“A IA na saúde é o maior experimento da história da medicina. Não sabemos para onde isso vai, porque essas ferramentas podem resolver muitos problemas de saúde e fazer isso melhor do que qualquer coisa que já tivemos antes. Me sinto moderadamente otimista. O status quo da saúde não está funcionando, e não vejo como podemos chegar a um atendimento melhor, mais seguro, mais acessível, mais conveniente, menos tendencioso e mais barato a menos que usemos ferramentas de IA de forma eficaz”, explicou Robert Wachter, professor e Chefe do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia e autor da obra “Um Salto Gigante”, publicada em fevereiro de 2026.

A sentença é forte porque não descreve apenas uma expectativa tecnológica. Ela reconhece o fracasso do arranjo atual e sugere que parte crescente da população já percebeu isso antes mesmo das cadeias tradicionais de saúde. Pesquisa publicada pela Rock Health (“The tortoise and the hare of care: Health AI insights from Rock Health’s 2025 Consumer Adoption Survey”), uma das mais importantes organizações do mundo em análises de saúde digital, mostra que o uso da IA para temas de saúde deixou de ser periférico. Resumindo: 64% dos usuários de IA se envolvem com ela para perguntas de saúde semanalmente ou com mais frequência. Segundo o estudo, houve maior acompanhamento em todas as modalidades de cuidado por parte daqueles que utilizam IA, tanto virtual quanto presencialmente. Em comparação com não-usuários, eles tinham mais probabilidade de relatar rastreamento de pelo menos uma métrica de saúde e bem-estar. Assim, usuários de IA acompanham mais os “indicadores de estilo de vida modificáveis”, como sono (43% usuários de IA vs. 28% não-usuários), atividade física (41% vs. 32%), dieta (40% vs. 28%) e estresse (35% vs. 22%). Quem não usa IA tende a focar em métricas mais tradicionais, como medicamentos e pressão arterial.

Se isso não mostrar a morosidade das Cadeias de Saúde em utilizar plataformas de inteligência artificial, mostra ao menos o distanciamento crescente em relação ao seu público consumidor. Não se trata mais de curiosidade digital. Trata-se de uso recorrente e da tentativa prática de incorporar o chatbot no apoio cotidiano a sintomas e condutas. O consumidor, certo ou errado, já escolheu seu rol de ferramentas.

Por qualquer lado que venha o acompanhamento das tendências, um dos lados, talvez o mais fraco, o paciente, já decidiu experimentar. A pesquisa “2026 US Health Care Outlook”, da Deloitte, afirma que em 2025 mais de 90% das pessoas que fizeram uma consulta de saúde virtual estariam dispostas a fazer outra. Por outro lado, somente 49% das empresas do setor de saúde nos Estados Unidos estão experimentando IAs. A McKinsey, em sua pesquisa “2025 Consumer Health Insights Survey”, revela que consumidores que se envolvem com ferramentas de saúde habilitadas por IA se declaram mais satisfeitos com o setor de saúde do que os não-usuários.

Na mesma direção, o estudoArtificial intelligence in primary care: innovation at a crossroads”, publicado em dezembro de 2025 pela The Lancet, assinala em suas conclusões que “a necessidade global de transformação da atenção primária e o recente salto tecnológico em IA anunciam uma oportunidade para reinventar a prestação de cuidados”, e termina afirmando que, “em meio ao crescente peso global das doenças não transmissíveis, utilizar a IA para aprimorar abordagens preventivas, equitativas e escaláveis na comunidade pode acelerar a transformação rumo a um atendimento primário sustentável e de alta qualidade”.

Embora existam forças a favor e contra as IAs, o que mais estimula a contrariedade é a velocidade das transformações ungidas pelas GenAIs. Nesse caso, todos têm razão, mas pouco ou nada se pode fazer. O capitalismo e a tecnologia sempre impuseram a velocidade às explosões transversais de produtividade. É lastimável, mas é inexorável. Somos reféns do “pé no acelerador” das camadas investidoras. Na perspectiva dos mais frágeis do capitalismo, os usuários, os dados, a precariedade e a lentidão dos sistemas de saúde ajudam a explicar o colossal volume de consumidores de IA para saúde.

As forças contrárias ao uso da IA também mostram as garras. O estudoArtificial intelligence in medicine: a scoping review of the risk of deskilling and loss of expertise among physicians” conclui o trabalho com esta pérola: “Embora em número limitado, estudos empíricos demonstram consistentemente que a IA pode, inadvertidamente, prejudicar o desempenho dos médicos ou reduzir as oportunidades de manutenção de habilidades. Evidências quantitativas de diminuição da precisão diagnóstica, propagação de erros e erosão do treinamento ressaltam a necessidade de monitoramento longitudinal, currículos adaptativos e marcos regulatórios para mitigar a perda de habilidades. A salvaguarda da expertise clínica deve ser considerada um componente central na segurança e resiliência da IA na medicina”. Temores reais. Ou risco de redução no capital social?

Embora seja absolutamente necessário esse volume de estudos, pesquisas e papers pró e contra, é preciso separar quem defende a acurácia médica daqueles que simplesmente defendem a preservação do capital social no campo clínico-assistencial. Pierre Bourdieu (1930-2002), talvez o mais importante sociólogo francês do século XX, que cunhou a expressão “capital social”, escreveu: “o capital social é como uma propriedade do indivíduo, e não do coletivo, derivado principalmente da posição e do status social de cada um. Ele permite que uma pessoa exerça poder sobre o grupo ou indivíduo que mobiliza os recursos”.

Por outro lado, Jürgen Habermas (1929–2026), um dos filósofos e sociólogos mais influentes do século XX, que nos deixou em 14 de março último, aos 96 anos, mostrou que as sociedades modernas adoecem quando as esferas sistêmicas e estratégicas passam a colonizar o mundo da vida. Para ele, “quando um campo profissional deixa de discutir pelo valor do melhor argumento e passa a reagir para preservar posição, status e controle, a comunicação se deforma”. Bourdieu nos ensina a suspeitar que parte da resistência à IA protege posições; Habermas nos permite exigir que essa resistência se submeta à força do melhor argumento.

Finalmente, o estudo “2025 Consumer Engagement in Health Care Survey”, publicado este ano pela Employee Benefit Research Institute (EBRI), realizado com 2.001 norte-americanos de 21 a 64 anos, todos com seguro de saúde privado, mostra que “quase metade desses adultos diz confiar em ferramentas de IA para decisões de saúde tanto quanto, ou mais, do que em seu próprio profissional de saúde”. Segundo o estudo, 64% concordam que a tecnologia de saúde inteligente facilitou o acesso ao cuidado; e 61% dizem confiar na segurança dos dados coletados por essas tecnologias. Os profissionais médicos continuam sendo a fonte mais confiável no agregado, mas a IA já entrou no modo como muitos consumidores abordam suas decisões em saúde. O documento revela que “o uso das IAs pelos consumidores não é só uma curiosidade lateral, mas um deslocamento de confiança”. Embora o recorte da pesquisa não seja tão expressivo, é mais explosivo: toca no coração da autoridade clínica e no discernimento leigo.

Independentemente dos exageros ou discrepâncias dos relatórios, é certo que pessoas têm dor, doenças, sintomas, convalescença, perdem dias de trabalho pelo desconforto, perdem a paciência nas filas de espera e por aí vai… Tudo isso conta na devoção ao chatbot. Ou seja, não é sem motivo que sai a lógica da orientação genérica e entra a lógica da orientação circunstancial, ajustada ao corpo e seus tormentos, que é derivada do contexto de cada indivíduo.

Trocar a medicina tradicional pela opinião das IAs é uma fantasia kamikaze travestida de modernidade. Embora esteja ancorada em fatos e tendências, o consumidor erra em se ‘ilhar no artificial’, justificando que o sistema não o atende. Confunde velocidade com prudência, conveniência com competência e resposta plausível com juízo clínico. A IA pode organizar informações, sugerir hipóteses, comparar sintomas e até reduzir zonas de ignorância, mas não carrega, por si só, a responsabilidade moral, diagnóstica e terapêutica que sustenta a prática médica. Quando o paciente passa a tratar a resposta algorítmica como substituta da escuta clínica, do exame físico e da anamnese qualificada, ele não está se emancipando. Está apenas migrando da autoridade imperfeita da medicina para a sedução opaca de sistemas que erram sem sofrer consequências.

Talvez, no fundo, fontes pagadoras, empregadores e até o próprio Estado sorriam discretamente, uma alegria reservada, diante dessa nova disposição do consumidor em utilizar cognição artificial em seu autocuidado. Afinal, cada fração de cuidado deslocada para as IAs parece aliviar a pressão sobre suas estruturas saturadas. Mas, como civilização, é preciso alguma cautela: o que se vende como emancipação pode ser apenas abandono assistido por algoritmo.

Guilherme S. Hummel
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)