Em um contexto marcado por aceleradas inovações tecnológicas e avanços em inteligência artificial, a interoperabilidade desponta como um dos principais desafios para o setor de saúde. O tema ganhou destaque no Congresso de Tecnologia e Inovação para Saúde Digital (CTISD), que acontece durante a Hospitalar 2026 os dias 19 e 20 de maio.

Durante o evento, Paula Xavier, diretora do DATASUS, destacou a importância da integração de dados no Sistema Único de Saúde (SUS) e apresentou em detalhes a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde.

Ela explicou que a RNDS é uma infraestrutura nacional criada para conectar diferentes sistemas de saúde em todo o Brasil, tanto públicos quanto privados, com o objetivo de garantir mais eficiência na gestão da informação e aprimorar a qualidade dos serviços prestados à população.

“Nos últimos anos, a Rede cresceu em escopo, maturidade e relevância nacional”, afirmou Paula. Segundo ela, houve um aumento de 476,4% nos registros nos últimos dois anos, somando 4,6 bilhões de registros no sistema.

Meu SUS Digital concentra novos serviços ao cidadão

Atualmente, o aplicativo Meu SUS Digital é considerado o mais baixado da categoria saúde. A plataforma já ultrapassou 69 milhões de downloads e soma mais de 29 milhões de usuários ativos. São mais de 30 funcionalidades disponíveis, entre exames, carteiras de vacinação, agendamentos e outros serviços.

Entre os exemplos citados está a Caderneta Digital da Criança, que registrou mais de 1 milhão de acessos desde seu lançamento, em abril de 2025. Paula também destacou o SUS Digital Profissional, plataforma destinada exclusivamente aos profissionais de saúde.

Outras novidades digitais estão em desenvolvimento e devem ser lançadas em breve pelo SUS, como a caderneta “Eu Gestante”, a Caderneta Digital de Adolescentes e a Caderneta Digital da Saúde da Pessoa Idosa.

Entre os próximos lançamentos também está o SUS Digital Gestor, aplicativo direcionado aos gestores do SUS. A ferramenta tem como objetivo facilitar o acesso a dados e informações disponíveis para municípios e estados cujos sistemas e prontuários sejam do SUS ou estejam interoperáveis com a RNDS.

Integração entre público e privado entra no centro da agenda

Para que a interoperabilidade seja efetiva, é essencial garantir o compartilhamento seguro e responsável de dados entre instituições públicas e privadas, integrando diferentes atores à plataforma.

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (ABRAMED) e a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) do Ministério da Saúde firmaram um acordo estratégico para integrar dados clínicos e diagnósticos entre os setores público e privado. A iniciativa busca garantir segurança, privacidade e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), promovendo maior eficiência e transparência no uso das informações de saúde.

Paula reforçou ainda que o acordo também conta com a participação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), por meio do Núcleo de Inovação Tecnológica (InovaHC).

“Essa parceria reforça os esforços conjuntos para impulsionar a interoperabilidade e aprimorar a gestão de dados no sistema de saúde brasileiro, marcando um importante avanço na transformação digital do setor”, afirmou.

A gestora também enfatizou a importância de um sistema seguro e responsável. “O paciente deve ser o titular dos dados de saúde, enquanto o Estado, representado pelo Ministério da Saúde, atua como controlador dessas informações, assumindo o compromisso de garantir a conformidade com legislações e regulamentações, como o projeto de lei enviado à Comissão de Saúde, que busca consolidar a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)”, contextualizou Paula.

Segurança, financiamento e conectividade ainda desafiam a interoperabilidade

Entre os principais desafios apontados está a questão da propriedade e do uso das informações sensíveis. Paula ressaltou a necessidade de discutir quem detém o poder sobre os dados e como garantir a transparência e a segurança dessas informações.

Além disso, destacou a importância de utilizar a infraestrutura tecnológica já existente nos hospitais para atender às políticas públicas, aproximando o Brasil de uma realidade mais integrada e eficiente.

Outro ponto crítico é o financiamento da interoperabilidade, especialmente para pequenos e médios hospitais, que enfrentam dificuldades para arcar com os custos de segurança de dados, infraestrutura de TI e servidores.

“Apesar dos avanços, a conectividade ainda é um obstáculo em muitas regiões do país, comprometendo o acesso e a qualidade dos serviços de saúde digital”, ressaltou.