Entrou em vigor, a partir de janeiro, os padrões do novo capítulo “Impacto na Saúde Global (GHI)”, incorporado à 8ª edição do Manual para Acreditação de Hospitais da Joint Commission International (JCI).
A novidade reflete uma mudança estrutural no modelo de avaliação: sustentabilidade ambiental e resiliência climática passam a ser tratadas como temas estratégicos, com impacto direto na segurança do paciente, na governança e na continuidade assistencial.
“O aumento dos eventos climáticos extremos levou a JCI a reconhecer que o aquecimento global afeta diretamente as instituições de saúde. Isso exige que os hospitais adotem práticas para reduzir emissões de gases de efeito estufa e incorporem a sustentabilidade à operação e à governança”, explica Heleno Costa Junior, superintendente do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), representante exclusivo da JCI no Brasil.
O capítulo GHI abrange desde qualidade do ar, gestão de resíduos e segurança da informação em cenários de falta de energia até planos de evacuação de pacientes em emergências, segundo o executivo.
Além do GHI, o manual também passou a contar com um novo capítulo dedicado à Tecnologia em Saúde (HCT), ampliando o olhar da acreditação para temas como digitalização, uso de dados e novas tecnologias assistenciais.
“O Hcor foi o primeiro hospital no Brasil avaliado pela JCI considerando os padrões de GHI e HCT. Embora esses capítulos ainda não tenham pontuado para a reacreditação, o desempenho foi bastante consistente, especialmente em sustentabilidade”, destaca Heleno.
Liderança como eixo central da qualidade
Para Vera Lucia Borrasca, gerente executiva de Qualidade e Segurança do Hcor, o novo manual reforça uma visão mais integrada da acreditação.
“Há uma lógica clara de programa de qualidade e segurança que precisa permear toda a instituição. Não é mais algo restrito à área de Qualidade”, afirma. O processo contribuiu para fortalecer a atuação das lideranças e das áreas operacionais, de acordo com a gerente executiva.
“O manual empoderou gestores e equipes, ampliando a responsabilidade pelo eixo de qualidade e segurança”, pontuou
Vera também destaca o papel do CBA no processo de adaptação ao novo modelo, especialmente no contexto pós-pandemia. “A consultoria foi fundamental para a retomada dos processos, com treinamentos, visitas de simulação e suporte contínuo para interpretação dos novos padrões”, ressalta.
Gestão estruturada e monitoramento contínuo
A estratégia incluiu reuniões mensais para acompanhamento dos padrões, ações de engajamento da alta liderança e do corpo clínico, oficinas de capacitação em liderança para qualidade e segurança, além de auditorias focadas em áreas assistenciais, prontuários, contratos e processos administrativos, segundo Daniella Krokoscz, especialista da área de Qualidade do Hcor.
“O monitoramento diário é essencial para manter a conformidade”, afirma. No campo da sustentabilidade e da segurança da informação, foram designados responsáveis específicos para reestruturar políticas, monitorar tecnologias e garantir aderência aos requisitos da JCI.
Em parceria com o Hcor Academy, o hospital promoveu eventos e capacitações em sustentabilidade, inteligência da informação e práticas assistenciais, disponibilizados em plataforma EAD para ampliar o alcance entre as equipes.
Energia, dados e cadeia de fornecedores
No capítulo de sustentabilidade, o Hcor já avançava com iniciativas como usina própria de energia elétrica e contratos estratégicos de abastecimento de água, que passaram a ser gerenciados à luz dos novos padrões. Em segurança da informação, o hospital revisou suas políticas, estruturou diretrizes para telessaúde, monitorou o uso de inteligência artificial e realizou simulados de indisponibilidade de sistemas.
“A privacidade de dados está integrada a um escritório de proteção de dados (DPO) e a um comitê de privacidade. Um dos maiores desafios foi a capacitação em larga escala e o mapeamento de fornecedores para garantir práticas sustentáveis, ampliando o impacto positivo do hospital também na comunidade”, analisa a especialista.
Nova lógica de avaliação: conforme ou não conforme
Outra mudança relevante trazida pela JCI está no modelo de avaliação. A categoria “parcialmente conforme” foi eliminada. “Agora, o resultado é binário: conforme ou não conforme. Para ser acreditada, a instituição precisa atender a pelo menos 90% dos padrões do manual”, explica Heleno. Para Vera, a mudança teve efeito positivo: “Foi altamente motivadora. A acreditação segue sendo um forte impulsionador de melhoria contínua”.
Resultados que vão além da certificação
Entre os desdobramentos do processo, Vera destaca o fortalecimento do Escritório de Experiência Humana, com foco também na experiência do colaborador. “O novo manual reforça a valorização da força de trabalho como parte essencial do cuidado”, afirmou.
Outro avanço foi a publicação do Mapa de Valor, construído a partir de linhas de cuidado e protocolos clínicos, com indicadores validados pela CBA.
“O material reúne resultados assistenciais, indicadores de desempenho e histórias que traduzem o impacto humano do cuidado. Produzimos duas versões — uma para gestores e profissionais de saúde e outra para pacientes e familiares — reforçando nosso compromisso com transparência e qualidade”, disse.
Segundo Vera, o resultado é fruto de uma metodologia interna rigorosa, com metas claras por capítulo, monitoramento contínuo e envolvimento da liderança em todos os níveis. “Esse modelo fez diferença na evolução da instituição e culminou na reacreditação do Hcor no ano passado. Nossa primeira acreditação JCI foi em 2006, e seguimos avançando”, concluiu.