É comum ouvir falar de liderança como se fosse um atributo pessoal. Algo que se conquista com o tempo, com o cargo ou com o acúmulo de experiência. Mas, na prática, liderança em saúde raramente se revela no discurso. Ela aparece (ou desaparece) no momento da decisão.
E esses momentos estão acontecendo agora.
Enquanto debatemos o futuro, o sistema segue exigindo escolhas no presente: alocação de recursos escassos, priorização de projetos, integração entre áreas que falam línguas diferentes, decisões que afetam acesso, qualidade e sustentabilidade ao mesmo tempo. Em todos esses pontos, alguém precisa assumir a responsabilidade de decidir, mesmo sem garantias.
O problema não é a ausência de visões estratégicas. Elas existem. O problema é a facilidade com que a liderança é adiada. Adiada para quando o cenário estiver mais claro, quando o consenso for possível, quando a tecnologia estiver madura, quando o risco parecer menor.
Na saúde, esse momento quase nunca chega.
O sistema é estruturalmente imperfeito, pressionado e interdependente. Esperar condições ideais para liderar, nesse contexto, é uma forma sofisticada de não liderar. Ainda assim, seguimos premiando discursos bem construídos e penalizando a tomada de decisão em ambientes ambíguos.
Nos grandes encontros do setor, vemos ideias circularem com velocidade. Falamos sobre inovação, eficiência, novos modelos. Mas a liderança não se mede pela qualidade das ideias apresentadas, e sim pela disposição de transformá-las em ação, enfrentando os conflitos inevitáveis que surgem pelo caminho.
Liderar, hoje, tem menos a ver com ter respostas prontas e mais com sustentar perguntas difíceis sem paralisar o movimento. Significa decidir mesmo quando há perdas envolvidas, negociar interesses legítimos sem diluir a responsabilidade e aceitar que nem toda escolha será consensual.
Talvez o maior risco para a saúde não seja a falta de inovação, mas a normalização da espera. A crença de que o futuro se resolve sozinho, enquanto o presente acumula decisões não tomadas.
A liderança que o setor precisa não virá apenas de um novo modelo teórico nem de uma tecnologia emergente. Ela se constrói na prática cotidiana, nos espaços onde pessoas se encontram, discordam, negociam e escolhem seguir adiante apesar da incerteza.
E isso não é um tema para amanhã. É uma exigência do agora.