Em qualquer análise estratégica do sistema de saúde brasileiro, deparamo-nos com um dilema persistente: a crescente pressão por acesso e qualidade contra a realidade de recursos finitos e custos ascendentes. Navegamos em um oceano de complexidades, buscando vetores de transformação que possam, simultaneamente, otimizar a jornada do paciente, gerar valor para o sistema e garantir a sustentabilidade de longo prazo. No entanto, uma das mais poderosas alavancas para alcançar esses objetivos permanece subutilizada, quase como uma fronteira ignorada: a cirurgia ambulatorial.

Enquanto nações como os Estados Unidos projetam que até 85% de seus procedimentos cirúrgicos eletivos, de praticamente todas as especialidades cirúrgicas, serão realizados em regime ambulatorial até 2028, a realidade brasileira ainda patina entre 20% e 30%. Essa disparidade não representa apenas uma diferença estatística, ela aponta para uma monumental perda de eficiência e uma oportunidade estratégica desperdiçada. A chamada “regra dos 80%” não deve ser vista como um número inatingível, mas como um benchmark internacional que nos obriga a questionar o status quo

Por que o Brasil, com seus desafios continentais de acesso e financiamento, ainda hesita em adotar em larga escala um modelo cirúrgico comprovadamente mais seguro, eficiente e qualitativo para a maioria dos procedimentos eletivos?

A resposta para essa hesitação reside, em grande parte, em mitos culturais e modelos mentais hospitalocêntricos. A transição para um sistema de saúde verdadeiramente moderno exige a desconstrução desses paradigmas, não com base em opiniões, mas em evidências robustas. A viabilidade e a superioridade da cirurgia ambulatorial para o paciente certo, no procedimento certo, estão ancoradas em três pilares indissociáveis: Segurança, Qualidade Assistencial e Custo-Efetividade.

Pilar 1: Segurança – A evidência contra o mito da insegurança

O principal entrave cultural à expansão da cirurgia ambulatorial é a percepção equivocada de que segurança é sinônimo de um ambiente hospitalar de alta complexidade. Este é um raciocínio anacrônico. A segurança em um procedimento cirúrgico não deriva do tamanho do edifício, mas da robustez dos protocolos, da competência da equipe e da adequação da infraestrutura ao procedimento realizado.

No Brasil, a prática ambulatorial é regida por um arcabouço regulatório rigoroso, estabelecido por resoluções como a nº 1.886/2008 do Conselho Federal de Medicina (CFM) e a RDC 50/2002 da ANVISA. Essas normativas definem critérios estritos para o funcionamento de unidades cirúrgicas, incluindo a obrigatoriedade de equipamentos de suporte avançado de vida e convênios com hospitais de retaguarda para eventuais transferências, garantindo um ambiente controlado e seguro.

O pilar central da segurança, no entanto, é o critério de seleção de pacientes. O modelo ambulatorial é desenhado para pacientes classificados como ASA I ou II (saudáveis ou com doença sistêmica leve e controlada), que possuem baixo risco cirúrgico e anestésico. Essa triagem rigorosa é o que mitiga a grande maioria das potenciais complicações.

Mais do que isso, a evidência científica demonstra que, para este público selecionado, o ambiente ambulatorial é, de fato, mais seguro em um aspecto crítico: a drástica redução do risco de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS). As infecções hospitalares são uma das principais causas de morbidade, mortalidade e aumento exponencial de custos no sistema. Ao retirar o paciente do ambiente hospitalar de alto fluxo e alta carga bacteriana, a cirurgia ambulatorial quebra um dos elos mais frágeis da cadeia de cuidados, resultando em desfechos clínicos objetivamente melhores e com menor taxa de complicações infecciosas.

Pilar 2: Qualidade assistencial – O foco na experiência e no desfecho clínico

O segundo pilar transcende a mera ausência de complicações e foca no conceito de valor para o paciente. Um sistema de saúde moderno deve medir seu sucesso não apenas pela sobrevida, mas pela qualidade de vida, pela rapidez na recuperação e pela satisfação do paciente com sua jornada. Nesse quesito, o modelo ambulatorial oferece vantagens inegáveis.

A recuperação no conforto do lar, com o suporte da família, tem um impacto psicologicamente positivo, diminuindo o estresse e a ansiedade associados à hospitalização. O retorno acelerado às atividades diárias e profissionais não é apenas uma conveniência, mas um indicador de qualidade de vida e um fator de redução de custos indiretos para a sociedade.

Estudos de satisfação, incluindo pesquisas realizadas no Brasil, demonstram consistentemente que os pacientes submetidos a procedimentos ambulatoriais relatam níveis de satisfação superiores aos de pacientes em regime hospitalar tradicional para cirurgias comparáveis. A percepção de um cuidado mais ágil, personalizado e humano, longe da impessoalidade de grandes instituições, fortalece a relação médico-paciente e redefine a experiência cirúrgica.

A inovação em técnicas anestésicas, com o uso de drogas de ação ultracurta e o aprimoramento de bloqueios regionais, é outro motor de qualidade. Essas técnicas permitem que o paciente tenha alta poucas horas após o procedimento, com controle eficaz da dor, mínima incidência de náuseas e vômitos, e plena capacidade de locomoção. Trata-se de ciência aplicada diretamente à melhoria do desfecho e do bem-estar do paciente.

Pilar 3: Custo-Efetividade – A lógica econômica da desospitalização

Se os pilares de segurança e qualidade já justificariam a adoção do modelo, o pilar da custo-efetividade o torna uma necessidade estratégica inadiável para a sustentabilidade do sistema de saúde. A cirurgia ambulatorial não é “mais barata” por ser de menor qualidade; ela é mais eficiente por eliminar desperdícios e custos que não agregam valor ao desfecho clínico.

A estrutura de custos de uma Unidade Cirúrgica Ambulatorial (UCA) é intrinsecamente mais enxuta. A ausência de estrutura de internação hospitalar prolongada, unidades de terapia intensiva e toda a complexa infraestrutura de um hospital geral resulta em um overhead drasticamente menor. O fluxo de pacientes é otimizado, o tempo de sala é utilizado com máxima eficiência e a ausência de pernoite elimina um dos maiores componentes do custo de uma internação.

Dados internacionais são conclusivos. Nos EUA, o sistema Medicare projeta uma economia de mais de 73 bilhões de dólares em uma década apenas pela migração de procedimentos para o ambiente ambulatorial. Análises de procedimentos específicos, como colecistectomias e artroplastias, demonstram reduções de custo que podem chegar a 60% quando comparados ao mesmo procedimento realizado em um hospital.

Para o Brasil, essa lógica é ainda mais crítica. A otimização de recursos permite que o sistema público (SUS) realize mais procedimentos com o mesmo orçamento, atacando as filas cirúrgicas que penalizam a população. Para a saúde suplementar, representa uma ferramenta poderosa de controle da sinistralidade, permitindo que as operadoras ofereçam planos mais competitivos e invistam em prevenção. Mais importante: ao migrar procedimentos de baixa e média complexidade para o ambiente ambulatorial, liberamos os leitos hospitalares de alta complexidade para os pacientes que realmente necessitam deles (pacientes oncológicos, de transplantes, politraumatizados), otimizando o sistema como um todo.

O papel estratégico da SOBRACAM e os desafios à expansão

Nenhuma transformação dessa magnitude ocorre de forma espontânea. Ela exige liderança técnica, científica e institucional. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial (SOBRACAM) tem exercido esse papel fundamental, atuando como a principal bússola para o desenvolvimento seguro e estruturado da modalidade no país. Através da promoção de congressos, da publicação de diretrizes, incluindo a Política Nacional de Cirurgia Ambulatorial e a consultoria especializada, a SOBRACAM tem sido a principal voz nacional do conhecimento técnico, direcionando a expansão da cirurgia ambulatorial não apenas como uma alternativa, mas como o padrão-ouro para procedimentos elegíveis.

Apesar das evidências e experiências de sucesso ao redor do mundo, a expansão ainda enfrenta barreiras significativas. A cultura hospitalocêntrica de médicos e pacientes, a ausência de modelos de remuneração na saúde suplementar que incentivem adequadamente a prática ambulatorial, somada ao desconhecimento da efetividade do modelo, e um arcabouço regulatório defasado, ainda criam alguns atritos, que retardam a adoção em larga escala. Superar esses desafios exige um esforço coordenado entre sociedades de especialidade, fontes pagadoras, gestores de saúde e órgãos reguladores.

A Cirurgia Ambulatorial como vetor de transformação

A “regra dos 80%” não é uma meta arbitrária; é um indicativo claro do potencial latente dentro do nosso sistema de saúde. Continuar a realizar a vasta maioria das cirurgias eletivas em hospitais de alta complexidade é um contrassenso e desperdício cumulativo  que o Brasil não pode mais se permitir. É antieconômico, frequentemente menos seguro devido ao risco infeccioso e desalinhado com as expectativas de uma população que anseia por um cuidado mais ágil e centrado em suas necessidades, além de saturar a estrutura dos hospitais gerais, impedindo o acesso de casos mais complexos. 

A cirurgia ambulatorial não é o futuro da cirurgia; é o presente que estamos tardando em abraçar. Adotá-la de forma estratégica e planejada é uma das decisões mais inteligentes que podemos tomar para enfrentar a crise de acesso e sustentabilidade que se acentua cada vez mais. É hora de cruzar essa fronteira e destravar o imenso valor que a eficiência cirúrgica pode gerar para todo o ecossistema de saúde brasileiro conhecendo e adotando o modelo cirúrgico ambulatorial.

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