O avanço tecnológico no tratamento do câncer, com inovações como imunoterapias, terapias-alvo e cirurgia robótica, tem melhorado significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Contudo, esses avanços trazem o desafio de ampliar o acesso à inovação sem comprometer a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde.

Para enfrentar esse desafio, é essencial adotar modelos de pagamento baseados em valor, promover transparência nos dados e planejar a capacidade regional, garantindo que os benefícios da tecnologia sejam acessíveis de forma equilibrada e sustentável.

Para Gustavo Guimarães, coordenador de Cirurgia Oncológica da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, a resposta passa por uma mudança estrutural na forma como o cuidado oncológico é organizado, financiado e avaliado.

“O câncer deixou de ser uma doença aguda para se tornar, em muitos casos, uma condição crônica de alto custo. Ao mesmo tempo, incorporamos tecnologias cada vez mais sofisticadas, muitas delas com ganhos clínicos significativos. Se o modelo de cuidado não mudar, o risco é perdermos acesso, equidade e qualidade no médio prazo”, afirma.

Nesse contexto, o envelhecimento populacional surge como um dos principais desafios em debate. Para alcançar o equilíbrio necessário e garantir a sustentabilidade do cuidado, é essencial considerar três pilares fundamentais: econômico, social e ambiental.

“Estamos diante de um sistema desenhado para menos pacientes, menos tecnologia e menos tempo de tratamento. A oncologia do século XXI exige seleção mais precisa de quem tratar, avaliação rigorosa do valor clínico, integração do cuidado e novos modelos de financiamento”, explica Guimarães.

Recursos tecnológicos geram custos

A incorporação de tecnologias como imunoterapia, terapias-alvo e cirurgia robótica pode melhorar os desfechos e acelerar a recuperação dos pacientes, desde que usada de forma criteriosa. “Essas inovações aumentam o custo direto do tratamento, mas podem reduzir complicações, o tempo de internação e o retrabalho. O equilíbrio depende de selecionar bem os pacientes, integrar a jornada de cuidado e operar em centros de alto volume e com experiência”, destaca.

No caso da cirurgia robótica, por exemplo, estudos mostram menor perda sanguínea, menos complicações e alta hospitalar mais rápida em diversos tipos de câncer. Porém, o alto custo do equipamento só se justifica quando há volume, padronização e governança clínica. “Não faz sentido um robô por hospital. O modelo sustentável é ter centros de referência, com equipes treinadas, metas de qualidade e uso intensivo da tecnologia”, afirma.

Um dos maiores desafios à sustentabilidade dos sistemas de saúde é o modelo de financiamento baseado no volume, conhecido como “fee-for-service”. Esse formato remunera procedimentos realizados, sem considerar os desfechos clínicos ou os impactos na qualidade de vida dos pacientes. “Esse modelo incentiva a incorporação de tecnologia sem avaliar se ela realmente melhora a vida do paciente ou reduz custos no longo prazo”, explica Guimarães.

A solução, segundo Guimarães, é migrar para modelos baseados em valor, que remuneram a jornada completa do paciente, incluindo desfechos clínicos, complicações, reinternações e qualidade de vida. Pacotes por episódio de cuidado, contratos com metas de qualidade e mecanismos de compartilhamento de ganhos (gainsharing) são algumas das estratégias capazes de alinhar o interesse clínico à sustentabilidade financeira.

Outro ponto levantando pelo especialista é o uso sistemático de dados do mundo real. “Sem registros clínicos e econômicos, a tecnologia vira crença. Com dados, vira gestão”, destaca Guimarães. Ele defende a criação de registros nacionais para terapias de alto custo, como cirurgia robótica, com indicadores que incluem perfil dos pacientes, complicações, tempo de internação, custos e qualidade de vida. Essas informações são essenciais para ajustar critérios de indicação, negociar com fornecedores e atualizar políticas públicas de forma dinâmica e eficiente.

Além disso, a governança clínica, modelos de pagamento baseados em valor, transparência de dados e planejamento regional de capacidade são essenciais para desenvolver.