O Brasil vive uma crise de saúde mental que tem impactado diretamente trabalhadores e empresas. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2024, foram registrados quase meio milhão de afastamentos por questões relacionadas à saúde mental, o maior número dos últimos dez anos. Para enfrentar esse cenário preocupante, um novo curso voltado à Saúde Mental do Trabalhador foi desenvolvido com o objetivo de qualificar profissionais e estudantes para enfrentar esse desafio de forma crítica, preventiva e integrada.

Criado pelo Observatório Nacional de Saúde Mental e Trabalho, o curso é gratuito e on line e tem como objetivo central formar profissionais das áreas da saúde, do trabalho e da gestão pública para reconhecer, analisar e intervir nas dinâmicas que afetam a saúde mental no contexto laboral, promovendo ambientes mais saudáveis e práticas institucionais voltadas à prevenção, à vigilância e ao cuidado psicossocial.

A proposta dialoga diretamente com a realidade vivenciada nos serviços e territórios, buscando fortalecer a atuação das redes de atenção psicossocial (Raps), da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (Renast) e dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest).

A iniciativa nasceu como uma resposta estratégica da crescente incidência de adoecimentos mentais associados ao trabalho, fenômeno agravado por vínculos laborais fragilizados, metas excessivas, assédio e pela ausência de políticas institucionais consistentes de cuidado.

Para Simone Oliveira, coordenadora da nova formação pesquisadora do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), o acirramento da competitividade, o isolamento e o individualismo cada vez mais intenso precisam ser encarados pela gestão com acolhimento e escuta.

“Apostamos que o processo reflexivo, aliado a espaços de fala, afirmem que os problemas de saúde mental no trabalho são consequência da organização do trabalho, dos modelos de avaliação ancorados apenas em metas, sem valorização dos investimentos subjetivos dos trabalhadores e trabalhadoras para darem conta das tarefas. Nossa expectativa é que o curso contribua com os processos de transformação da realidade do trabalho, coletivamente, e escape da descrição que individualiza e culpabiliza o trabalhador e a trabalhadora pelo atual quadro de aumento do adoecimento em saúde mental, fruto da organização do trabalho”, explica Simone.

A partir da composição do Observatório de Saúde Mental e Trabalho, a realização deste curso surge do encontro de pesquisadores de diferentes instituições universitárias e profissionais da RENAST (Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador) – estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, criada para organizar e implementar ações de promoção, prevenção, vigilância e assistência à saúde relacionadas ao trabalho, visando um cuidado integral aos trabalhadores, através de uma rede de serviços que inclui os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). 

Estruturado em quatro módulos e com carga horária de 20h, o curso aborda desde os fundamentos da relação entre saúde mental e trabalho até estratégias práticas de intervenção.

Inserido nas áreas temáticas de Saúde do Trabalhador, Saúde Mental, Saúde Coletiva, Vigilância em Saúde, Educação e Trabalho e Políticas Públicas, o curso se apresenta como uma iniciativa relevante para profissionais e gestores comprometidos com a construção de práticas institucionais mais humanas, protetivas e sustentáveis, como uma questão coletiva e de saúde pública.

Conheça a estrutura da nova formação:

Módulo 1 – Introdução ao Curso de Saúde Mental no Trabalho

Aborda a definição de saúde mental no trabalho, discutindo o impacto das condições laborais no equilíbrio psíquico e a profunda relação entre o exercício da profissão e a construção da identidade do indivíduo.

Módulo 2 – Dinâmicas de Trabalho e Impacto na Saúde Mental

Examina como a precarização das relações laborais afeta a saúde mental, detalhando as diversas formas de violência no ambiente de trabalho e suas consequências graves, como o desenvolvimento de estresse pós-traumático e depressão no contexto ocupacional.

Módulo 3 – Identificação e Manejo de Transtornos Mentais no Trabalho

Demonstra a importância da identificação precoce de transtornos mentais no trabalho, apresentando estratégias práticas de manejo para casos de depressão e TEPT, além de destacar o papel essencial das redes de suporte e do apoio institucional na recuperação do trabalhador.

Módulo 4 – Estratégias de Prevenção e Promoção da Saúde Mental

Apresenta as principais políticas de prevenção de transtornos mentais e exemplos de intervenções eficazes, visando promover práticas laborais que protejam e fortaleçam a saúde mental nas instituições.