Março começa com um convite à reflexão — e à ação. No Mês da Mulher, o Saúde Business lança a série especial Mulheres na Saúde, dedicada a lideranças que influenciam decisões, moldam estratégias e impulsionam a transformação do setor.
Mais do que destacar trajetórias individuais, a proposta é ampliar o debate sobre equidade de gênero como agenda estratégica para a sustentabilidade da saúde.
Embora as mulheres representem cerca de 70% da força de trabalho em saúde no mundo, ocupam apenas 25% dos cargos de liderança — segundo a Women in Global Health Brazil. Se a lógica fosse proporcional à presença no setor, sete em cada dez posições estratégicas estariam sob comando feminino. A discrepância evidencia um desafio estrutural que ultrapassa fronteiras organizacionais.
A desigualdade de gênero na liderança reflete uma questão mais ampla da sociedade. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública — quatro mortes por dia.
Liderança feminina como resposta estrutural
Se os números expõem um cenário de desigualdade estrutural, as trajetórias de mulheres em espaços estratégicos ajudam a redesenhar essa realidade. No setor da saúde, liderar deixou de ser apenas uma função executiva: tornou-se um exercício diário de responsabilidade social. É nesse cenário que a trajetória de Nathália Nunes se destaca.

Com formação executiva pela Harvard T.H. Chan School of Public Health e mestrado em Intervenções Digitais Aplicadas à Oncologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Nathália construiu uma carreira que combina profundidade técnica, visão estratégica e capacidade de articulação.
Ao longo da carreira, transita entre saúde digital, inovação e desenvolvimento de produtos B2B, acumulando experiências no Brasil e no exterior — da docência no Instituto Butantan à liderança de áreas de expansão e consultoria.
Sua trajetória também dialoga com o ecossistema de informação e eventos do setor. Ousamos dizer, com muito orgulho, que Nathália é prata da casa! Ela já esteve nos bastidores do jornalismo especializado, como editora-chefe do próprio Saúde Business, e à frente do conteúdo e produto dos eventos Hospitalar, o Healthcare Innovation Show e o Saúde Business Fórum.
A vivência entre conteúdo, mercado e gestão permitiu uma leitura privilegiada sobre os dilemas e as oportunidades que moldam o sistema de saúde brasileiro.
Há quase um ano no comando do Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXS), a CEO defende a formação de executivos capazes de unir competência técnica e sensibilidade humana — líderes preparados para navegar em um setor cada vez mais digital, mas que continua centrado, essencialmente, em pessoas.
Saúde Business: O setor da saúde é historicamente hierarquizado. Na prática, há diferenças no acesso ao poder e na forma de liderar quando a liderança é feminina?
Nathália Nunes: A saúde sempre foi um setor curioso: majoritariamente feminino na base assistencial, mas tradicionalmente masculino nos espaços de decisão. Isso revela uma estrutura histórica — não uma coincidência.
O acesso aos cargos mais estratégicos ainda passa por redes informais, validações implícitas e trajetórias que foram, durante décadas, mais acessíveis aos homens.
A liderança em si não tem gênero. O que acontece é que mulheres, por muitas vezes terem precisado negociar espaço, desenvolvem uma capacidade muito sofisticada de leitura relacional e articulação. E isso, em um sistema tão complexo quanto o da saúde, é uma vantagem competitiva enorme.
A saúde exige coordenação, construção de consenso e visão sistêmica. Liderar não é impor, é orquestrar.
O que ainda tem gênero não é a liderança, mas o acesso a esses cargos de liderança.
SB: Quais mudanças concretas — de governança, cultura organizacional ou modelos de gestão — são indispensáveis para ampliar a presença feminina em posições estratégicas no setor da saúde?
Nathália Nunes: A ampliação da presença feminina nas posições estratégicas, infelizmente, não acontece se nada muda. Ela exige intenção institucional e desenho de governança.
Organizações que desejam evoluir precisam tornar seus processos de sucessão mais transparentes, estabelecer critérios claros para ocupação de cargos estratégicos e tratar diversidade como um elemento de maturidade organizacional — não como pauta acessória, mas como componente de competitividade e sustentabilidade.
Outro ponto importante é diferenciar capacitação de acesso real à decisão. O setor da saúde já conta com mulheres extremamente qualificadas. O desafio não está apenas na formação, mas na participação efetiva nas instâncias onde as decisões estruturais são tomadas. Sem essa exposição, a estrutura permanece inalterada.
Também considero fundamentais redes de mentoria e, principalmente, de sponsorship. No nosso setor, a ascensão ainda depende fortemente de validação institucional. Ter lideranças que patrocinem e legitimem novos nomes nas mesas estratégicas acelera mudanças de forma concreta.
Ampliar a presença feminina não é apenas criar oportunidades, mas fortalecer os mecanismos que garantem permanência, influência e protagonismo ao longo da trajetória.
SB: Quais competências são inegociáveis para quem ocupa cargos de alta liderança na saúde?
Nathália Nunes: A complexidade do setor não permite mais lideranças unidimensionais.
Hoje, é indispensável ter visão sistêmica. Quem ocupa um cargo estratégico precisa entender como operadoras, hospitais, indústria, regulação e tecnologia se conectam. A fragmentação custa caro em eficiência e em qualidade assistencial.
Também se tornou inegociável a fluência em dados e tecnologia. Não é preciso ser especialista técnico, mas é preciso compreender inteligência artificial, interoperabilidade, transformação digital e seus impactos no modelo de cuidado e de financiamento.
Outro ponto crítico é a capacidade de decidir sob incertezas, considerando a densidade do ambiente regulatório, a pressão de margens e as transições demográficas e epidemiológicas profundas que o sistema enfrenta.
Liderar na saúde hoje exige coragem técnica e responsabilidade social.
SB: Quais transformações estruturais serão determinantes para a sustentabilidade e eficiência do sistema de saúde nos próximos anos?
Nathália Nunes: Estamos entrando em uma década de ajustes estruturais. A transição para modelos baseados em valor não é mais opcional. Remunerar volume em vez de desfecho não sustenta o sistema no longo prazo.
A digitalização também precisará amadurecer. Não basta ter sistemas. Precisamos de interoperabilidade real, dados que conversem entre si e inteligência aplicada à jornada do paciente — especialmente nas doenças crônicas e na oncologia, onde o custo e a complexidade são maiores.
Outro ponto determinante será a profissionalização da governança. Muitas organizações ainda operam com estruturas pouco maduras de gestão de risco, qualidade e eficiência operacional. Sustentabilidade não é apenas financeira; é também clínica e institucional.
A próxima etapa do sistema brasileiro será menos sobre expansão e mais sobre integração.
SB: Você se inspira em qual liderança feminina e por quê?

Nathália Nunes: Uma liderança que me inspira é a Cristina Balestrin. Ela atua em um dos ambientes mais desafiadores da saúde: a gestão pública em larga escala. Conduzir políticas e decisões estruturantes dentro do SUS exige uma combinação rara de competência técnica, visão sistêmica e capacidade de articulação política.
O que me inspira é justamente essa capacidade de equilibrar responsabilidade social com eficiência de gestão. Liderar no setor público de saúde é complexo, com decisões que impactam milhões de pessoas.
Esse tipo de liderança, que entende sistema, opera governança e mantém foco no interesse coletivo, é fundamental para o futuro da saúde brasileira.
Esta reportagem faz parte da série especial Mulheres na Saúde. Ao longo do mês, o Saúde Business trará novas entrevistas com executivas que vêm influenciando decisões e redesenhando o futuro do setor. Acompanhe e faça parte dessa reflexão!
Esta reportagem faz parte da série especial Mulheres na Saúde. Ao longo do mês, o Saúde Business trará novas entrevistas com executivas que vêm influenciando decisões e redesenhando o futuro do setor. Acompanhe e faça parte dessa reflexão!