O setor de saúde suplementar e público no Brasil vive um momento de profunda reflexão e transição. Após um período de intensa dedicação à frente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial (SOBRACAM) no biênio 2024-2026, encerro este ciclo com a certeza de que plantamos sementes fundamentais para uma transformação estrutural.
Ao longo destes dois anos, testemunhamos um crescimento expressivo da Sociedade, contudo, mais do que números, o verdadeiro legado desta gestão materializa-se em um documento que serve como bússola para os próximos anos: o Manifesto pela Expansão da Cirurgia Ambulatorial no Brasil.
Vivemos um ponto de inflexão na história da saúde brasileira. As demandas crescentes de uma população que envelhece e busca mais acesso, qualidade e eficiência nos colocam diante de um dilema incontornável. Podemos seguir o caminho da inércia, apegados a modelos hospitalocêntricos que demonstram sinais claros de esgotamento, ou podemos abraçar a inovação e redesenhar o futuro do cuidado cirúrgico no país.
O manifesto recém-publicado é, essencialmente, um convite à segunda opção e um chamado à ação para as lideranças que hoje moldam o futuro do setor.
À primeira vista, a estrutura atual pode parecer inabalável, mas um olhar mais atento revela o custo de uma oportunidade perdida. Atualmente, a taxa de ambulatorização cirúrgica no Brasil é inferior a 30%, um número que contrasta drasticamente com o de nações onde este modelo já é consolidado, superando a marca de 80% em países como Estados Unidos, Reino Unido e Portugal1.
Essa disparidade não representa apenas uma diferença de prática médica, mas um custo de oportunidade bastante significativo para todo o ecossistema de saúde.
A literatura científica e as práticas consolidadas internacionalmente demonstram que a migração de procedimentos eletivos adequados para o regime ambulatorial pode gerar uma economia de até 60% nos custos assistenciais associados2.
Essa eficiência libera recursos financeiros e leitos de hospitais gerais para casos de maior complexidade e urgência, atacando diretamente um dos maiores gargalos do nosso sistema: as filas de espera. Pesquisas indicam que as filas são a principal fonte de insatisfação para os usuários do SUS, com 30% dos participantes relatando ter esperado mais de 12 meses por algum tipo de atendimento, agravando condições de saúde e gerando sofrimento psíquico3.
As barreiras para a adesão ao modelo ambulatorial não ocorrem por falta de evidências científicas ou de segurança, mas sim devido a fatores culturais e estruturais profundamente arraigados. A principal delas é a mentalidade que historicamente associa a complexidade e a qualidade do cuidado à permanência do paciente em um leito de internação.
Somam-se a isso os modelos de remuneração vigentes, tanto na saúde pública quanto na suplementar, que frequentemente não recompensam a eficiência e a custo-efetividade do ato cirúrgico ambulatorial, criando uma barreira econômica à sua adoção em larga escala.
É neste cenário desafiador que a visão de futuro proposta no manifesto ganha relevância estratégica. Projetamos que a cirurgia ambulatorial no Brasil cresça a uma taxa anual composta de 10%, o que resultará na duplicação da nossa capacidade e da taxa de ambulatorização ao longo dos próximos dez anos.
Alcançar essa meta significa muito mais do que uma mudança de números, representará um salto qualitativo multidimensional. Para o sistema, significa redução drástica de custos e otimização de leitos, para o paciente, uma experiência mais segura, com menor risco de infecção hospitalar e recuperação no conforto do lar e para os profissionais, a oportunidade de trabalhar em um sistema focado em valor e resultados.
Para que essa visão se torne realidade, a SOBRACAM desenvolveu uma estratégia baseada em quatro pilares fundamentais: a mudança de mentalidade e cultura, o realinhamento de incentivos, o desenvolvimento de infraestrutura e protocolos, e o engajamento e articulação de todos os atores do setor.
Nenhuma transformação dessa magnitude ocorre de forma isolada, e é por isso que a sociedade atua como a principal plataforma de integração entre gestores, cirurgiões, anestesiologistas, enfermeiros, fontes pagadoras e a indústria.
A realização desta visão depende diretamente do protagonismo das lideranças. Este não é um projeto exclusivo de uma gestão ou de uma entidade, mas uma missão para todos que acreditam em um sistema de saúde mais inteligente, eficiente e humano.
Aos cirurgiões, anestesistas e enfermeiros, o convite é para revisitar protocolos e liderar a adoção de práticas ambulatoriais. Aos gestores públicos e privados, o chamado é para redesenhar incentivos e investir em infraestrutura adequada.
Ao passar o bastão para a nova gestão, liderada pelo presidente eleito Newton Quadros, tenho a absoluta certeza de que o trabalho não apenas terá a continuidade que merece, mas será alçado a novos patamares.
O Manifesto pela Expansão da Cirurgia Ambulatorial no Brasil não é apenas um registro de convicções pessoais ou institucionais ele representa um compromisso público para potencializar uma mudança inevitável e indispensável. A hora de acelerar a adoção da cirurgia ambulatorial é agora, e o engajamento de cada profissional do setor é a chave para o sucesso dessa jornada transformadora.
Referências
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial (SOBRACAM). (2026). Manifesto pela Expansão da Cirurgia Ambulatorial no Brasil. https://sobracam.com.br/manifesto-sobracam/
- Friedlander, D. F., Krimphove, M. J., Cole, A. P., et al. (2021). Where is the value in ambulatory versus inpatient surgery? Annals of surgery, 273(5), 909-916.
- Conselho Federal de Medicina (CFM) & Datafolha. (2018). Pesquisa sobre a percepção dos brasileiros sobre a saúde pública e privada.