A chave para destravar o potencial transformador da cirurgia ambulatorial no Brasil reside em uma mudança de perspectiva: do foco exclusivo em custos para outro fator de suma importância: a valorização da experiência do paciente. Neste artigo vou traçar um paralelo entre as duas jornadas, demonstrando como o modelo ambulatorial oferece uma resposta mais humana, eficiente e alinhada às expectativas do consumidor de saúde moderno, também conhecido como paciente.

O paciente no centro do valor em saúde

O que define uma experiência de valor em saúde? Por décadas, o sistema esteve focado em desfechos clínicos e custos, tratando a jornada do paciente como um efeito colateral do processo. Contudo, uma nova consciência, impulsionada pelo “consumerismo” na saúde, reposiciona o indivíduo no centro da equação. O paciente moderno é mais informado, proativo e exigente; ele não busca apenas um tratamento, mas uma experiência respeitosa, eficiente e humana.

O The Beryl Institute, uma referência global no tema, define a experiência do paciente como “a soma de todas as interações, moldadas pela cultura de uma organização, que influenciam as percepções do paciente ao longo do continuum do cuidado”. Essa definição nos obriga a questionar: o modelo hospitalocêntrico tradicional, concebido para tratar doenças complexas e emergências, foi realmente desenhado para otimizar a jornada do paciente cirúrgico eletivo?

Para responder a essa pergunta, vamos acompanhar a jornada de dois pacientes hipotéticos, ambos necessitando de uma artroscopia de joelho, um procedimento comum e de baixa complexidade. Um seguirá o caminho tradicional do hospital geral; o outro, a via da Unidade de Cirurgia Ambulatorial (UCA).

A jornada hospitalocêntrica: uma prova de resistência

A jornada de nosso primeiro paciente começa com a burocracia. Longas esperas para agendamento, múltiplos formulários e uma sensação de impessoalidade que marcam o primeiro contato.

Dados do estudo nacional “Expectativas e Experiência do Paciente no Brasil” (2024), realizado pelo The Beryl Institute em parceria com a SOBREXP e a SoluCX, mostram que a capacidade de agendar um procedimento em tempo razoável é “extremamente importante” para 63% dos usuários da rede privada, enquanto a percepção sobre o tempo de espera para ser atendido atinge o mesmo nível de importância para 56,4%.

Na véspera da cirurgia, a internação. O ambiente hospitalar, por sua natureza, é um ecossistema de alta complexidade, projetado para o doente grave. Para um paciente eletivo, isso se traduz em um ambiente ruidoso, estranho e gerador de ansiedade.

Estudos variados demonstram que entre 25% e 80% dos pacientes experimentam ansiedade pré-operatória, um fator que pode levar a desfechos clínicos piores, como maior necessidade de analgésicos e recuperação mais lenta. A hospitalização, por si só, exacerba sentimentos de estresse e depressão.

Além do impacto psicológico, há o risco físico. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estima que a taxa de infecções hospitalares no Brasil seja de 14%. As Infecções de Sítio Cirúrgico (ISC) representam cerca de 17% de todas as infecções adquiridas em hospitais nos EUA, com um custo anual bilionário. Embora o risco seja gerenciado, a simples exposição a um ambiente com alta carga de patógenos é uma fonte de preocupação legítima para o paciente e sua família.

A recuperação pós-cirúrgica ocorre em um quarto de hospital, longe do conforto e da familiaridade do lar. O sono é interrompido, a alimentação é padronizada e a presença da família é limitada. Essa impessoalidade e a quebra da rotina podem, em casos mais extremos, contribuir para quadros de delirium pós-operatório, um efeito adverso que prolonga a internação e piora os desfechos.

A jornada na UCA: uma experiência de cuidado

Nosso segundo paciente opta por uma UCA. A diferença é sentida desde o início. O agendamento é ágil, muitas vezes digital. O ambiente é projetado para ser acolhedor, silencioso e focado no bem-estar, não na doença. A equipe é especializada e dedicada exclusivamente a procedimentos eletivos, o que se traduz em processos otimizados e um atendimento mais personalizado.

Essa abordagem centrada no paciente tem um impacto direto na ansiedade pré-operatória. Uma intervenção empática e focada no indivíduo pode reduzir significativamente a ansiedade, melhorar a cicatrização e aumentar a satisfação geral. O paciente não é mais um número em um leito, ele é o protagonista de seu cuidado.

As UCAs são o ambiente ideal para a aplicação de protocolos de recuperação acelerada, como o Enhanced Recovery After Surgery (ERAS). Esses protocolos, baseados em evidências, otimizam cada etapa da jornada. Da nutrição pré-operatória ao manejo da dor, com o objetivo de minimizar o estresse fisiológico da cirurgia. Os resultados são notáveis: menor dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor uso de opioides e, consequentemente, maior satisfação do paciente.

O ponto alto da jornada na UCA é a alta no mesmo dia. A recuperação acontece no conforto e na segurança do lar, ao lado da família. Estudos demonstram que a recuperação domiciliar está associada a desfechos melhores, menor estresse e maior qualidade de vida percebida.

O risco de infecção também é drasticamente reduzido. Enquanto a taxa de ISC em hospitais é uma preocupação constante, estudos em UCAs mostram taxas que variam de 0% a 3,2%, com algumas análises apontando para números tão baixos quanto 4,84 por 1.000 pacientes, contra 8,95 em hospitais tradicionais.

O veredito: satisfação, valor e o caminho adiante

A diferença entre as duas jornadas se reflete diretamente nos índices de satisfação. Um ensaio clínico randomizado comparando pacientes de reconstrução de ligamento cruzado anterior (LCA) em regime de internação versus ambulatorial revelou um score de satisfação geral significativamente maior para o grupo ambulatorial (85,1 vs. 78,2).

A tendência se repete em diversas especialidades, com pacientes de UCAs consistentemente reportando maiores níveis de satisfação com a comunicação, o manejo da dor e a experiência geral.19

O contraste entre as duas jornadas deixa claro que a Unidade de Cirurgia Ambulatorial não é apenas uma mudança de local, mas uma reengenharia completa da experiência do paciente cirúrgico. Ela substitui a impessoalidade, a burocracia e os riscos inerentes ao ambiente hospitalocêntrico por um modelo ágil, acolhedor e focado no indivíduo, alinhado às expectativas do consumidor de saúde do século XXI.

Para operadoras de saúde, investir na rede de UCAs significa não apenas controlar custos, mas também oferecer um produto de maior valor agregado, que gera fidelidade e satisfação. Para os pacientes, significa transformar uma experiência potencialmente traumática em uma jornada de cuidado mais humana, segura e eficiente.

Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial (SOBRACAM) exerce um papel fundamental como catalisadora dessa transformação. Ao promover as melhores práticas, fomentar a troca de experiências entre seus associados e conectar a comunidade brasileira à rede internacional — por meio da International Association for Ambulatory Surgery (IAAS) —, a SOBRACAM cria um ambiente colaborativo que acelera a adoção do modelo ambulatorial em todo o país.

A expansão desse modelo no Brasil é um caminho sem volta, e a bússola que aponta a direção correta é, e sempre será, a experiência do paciente.