O setor de atenção domiciliar no Brasil vive um paradoxo raro e perigoso. Nunca houve tanta demanda, tanto interesse de operadoras e tanto apetite de investidores. Ao mesmo tempo, nunca foi tão concreto o risco de asfixia financeira. A combinação entre a Reforma Tributária e a possível redução da jornada de trabalho, via PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 6×1, forma uma tempestade perfeita para um segmento que cresce em volume, mas vê sua margem desaparecer.

Demanda em alta e expansão acelerada do home care

Do lado da demanda, o cenário é inequívoco. A pandemia transformou o atendimento domiciliar em hábito. Mais de dois terços dos brasileiros passaram a buscar serviços de saúde em casa, e esse comportamento se consolidou. 

Operadoras incorporaram o home care como peça estrutural da desospitalização, da gestão de crônicos e do controle de custos. O que vemos é um mercado grande, em expansão de dois dígitos, pouco consolidado e cheio de espaço para fusões, aquisições e plataformas regionais. O problema é que quase todo esse crescimento está sendo financiado pelo próprio prestador. 

O modelo econômico do home care é intensivo em pessoas, logística e coordenação. Recursos humanos concentram a maior parte dos custos, seguidos por insumos, deslocamento e tecnologia. Não existe escala fácil. Cada novo paciente exige mais profissionais, mais visitas, mais organização. Mesmo com modelos híbridos, combinando presença física e monitoramento remoto, o cuidado continua essencialmente presencial com foco na qualidade assistencial, acima de tudo. 

O impacto da Reforma Tributária e da escala de trabalho

É nesse ponto que a Reforma Tributária deixa de ser uma discussão abstrata e torna-se um risco concreto. A promessa de simplificação pode resultar em aumento da carga efetiva sobre serviços intensivos em mão de obra, justamente aqueles com menor poder de repasse. Home care não define preço livremente. 

Os contratos com as operadoras são longos, detalhistas, sujeitos a glosas e, na maioria das situações, negociados no limite. O mercado particular ainda é minoritário. Segundo o 8º Balanço do Observatório da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), os hospitais operam com glosa inicial média de cerca de 18%, prazo médio de recebimento de 78,5 dias e margem EBITDA em queda, enquanto as operadoras registram resultados financeiros recordes em 2025. 

Nesse contexto de pressão sobre o fluxo de caixa hospitalar, elos assistenciais como o home care, fundamentais para a desospitalização, continuidade do cuidado e eficiência do sistema, acabam absorvendo parte relevante dessas tensões.

Operando como um elo mais frágil da cadeia, têm menor poder de negociação, enfrentam prazos longos de pagamento e sofrem impacto direto das glosas — mesmo sendo estratégicos para reduzir a ocupação hospitalar e sustentar o equilíbrio da saúde suplementar.

Agora some-se a isso a possível aprovação da PEC 8/2025, que propõe jornada de quatro dias de trabalho e três de descanso, estabelecendo limite de 36 horas semanais e extinguindo a escala 6×1.

Em janeiro, a proposta superou a fase de aprovação na CCJ do Senado e entrou como pauta prioritária na Câmara para o primeiro semestre de 2026, com forte apelo eleitoral e pressão popular.

Para um setor baseado em turnos, visitas e cobertura assistencial contínua, isso significa uma coisa muito simples: mais pessoas para entregar o mesmo cuidado. Mais contratações, mais encargos, mais complexidade operacional. Em um mercado já marcado por escassez de profissionais qualificados, isso se traduz em aumento estrutural de custo e risco real de desorganização da operação.

O paradoxo se aprofunda porque a demanda não desacelera. Ela acelera. O envelhecimento populacional pressiona. As operadoras querem mais home care, não menos. O discurso institucional exalta cuidado centrado no paciente, eficiência sistêmica e redução de leitos hospitalares. Mas o modelo econômico que sustenta essa engrenagem está sendo comprimido.

O resultado é um setor que cresce em receita bruta, mas vê sua margem operacional encolher. Um setor onde o ticket médio diário não acompanha a inflação real de custos. Onde a produtividade vira obsessão, mas encontra limites físicos; e a tecnologia, como telemonitoramento, plataformas de gestão e logística inteligente, deixa de ser diferencial e vira tentativa de sobrevivência.

Consolidação e eficiência como questão de sobrevivência

Para investidores e executivos atentos, o alerta é claro. O risco não está na demanda. Está na estrutura. Quem não conseguir ganhar densidade geográfica, melhorar ocupação da carteira, reduzir tempo de deslocamento e elevar produtividade por equipe ficará para trás. A fragmentação, hoje dominante, não é mais uma oportunidade e sim um problema. Ao passo que a consolidação também deixa de ser tese elegante e passa a ser necessidade defensiva; em paralelo com a verticalização, especialmente em tecnologia e logística, que se torna instrumento de proteção de margem.

Há ainda um risco regulatório silencioso. Nesse caso não estamos falando apenas de normas explícitas e sim de decisões macroeconômicas que ignoram a realidade operacional do cuidado domiciliar. O home care é promovido como solução de eficiência para o sistema de saúde, porém, na prática, acaba sendo enxergado como serviço comum na lógica tributária e trabalhista. Essa incoerência cobra preço.

O setor está diante de uma bifurcação. Pode se profissionalizar, consolidar, investir pesado em dados, indicadores assistenciais e integração com operadoras. Ou pode continuar crescendo desordenadamente, com empresas subcapitalizadas, margens comprimidas e risco sistêmico de quebra, justamente quando o sistema de saúde mais depende desse modelo.

O dinheiro está na mesa. A questão que precisa ser respondida não está atrelada ao percentual de crescimento do mercado. Ela está direcionada aos números de players que terão condições de sobreviver ao crescimento. Porque, no home care brasileiro, crescer sem margem pode ser o caminho mais curto para desaparecer.

Paula Meira* é presidente da Associação Nacional das Empresas de Servicos de Atenção Domiciliar (ANEAD).