No início do século XX (anos 1900), os centros urbanos eram dominados por um mamífero perissodáctilo pertencente à família equidae, também conhecido como cavalo. Ele e seus artefatos, como carruagens, charretes e celas eram a única forma de locomoção urbana fora das pernas humanas. Sistemas de mobilidade animal (covered wagon) ocupavam todas as cidades e traziam a sua cadeia de suprimentos (rédeas, freios, ração, utensílios, veterinários, adestradores, carpinteiros, varejo de insumos, carroceiros, cocheiros, ferreiros, madeireiros, manufatura de diligências, coches, bondes, etc.). Por volta de 1901, a economia americana e a sociedade em geral ‘existia e gravitava’ em torno do cavalo, que, por sua vez, deixava nas ruas de Nova York, por exemplo, 220 mil litros de urina e 1,1 milhão de toneladas de estrume por dia. Todas as famílias nos EUA dependiam direta ou indiretamente dos equinos, sendo que qualquer deslocamento urbano só era possível com eles. Em 1903, foram vendidos no país 11 mil veículos automotivos (Ford). Carros passaram a conviver com cavalos na proporção de “um para mil”. Mas ninguém pensou muito nisso, afinal, o deslocamento era só um inconveniente. Em 1913, a mesma Ford vendeu 3 milhões de veículos, produzindo a maior ruptura transversal de mobilidade urbana do século. Em uma década, a Cadeia Urbana de Tração Animal desapareceu, levando junto milhões de trabalhadores em todo o mundo. No final da década de 1910, as cidades eram inóspitas ao pobre cavalo, que desaparecia e levava junto todo seu supply-chain (em 1890, havia 13.800 empresas nos EUA na construção de carruagens, em 1920 eram apenas 90). Ninguém foi capaz de perceber que a indústria automotiva iria tornar o equino tão somente um utility rural, desmontando mais de 18 séculos de dependência do quadrúpede.

Nos dias de hoje, essa disruptura passou a ser um fenômeno bastante comum nas cadeias produtivas, um “tema da terceira página dos jornais”. Ninguém mais se espanta. Mas em 2022, na saideira da Covid-19, vale perguntar: estamos percebendo corretamente o que está acontecendo com a Cadeia de Serviços de Saúde? Obviamente ela não vai desaparecer, mas estamos perfeitamente cientes das suas transformações nos próximos dez anos? Máquinas de inteligência artificial serão, por exemplo, os novos médicos deste século?

A Covid-19 está sequestrando alguns de nossos “cavalos”, trazendo o data-science para o orbe dos Sistemas de Saúde. Nos últimos dois anos faltaram leitos, insumos, vacinas, EPIs, médicos e até crença na Ciência, mas não faltou uma ‘vulcânica erupção’ de Inteligência Artificial ocupando imensos espaços nas cadeias sanitárias. Um “magma” de algoritmos descendo por todas as encostas formando um circuito de Machine-Learning4Healthcare, que engole resistências, atavismos para chegar a um dos núcleos da Medicina deste século: “engajamento médico-paciente-máquina.

Sabemos que não há inovação sem riscos, mas também aprendemos que não-inovar talvez enseje mais riscos ainda, como mostra, por exemplo, a “Computação em Nuvem”. Cercada de miopia no seu início, varreu os céticos, superou o modismo e hoje alavanca as relações B2B e B2C. A nuvem não está “lá fora”, está dentro da nossa vida. Não há existência digital sem ela. Nós somos a nuvem. Somos parte dela, nossa operação existe por ela, nosso negócio depende dela. Hospitais e demais players de saúde só existirão se estiverem em nuvem, porque os pacientes já estão, a conectividade já está, as demandas vêm por meio dela, o atendimento passa por ela e os Serviços de Saúde estarão tão embricados em cloud como nossas vidas estão com os smartphones, que, aliás, “domiciliam” na nuvem. O risco de não estar na nuvem reduz anualmente em 8% o poder de competitividade das empresas (na Saúde, talvez mais). Da mesma forma está ocorrendo com as “máquinas inteligentes de suporte a função médica”, um celeiro neonato de aplicações que utilizam IA, produzindo valor na área diagnóstica, terapêutica, cirúrgica, na tomada de decisão, na previsão, predição e personalização de tratamentos, nas lides epidêmicas, nos controles vacinais, na investigação científica, tecnológica, experimental e referenciada, nos cuidados paliativos, nos controles dietoterápicos, farmacológicos, no autocuidado, na automedicação, no autodiagnóstico, na medicina baseada em evidências de ehr-data e de imagens digitais, nas terapias mentais, na telemedicina operacional, no telemonitoramento dos sinais vitais, na biotecnologia, na biogenética, no acompanhamento pediátrico, geriátrico, crônico…etc. Como explica o Royal College of Physicians and Surgeons of Canada: “nenhuma área da medicina permanecerá intocada à Inteligência Artificial”.

Robôs artificialmente inteligentes poderão ser o nosso segundo médico, ou o primeiro, ou suportar aqueles que desejem a perenidade. Depende do quanto a medicina esteja disposta a coparticipar da função clínica com as máquinas robóticas ou com as instâncias de aprendizado algoritmizado. A palavra médico é um substantivo porque tem substância, ou seja, possui uma essência que subsiste por si mesmo, independentemente do todo. Da mesma forma, o adjetivo “eficiente” é um atributo que dá qualidade ao substantivo. Para o filosofo alemão Heidegger (1889-1976), a “utilidade de algo pode variar de acordo com a história. Algo é útil numa época, mas pode não ser em outra”. O pensador nos remete a ideia de que para entender o ‘ser’ é preciso analisá-lo por meio de três parâmetros, que ele denomina “experiências fundamentais”: tédio, alegria e angústia. Ou seja, é a partir de como a civilização ao longo do tempo se relaciona com essas três dimensões que podemos identificar e qualificar o ‘sentido do ser’. Quando o “médico” apareceu pela primeira vez na Grécia Antiga, esses três sentimentos eram percebidos e explicados de maneira completamente diferente do que na Idade Média, ou como no final do Século XIX. Nessa direção, as habilidades, saberes e sensibilidade social da prática médica precisa ser condicionada a cada nova temporalidade, a cada novo “acordo social”, a cada novo modelo de pulsação que rege os indivíduos daquela época. Médicos no século XXI precisam perceber que as ‘experiências fundamentais’ se modificam a cada transformação social: aquilo que é “angústia pela doença” nos dias hoje é muito diferente do que na segunda metade do século passado. No pandêmico 2022, ter “alegria com a saúde” é ter cada dia mais conhecimento e informação sobre ela, ao invés de simplesmente dispor de uma assistência médica quando necessário. Quando estamos cercados de tecnologia, conectividade, devices e nossa vida é figital (física+digital+social), o que esperamos dos médicos? Por que eles continuarão a ser uteis? Se máquinas levam o ser humano a passear no espaço sideral; aplicativos nos ajudam a estudar e personalizar cada vez mais; smartphones ampliam nosso diálogo com qualquer ser em qualquer geolocalização terrestre; máquinas automotivas prescindem de motoristas; por que médicos não podem ser auxiliados por plataformas inteligentes que reduzam o risco das decisões e aumentem nossa confiança neles? Uma criança nascida na segunda metade deste século pode nunca chegar a ver um médico em sua vida. Mas verá, se este coparticipar seu atendimento com ‘autômatos inteligentes de suporte a decisão clínica’.  

Um “médico-eficiente” não será mais independente do todo, pelo contrário, será dia a dia mais dependente das “potencias tecnológicas” que lhe darão razão de ser. O que não for colaborativo e participativo não será eficiente, será substituído. Robôs de cooperação profissional são máquinas argutas, movidas por IA, “educadas” por deep learning, codificadas por linguagem natural e neural de máquina e conectadas às boas práticas intelectivas que os humanos escolherem como as melhores. Ninguém vai substituir o médico, mas vai substituir a função médica de tomar decisões solitárias, isoladas e, muitas vezes, erradas. Erros médicos em hospitais e clínicas resultam na morte de aproximadamente 100 mil pessoas a cada ano, indica o estudo “Medical Error Reduction and Prevention”, realizado por Thomas L. Rodziewicz (Michigan State University) e outros, sendo publicado em 2022. “Um erro médico é uma das causas mais comuns de lesão ou morte nos EUA. Os profissionais de saúde trabalham arduamente para salvar inúmeras vidas; entretanto, a incidência de erro concomitante é alta. Todas as profissões de saúde devem se concentrar no esforço de ‘primeiro não causar danos’ e trabalhar para diminuir o erro humano e do sistema”, conclui o estudo. A contabilização do erro médico é pífia se comparada a insegurança do médico em não errar, o que gera inúmeros problemas ocupacionais, mentais e familiares.