Um levantamento revela que a enfermagem está entre as profissões com maior número de afastamentos por saúde mental. De acordo com dados do INSS, divulgados pelo G1, mais de 70 mil licenças foram solicitadas por profissionais de enfermagem entre 2012 e 2024. Atuando na linha de frente do atendimento, esses trabalhadores enfrentam desafios como pressão constante, jornadas exaustivas e uma elevada carga emocional.
Em 2025, o Brasil teve recorde histórico de mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, um aumento de 15% em relação a 2024. Segundo especialistas, estes episódios estão relacionados a quadros de depressão e ansiedade.
Josias Ribeiro, coordenador da Câmaras Técnicas do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), alerta que o número real é muito maior. “A previdência social registra somente afastamentos a partir de quinze dias. Os afastamentos menores não entram nessa contabilização. Não estão incluídos, também, os profissionais que são MEI ou estatuários, do estado ou munícipio, que têm previdência própria. Vemos com bastante preocupação esse número alarmante de afastamento de profissionais de Enfermagem por razões de Saúde Mental”.
Influência na produtividade
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade. Como resultado, há uma perda de quase um 1 trilhão de dólares em produtividade global.
Esse cenário gera também o aumento do absenteísmo – faltas – e do presenteísmo – quando o trabalhador esta presente, mas com capacidade reduzida devido a estresse, exaustão ou problemas de saúde mental.
Legislação
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), prevista para entrar em vigor em maio de 2026, é marco importante. Essa mudança traz um foco significativo na gestão de riscos psicossociais, como estresse crônico, ansiedade, burnout e sobrecarga emocional, que passam a ser reconhecidos oficialmente como riscos ocupacionais.
A partir da nova regra, as empresas serão obrigadas a identificar, analisar e controlar esses riscos de forma sistemática e documentada, integrando-os ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e ao Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). Além disso, a norma reforça a necessidade de ações preventivas e de um ambiente de trabalho mais saudável, com ênfase no bem-estar mental e emocional dos trabalhadores.
Para a professora Dorisdaia Humerez, doutora em Enfermagem e Saúde Mental, independente da resiliência individual, os processos de trabalho têm consequências sobre a saúde mental dos empregados. “A ideologia gerencialista, que busca canalizar todo o capital mental do indivíduo para o trabalho, pode desencadear quadros agudos de estresse, ansiedade e depressão. A vigilância panóptica também mina a motivação intrínseca do indivíduo, o sentimento de coletividade”, explica.
Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental
O Cofen aprovou, na semana passada, a criação de Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental. O grupo vai reunir especialistas para subsidiar posições do conselho em políticas de saúde e fortalecer ações de apoio aos profissionais. Entre as atribuições na nova Câmara Técnica está a ampliação e reformulação do Programa Enfermagem Solidária, que passará a se chamar “Central de Atendimento e Suporte à Saúde Mental” e funcionar com agendamento, por meio da multiplataforma CofenPlay.