualdade de gênero na liderança reflete uma questão mais ampla da sociedade. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública — quatro mortes por dia. 

Diante desse cenário, dar visibilidade a mulheres que ocupam espaços de decisão na saúde é também reafirmar que equidade não é apenas pauta corporativa, mas compromisso social e de governança. 

Abrindo caminhos para o empreendedorismo feminino

Com uma trajetória marcada por liderança ética, visão estratégica e compromisso com o desenvolvimento humano e social. Foi eleita pela revista Forbes como uma das Mulheres Mais Poderosas do Brasil  entre 2016 e 2017.

Janete Vaz é cofundadora do Grupo Sabin, um dos maiores players de medicina diagnóstica do país, presente em 14 estados e no Distrito Federal. Bioquímica formada pela Universidade Federal de Goiás, possui MBA em Gestão de Negócios pelo INPG e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral (FDC).

A executiva é uma referência nacional na promoção da equidade e inovação na saúde, destacando-se por sua liderança e impacto no setor. Reconhecida pela revista Valor Liderança como uma das Melhores Gestoras de Empresas do Brasil, recebeu o prestigiado prêmio Women Who Make a Difference Award (2020), concedido pela Embaixada dos Estados Unidos. Além disso, foi homenageada como Profissional Referência da Saúde em Governança Corporativa (2015) pela Live Healthcare.

Forte defensora do protagonismo feminino, Janete é fundadora do Grupo Mulheres do Brasil – Núcleo Distrito Federal, ampliando o alcance da rede nacional criada por Luiza Helena Trajano. No núcleo, promove iniciativas voltadas ao empoderamento feminino, empreendedorismo, educação, combate à violência contra a mulher e políticas públicas com foco em inclusão e igualdade.

Ela integra importantes conselhos e instituições no país, como o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República (CDESS ), o Comitê de Saúde da Aliança Empresarial de Mulheres do BRICS, Conselho de Mulheres Notáveis da Fecomércio-DF e Conselho Curador da Fundação Dom Cabral (FDC).

Ocupa também a cadeira da vice-presidência do Fórum Nacional da Mulher Empreendedora (FNME/CNI) e do Instituto do Câncer Infantil, Hospital da Criança, Rede Sarah, Junior Achievement Brasil.

É coautora do livro Empreendendo Sonhos, publicado em 2014, que aborda a história das empreendedoras e fundadoras do Sabin e da trajetória de sucesso e crescimento empresarial do Grupo.

Como empreendedora, líder e mulher, Janete Vaz dedica-se há mais de três décadas a transformar o setor da saúde
Foto: Grupo Sabin | Divulgação

Saúde BusinessO setor da saúde é historicamente hierarquizado. Na prática, há diferenças no acesso ao poder e na forma de liderar quando a liderança é feminina? 

Janete Vaz: O setor da saúde, assim como muitos outros segmentos, carrega um histórico de forte hierarquização, em que a liderança era majoritariamente masculina. Esse foi um modelo que predominou por muitos anos. No entanto, nas últimas décadas, temos acompanhado uma mudança importante: a liderança feminina passou a ser mais valorizada e a ocupar cada vez mais espaço, especialmente à medida que mais empresas foram criadas e lideradas por mulheres, como aconteceu no caso do Grupo Sabin.

Quando as mulheres empreendem e constroem seus próprios negócios, elas também passam a ocupar naturalmente os espaços de decisão. Ainda enfrentamos desafios no acesso equitativo aos espaços de poder, especialmente nos níveis mais altos de governança, mas vemos avanços consistentes. A presença feminina tem crescido não apenas por uma questão de equidade, mas porque os resultados mostram que a diversidade fortalece a gestão.

Além disso, as organizações passaram a compreender que diversidade não é apenas uma questão de representatividade, mas uma estratégia de negócio. Equipes diversas ampliam perspectivas, melhoram a qualidade das decisões e fortalecem os resultados. Eu acredito que as mulheres não precisam abrir mão de características como cuidado com o outro e sensibilidade para exercer liderança, pelo contrário, essas qualidades agregam valor à gestão.

Na saúde, especialmente, onde lidamos diretamente com pessoas e vidas, uma liderança mais humanizada, com foco genuíno nas pessoas e na excelência do serviço, faz toda a diferença. Hoje, diversidade é também um fator de competitividade e de sustentabilidade para as organizações.

SB: Quais mudanças concretas — de governança, cultura organizacional ou modelos de gestão — são indispensáveis para ampliar a presença feminina em posições estratégicas no setor da saúde? 

Janete Vaz: É fundamental transformar intenção em prática. Isso começa com governança comprometida, com metas claras de diversidade e acompanhamento real dos resultados pela alta liderança. Isso significa reconhecer que as mulheres, muitas vezes, enfrentam desafios específicos ao longo da trajetória profissional, especialmente relacionados à maternidade e à dupla jornada.

O nosso esforço mútuo, como duas mulheres à frente de um negócio, de conciliar atividades da família e conquistar os objetivos profissionais transformou o Sabin em uma empresa que consegue aliar bom atendimento ao cliente, precisão nos resultados, inovação e atenção aos seus colaboradores.

No Grupo Sabin, sempre entendemos que desenvolver pessoas faz parte da estratégia do negócio. Isso significa investir na formação de lideranças, estruturar planos de carreira e estimular o protagonismo feminino. Também é essencial oferecer condições que considerem os diferentes momentos de vida das mulheres, com políticas que apoiem a maternidade e promovam equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Além das políticas, é indispensável construir um ambiente de respeito, onde não haja espaço para discriminação, vieses ou qualquer forma de desvalorização. Um ambiente seguro, ético e acolhedor permite que as mulheres se posicionem, assumam desafios e cresçam com confiança. Quando a organização reconhece essas necessidades e promove uma cultura verdadeiramente inclusiva, ela não está apenas promovendo equidade, está fortalecendo sua capacidade de inovar, decidir melhor e gerar resultados sustentáveis.

SB: Quais competências são inegociáveis para quem ocupa cargos de alta liderança na saúde — independentemente de gênero? 

Janete Vaz: A saúde é um setor complexo, regulado e em constante transformação, então a liderança precisa ter visão sistêmica e capacidade de adaptação. Mas, acima de tudo, precisa estar ancorada em valores sólidos. Eu sempre defendo que formar lideranças dentro da própria organização é um caminho consistente, porque essas pessoas conhecem o negócio, entendem a cultura e tomam decisões mais alinhadas ao propósito da empresa. Valores claros ajudam o líder a decidir mesmo em cenários desafiadores.

Além disso, é indispensável ter responsabilidade na tomada de decisão, basear escolhas em dados, entender de estratégia e, ao mesmo tempo, manter sensibilidade para lidar com pessoas. Na saúde, eficiência e humanidade caminham juntas. Liderar é formar equipes fortes, engajadas e comprometidas com a qualidade e com o cuidado.

Conquistamos resultados porque buscamos alinhar três vertentes para o bom funcionamento do nosso negócio: processos, produtos e pessoas. Necessitamos da precisão dos números, mas sabemos que os resultados vêm dos talentos humanos. Essa cultura organizacional, que evidencia o cuidado e a humanização, é um dos destaquesda marca, e evolui na mesma intensidade da expansão do Grupo Sabin pelo país. Não à toa há mais de 20 anos o Sabin está entre as melhores empresas para se trabalhar no Brasil e na América Latina.

No Grupo Sabin, promovemos um ambiente organizacional humanizado, acolhedor e de cuidado com as nossas pessoas. Defendemos o respeito, a empatia e a valorização das diferenças, pois entendemos que a diversidade nos impulsiona, nos enriquece e nos fortalece enquanto pessoas e enquanto empresa.

Saúde Business: Quais transformações estruturais serão determinantes para a sustentabilidade e a eficiência do sistema de saúde nos próximos anos? 

Janete Vaz: Vivemos o aumento da expectativa de vida, a mudança da pirâmide etária e o prolongamento da vida profissional. As empresas e a medicina têm o desafio de estruturar um sistema capaz de entregar programas de saúde capazes de lidar de forma mais eficaz e eficiente com essa nova realidade e também com as doenças crônicas que são responsáveis por grande parte das mortes no mundo.  

A grande questão é como a medicina e os serviços de saúde podem contribuir para a gestão da saúde de uma população que está envelhecendo, que precisará se manter economicamente ativa e de forma saudável. A medicina preventiva, personalizada e preditiva estará mais forte no acompanhamento da saúde e no tratamento de doenças.  

No Grupo Sabin, investimos continuamente no desenvolvimento de uma cultura de inovação, estimulando a participação de colaboradores em pesquisas técnico-científicas e de desenvolvimento de novos produtos e serviços, assim como novos modelos de negócios e parcerias. 

Os serviços de atenção primária à saúde têm uma importante contribuição para melhoria da saúde da população economicamente ativa e, ao mesmo tempo a redução dos custos de saúde. Desde 2021, temos no ecossistema do Grupo Sabin a Amparo Saúde, que é uma grande parceira de empresas e operadoras na gestão de saúde populacional. Na saúde do futuro, a tecnologia continuará sendo uma importante aliada, mas o cuidado e a atenção contínua ao paciente continuarão sendo importantes diferenciais.  

Do ponto de vista mais global, a educação em saúde, com foco nas mudanças de comportamento e hábitos de cuidados com a saúde física, mental e social são chaves para a redução da sinistralidade e sustentabilidade do setor. 

As mulheres são as grandes guardiãs da saúde da família e por muitas decisões de saúde. Manter mulheres na governança de empresas públicas e privadas é estratégico. Um grande avanço que tivemos foi a Lei 15.177, que estabelece a obrigatoriedade de reserva mínima de participação de mulheres nos conselhos de administração de empresas públicas. É uma inovação legislativa com potencial de transformar a governança das empresas brasileiras, gerando mais equidade, segurança jurídica e responsabilidade corporativa.  

E, para finalizar, destaco que, na saúde do futuro, a tecnologia continuará sendo uma importante aliada, mas o cuidado e a atenção ao paciente continuarão sendo importantes diferenciais. O olho no olho entre paciente e médico não será substituído. 

Saúde Business: Você se inspira em qual liderança feminina e por quê?   

Janete Vaz: Venho de uma família de mulheres muito fortes, e essa foi a minha primeira grande inspiração. Minha avó e minhas duas tias paternas eram mantenedoras do lar, trabalhadoras e independentes. Minha avó, inclusive, foi uma das maiores revendedoras da Avon em Anápolis (GO). Ela era incansável, determinada, boa em fazer negócios e relacionamentos. E eu cresci observando sua disciplina, sua organização e sua capacidade de gerar renda com autonomia. Aquilo, para mim, já era uma forma muito clara de liderança. 

Com minha mãe, Geralda, aprendi o zelo, a dedicação e o compromisso com a excelência. Ela sempre foi profundamente dedicada à nossa família e ao cuidado com os outros. O DNA do cuidado, que hoje está tão presente na minha trajetória na saúde, eu herdei dela. Também foi com ela que aprendi valores como responsabilidade, ética e fé, que até hoje são pilares da minha vida. 

Por isso, quando penso em liderança feminina, penso nessas mulheres que lideram pelo exemplo, pela força silenciosa, pela resiliência e pela capacidade de cuidar e transformar realidades. Foram elas que me mostraram, desde cedo, que é possível sonhar, construir e ocupar espaços com coragem e propósito. 

Ao longo da minha trajetória, também me inspiro em mulheres que transformam suas histórias em instrumento de incentivo para outras, mostrando que é possível crescer com propósito e contribuir para a sociedade. Eu acredito muito que o empreendedorismo não tem gênero e que, quando compartilhamos nossas experiências, ajudamos a abrir caminhos para que mais mulheres conquistem posições de liderança.

Esta reportagem faz parte da série especial Mulheres na Saúde. Ao longo do mês, o Saúde Business trará novas entrevistas com executivas que vêm influenciando decisões e redesenhando o futuro do setor. Acompanhe e faça parte dessa reflexão!