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Itália tem agora um Ministério de Transição Digital. E o Brasil?

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A escalada mundial rumo a Transformação Digital

Em 17 de maio de 2021 comemora-se o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação (WTISD), uma data reverenciada desde 1969 e que este ano se reverte de especial atenção devido aos inúmeros benefícios que a Sociedade da Informação aportou na Covid-19. Talvez 2020/2021 seja o maior teste de stress da cadeia mundial de Tecnologias de Informação e Comunicação. Quando se esperava um arrefecimento dos investimentos nacionais devido a tragédia econômica e epidemiológica global, EUA, China e Europa anunciaram em 2021 uma colossal cesta de recursos alocados numa inequívoca direção: transformação digital. Um bom exemplo é a Itália. Com extensão territorial equivalente ao nosso Rio Grande do Sul, a Itália teve em 2020 um PIB de 1,65 trilhão de Euros (contra 1,26 do Brasil). Com população um pouco superior a nossa Região Nordeste (61 milhões de habitantes), e em meio a uma destruidora crise viral, o país tropeçou, cambaleou, mas nos primeiros quatro meses do ano enviou um recado claro ao mundo: seremos uma das 5 maiores potências digitais da Europa. Não é pouco, visto que a Itália hoje ocupa a 25ª posição entre os 27 países europeus no índice de digitalização.

O novo primeiro-ministro, Mario Draghi, iniciou a estruturação de seu governo pelo Ministério da Inovação Tecnológica e Transição Digital, escolhendo Vittorio Colao para ser o responsável. Em vídeo, o ministro apresentou na primeira semana de maio o relatório “A Digitalização das Pequenas e Médias Empresas na Itália - Modelos de Financiamento de Projetos Digitais”, explicando o seu rumo: Eu sou um encanador digital. Meu trabalho é antes de tudo colocar os novos encanamentos italianos como você faz em uma casa quando precisa urgentemente renovar. Não sou político e estou aqui para arbitrar e estimular o jogo”. Aos 59 anos e com formação em Harvard, Colao foi por uma década CEO da gigante britânica de telefonia Vodafone. Recebeu o Ministério da Transição Digital para fazer a diferença dentro da União Europeia, pavimentando o solo digital italiano para reduzir a imensa legião de desempregados do país. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (Istat), só em março/2020 a Itália absorveu mais de um milhão de novos pobres, chegando a um índice de pobreza equivalente a 9,4% da população (contra 7,7% em 2019).

Embora com a economia em frangalhos, como a maioria dos países do ocidente, a Itália tem acento no G7, é uma das maiores potências agrícolas da Europa, sendo o maior exportador global de bens de luxo (roupas, carros, etc.). Além disso, o país é o quinto destino turístico do mundo e o terceiro da Europa. O projeto Draghi/Colao, explicitado no “Piano Nazionale di Ripresa e Resilienza”, é ambicioso: subir no ranking da digitalização alçando às primeiras posições entre o final de 2026 e ​​início de 2027. Depois de dezenas de planos de recuperação fracassados nas últimas três décadas, a Itália/2021 faz diferente e resolve começar o avanço pela transformação digital. O Governo não entra como jogador, mas como árbitro, cabendo aos operadores privados encontrar soluções competitivas para que a tecnologia digital passe a ser o eixo motor do país. Entre os desafios de Colao, está diminuir a impressionante parte da população italiana sem acesso digital (17% dos italianos entre 16 e 74 anos nunca usaram a Internet, contra 9% dos europeus).

Talvez o mais importante passo de Draghi foi orientar 27% dos recursos do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência à transição digital, direcionando cerca de 6,71 bilhões de Euros à infraestrutura digital de conectividade (banda ultra-larga) e 6,74 bilhões de Euros para inserir a Administração Pública dentro de um contexto de chave-digital. As metas do programa “Italia Digitale 2026” são de uma ousadia pouco vista nas instâncias conservadoras da política italiana: (1) difundir a identidade digital, garantindo que ela seja utilizada por 70% da população; (2) preencher a lacuna de habilidades digitais, provendo capacitação a 70% da população nas principais competências digitais; (3) trazer cerca de 75% da administração pública para o ambiente de computação em nuvem; (4) fornecer ao menos 80% dos serviços públicos essenciais em modo on-line; e (5) alcançar 100% das famílias e empresas italianas com redes de banda ultra larga.

Realizar tudo isso em menos de 5 anos é uma obra monumentalMas o report “Italia Digitale 2026” deixa claro que não se trata de algo circunstancial ou oportunista: “a transformação digital não deve ser entendida como um projeto pontual: trata-se de um processo contínuo em que as competências e as tecnologias sempre evoluirão. Os maiores desafios à transformação digital não são tecnológicos, regulatórios ou legais, mas são especificamente culturais e operacionais”. Bingo!  Draghi, que assumiu o governo a menos de 4 meses, mira, na realidade, o 5G. Seu plano 'Itália a 1 Giga' deve levar banda ultra larga a todas as residências, escolas e instalações de saúde em todas as regiões do país. “O primeiro princípio que seguiremos será o da rapidez, o segundo da neutralidade tecnológica, onde deveremos usar 5G e fibra, e o terceiro será o de manter a concorrência, garantindo que não sejam criadas posições dominantes”, explicou Colau.

O projeto italiano é amparado pela Comissão Europeia, que em 11 de março de 2021 apresentou sua visão, seus objetivos e os caminhos para a transformação digital da Europa até 2030. Os principais eixos não são menos ousados que os italianos: (1) até 2030, pelo menos 80% de todos os adultos moradores da Comunidade Europeia deverão ter competências digitais básicas, com 20 milhões de especialistas em ferramentas digitais (em 2019, havia menos de 8 milhões de especialistas na Europa); (2) em 2030, todos os lares da UE devem ter conectividade gigabit e todas as áreas povoadas devem ser cobertas por 5G (a Europa já deverá ter o seu primeiro computador quântico em 2030); (3) até 2030, três em cada quatro empresas deverão utilizar serviços de computação em nuvembig data e Inteligência Artificial, com mais de 90% das PMES (Pequenas e Médias Empresas) tendo nível básico de ‘densidade digital’; e (4) em 2030, todos os principais ‘serviços públicos devem estar disponíveis on-line’, viabilizando acesso digital a todos os cidadãos, inclusive acesso total aos seus registros médicos eletrônicos.

O programa europeu envolve mais de 8 bilhões de Euros, sendo a resposta da União Europeia ao presidente Biden, que também abriu as comportas para despejar quase um trilhão de dólares de investimentos na economia digital. Ambos vão disputar com a China, que possui um dos ecossistemas digitais mais sofisticados do mundo (segundo o IDC, só as empresas chinesas estão investindo US$ 1 trilhão até 2024 em transformação digital). A Itália é um exemplo de como o mundo será muito mais competitivo no pós-pandemia, ou mesmo quando o surto apresentar sinais reducionistas. O desafio brasileiro é colossal. Nossos programas de transformação digital foram agora adicionados no portal “Planos de Transformação Digital por Área”, mas quando navegamos por eles percebemos que são ações isoladas, sem uma gestão única, deslocadas no tempo (cada um com cronograma independente), sem metas claras e sem uma “placa” de investimentos alocados. Estão espalhados nas salas empoeiradas do Congresso, ou nos debates fechados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, ou nas Universidades, não alcançando as “ruas”. Gozam de baixa credibilidade junto a boa parte da iniciativa privada, sendo morosos e claudicantes num país com mais de 5 mil municípios.

Não é que o Brasil esteja fazendo as coisas erradas, mas tudo é feito de modo tímido, isolado e muitas vezes de forma lúdica (começa, mas nunca termina). Talvez nas áreas que gravitam ao redor da Saúde estejam algumas das melhores esperanças de transformação digital, obviamente pressionadas pela Covid-19. O SUS pode emergir desse caldeirão de dificuldades e dar um grande salto, passando a utilizar o número do CPF para acesso a sua base de dados, fazendo dele o index da estrutura de convergência e gestão dos dados nacionais de Saúde. Até onde se sabe, essa orientação está em fase final de implementação, fazendo com que em menos de um ano toda a cadeia pública de saúde tenha que vincular a “jornada do paciente” (sejam quais forem os dados que lá estiverem armazenados) por meio do CPF. Parece pouco, mas não é. Trata-se de um extraordinário avanço que por muitos anos represou a continuidade do ‘registro médico digital e público do paciente’. Se a implantação realmente ocorrer, nota 100 à diretoria de informática do SUS. Infelizmente vivemos dessas ilhas de excelência, que ‘banham’ o país aqui e ali com inovações na esfera pública. O Brasil é assim mesmo: não vê o geral, o macro, o contexto completo, e espera sempre que agentes públicos notáveis, espalhados por sua máquina administrativa, façam a diferença. Muitas vezes eles fazem, mas é pífio pensar que seremos competitivos com ações isoladas e heroicas. A Itália pode estar mostrando o prumo ao Brasil. Pode ser que nada dê certo por lá, mas ela está cultivando a única saída no Século XXI para as nações livres: transformação digital.

 

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator HIMSS Hospitalar

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

TAG: Hospitalar
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