Há um mercado de R$ 317 bilhões operando escondido à vista de todos, ausente do planejamento estratégico da maioria dos prestadores. O pagamento direto por serviços de saúde, o chamado particular ou “out of pocket”, consolidou-se como a segunda maior fonte de financiamento do ecossistema brasileiro: supera os cerca de R$ 309 bilhões movimentados pela saúde suplementar e fica atrás apenas dos orçamentos destinados ao SUS, na casa dos R$ 460 bilhões.
Não se trata de nicho, de exceção ou de fenômeno passageiro. Trata-se do segundo pilar financeiro da saúde nacional, crescendo cada vez mais, sem pedir licença.

Os dados estruturais confirmam a tendência. Segundo a Conta Satélite de Saúde do IBGE, o gasto das famílias com saúde saltou de 4,4% do PIB em 2010 para 5,7% em 2021, em trajetória ascendente contínua. Projeções de potencial de consumo indicam que as famílias brasileiras desembolsarão mais de R$ 537 bilhões com saúde em 2026, uma alta de 7% sobre o ano anterior.
E o dado mais impactante: aproximadamente 47% da população brasileira, cerca de 102 milhões de pessoas de baixa e média renda sem acesso à saúde suplementar, decide, todos os dias, onde e como gastar seu dinheiro em saúde.
Onde vai o dinheiro do paciente e onde está o espaço em branco?
Uma pergunta legítima diante dos R$ 317 bilhões: o que, exatamente, esse valor compra? Não existe, até aqui, uma estratificação oficial única desse montante, mas as bases públicas permitem uma radiografia consistente.
Pela Conta Satélite de Saúde do IBGE, os medicamentos responderam por 33,7% das despesas das famílias com saúde em 2021, parcela em crescimento (eram 32,5% no ano anterior), enquanto os serviços privados de saúde concentraram 63,7%, categoria que engloba desde mensalidades de planos até consultas, exames, terapias e tratamentos odontológicos pagos diretamente.
Quando se isola o desembolso direto estrito, a literatura baseada na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) é convergente: o medicamento é o maior componente do gasto do próprio bolso, com peso tanto maior quanto menor a renda da família, em recortes de baixa renda, estudos chegam a atribuir a ele a quase totalidade do desembolso. O segundo bloco é o dos serviços ambulatoriais de diagnóstico. Consultas, exames e terapias, exatamente o território que as clínicas populares ocuparam na última década.
E os procedimentos cirúrgicos? São, por inferência, a fração residual dessa conta. Provavelmente inferior a um décimo do desembolso direto. A leitura apressada veria aí ausência de demanda.
A leitura estratégica enxerga o contrário: o procedimento é o item de maior valor unitário da jornada assistencial e o menos presente na cesta do pagamento direto não porque o paciente não precise dele, mas porque a oferta acessível praticamente inexiste.
A composição atual do out of pocket é o retrato de um mercado que vende ao paciente o diagnóstico mas não tem condições de entregar o tratamento. É precisamente essa assimetria, muita farmácia, muita consulta, quase nenhuma cirurgia, que define o espaço em branco mais valioso do setor.

Os três vetores que sustentam o crescimento
1. A pressão de custos da saúde suplementar. A inflação médica segue sistematicamente acima da inflação geral da economia, e os reajustes recorrentes empurram beneficiários para fora do sistema ou para produtos de cobertura cada vez mais restrita. Para milhões de famílias, a mensalidade deixou de caber no orçamento; o pagamento por uso, não.
2. A transformação do mercado de trabalho. O avanço da informalidade reduz o acesso aos planos coletivos empresariais, historicamente a porta de entrada da classe média na saúde suplementar. O resultado é um contingente crescente de brasileiros com renda, disposição a pagar e nenhum vínculo com operadoras.
3. A consolidação cultural do pay per use. O consumidor que assina streaming, usa aplicativo de transporte e paga por demanda em todos os setores da economia passou a exigir a mesma lógica na saúde: preço conhecido, acesso rápido, experiência sem burocracia. As clínicas populares capturaram esse movimento. O número de estabelecimentos cresceu quase 200% entre 2018 e 2022, segundo estudo do IEPS e da Umane, enquanto a parcela da população que busca atendimento particular subiu de 10% para 14% entre 2013 e 2019.
As fraturas expostas da saúde suplementar
Se os três vetores acima explicam o crescimento do particular pelo lado da demanda, as fragilidades cada vez mais visíveis da saúde suplementar o aceleram pelo lado da credibilidade e confiança. Quatro fraturas merecem registro.
A fragilidade financeira estrutural. O setor acumulou prejuízo de R$ 17,5 bilhões entre 2021 e 2023, segundo a Abramge, e a fotografia agregada esconde uma assimetria severa: mais de 40% das operadoras médico-hospitalares seguiram encerrando exercícios com prejuízo operacional, as autogestões registraram perda operacional de R$ 3,1 bilhões em 2025 (45,5% acima do ano anterior, conforme a ANS) e cerca de 7,5 milhões de beneficiários estão hoje vinculados a operadoras em regimes especiais como direção fiscal, planos de adequação econômico-financeira ou cancelamento de registro em curso.
O número de operadoras ativas encolhe ano após ano, num processo de consolidação que reduz a concorrência exatamente nos planos individuais, onde a concentração de mercado mais cresce.
Uma recuperação comprada com reajuste. É verdade que 2025 marcou lucro recorde da série histórica — R$ 17,9 bilhões entre janeiro e setembro, com sinistralidade de 81,7%, a menor desde 2020. Mas a própria ANS explica o mecanismo: a recomposição das mensalidades superou a variação das despesas assistenciais, e as receitas financeiras, turbinadas por R$ 130 bilhões em aplicações num ciclo de juros elevados, sustentaram parcela relevante do resultado.
Em outras palavras, o equilíbrio das operadoras foi restabelecido transferindo o custo ao beneficiário, restringindo acesso e rentabilizando o capital da redução forçada da sinistralidade, glosas e prazos de pagamento cada vez mais alongados. Cada ciclo de reajuste acima da inflação que sustenta o balanço da saúde suplementar empurra uma nova legião de famílias e pequenas empresas para fora do sistema, diretamente para o mercado de pagamento particular.
A judicialização em patamar histórico. Os números dispensam adjetivos. O contencioso contra a saúde suplementar saltou de 147 mil novas ações em 2021 para cerca de 328 mil em 2025, uma alta de 122% em cinco anos, segundo o Anuário da Justiça da Saúde Suplementar, com base nos dados do CNJ.
Em 2026, o movimento acelerou: foram 89 mil novos processos apenas no primeiro trimestre (crescimento de 20,5% sobre o mesmo período anterior, conforme a FenaSaúde) e, no fechamento do semestre, veio o marco simbólico apresentado pelo CNJ no Fonajus: pela primeira vez na história, a judicialização da saúde suplementar ultrapassou a do próprio SUS — 181 mil novas ações contra 164 mil, diferença de 10,4%, com cinco estados (SP, BA, RJ, PE e MG) concentrando 72% dos processos.
A conta também escalou: as despesas das operadoras com decisões judiciais somaram R$ 4,6 bilhões em 2025, quase o triplo dos R$ 1,5 bilhão de 2021, e ultrapassaram R$ 5 bilhões no acumulado de 12 meses encerrados no primeiro trimestre de 2026, já representando 1,8% das indenizações pagas pelo setor (sendo acima de 2% nas grandes operadoras).
E o desfecho dos litígios é contundente quanto ao mérito: o Diagnóstico da Judicialização da Saúde (CNJ/PNUD, 2025) apurou 69,5% das liminares deferidas e 87% de procedência final favorável ao beneficiário na saúde suplementar. Pedidos de tratamentos médico-hospitalares respondem por 43% das ações, seguidos de reajustes e questões contratuais.
As ações contra reajustes, isoladamente, cresceram 218% em cinco anos. Quando nove em cada dez conflitos levados ao Judiciário terminam com razão reconhecida ao paciente, a judicialização deixa de ser sintoma e passa a ser diagnóstico.

O produto que encolhe e o beneficiário que desiste. A resposta comercial do setor à pressão de custos tem sido a proliferação de produtos de acesso restrito. Redes credenciadas enxutas, coparticipações crescentes, segmentações de cobertura. O beneficiário paga mais por um produto que entrega menos, demora mais e nega com mais frequência.
O resultado comportamental é previsível e já mensurável na ponta: o consumidor faz a conta, compara a mensalidade com o preço transparente da consulta, do exame e do pacote de procedimento, pagos por uso, e conclui que a intermediação deixou de fazer sentido para o seu perfil de utilização. A insatisfação com a saúde suplementar não é apenas um problema das operadoras: é o maior programa de geração de demanda que o mercado particular já teve.
O teto de vidro do modelo atual
Aqui reside o ponto cego do mercado. O ecossistema out of pocket brasileiro construiu-se quase inteiramente sobre consultas e exames, serviços de tíquete baixo, alta frequência e margens comprimidas pela competição crescente. A literatura acadêmica que analisou o fenômeno das clínicas populares é explícita: a oferta assistencial permanece restrita ao diagnóstico.
O paciente recebe a hipótese confirmada, a indicação cirúrgica em mãos, e então o modelo o abandona, devolvendo-o à fila do SUS ou a orçamentos hospitalares imprevisíveis e proibitivos. É exatamente nesse elo quebrado da jornada que está a maior oportunidade da década.
A resposta tem nome: unidade de cirurgia ambulatorial
A experiência internacional já demonstrou o caminho. Nos Estados Unidos, os Ambulatory Surgery Centers (ASCs) constituem uma indústria de aproximadamente US$ 45 bilhões, e estudos comparativos mostram que o mesmo procedimento custa à metade, ou menos, quando realizado em um ASC em vez do ambulatório hospitalar.
Mais relevante ainda: floresce naquele mercado uma geração de centros cirúrgicos cash pay, com preços fechados publicados na internet. Honorários, anestesia e taxa de sala em um único valor, sem surpresas. O modelo elimina glosas, autorizações prévias e inadimplência, e devolve ao paciente aquilo que o sistema de intermediação lhe tirou: previsibilidade.
No Brasil, os sinais de convergência já são visíveis. Hospitais começam a publicar tabelas de pacotes fechados. Redes de clínicas populares ensaiam a verticalização para procedimentos, como demonstra a inauguração de centros cirúrgicos oftalmológicos por players de acesso. Plataformas de intermediação de cirurgia particular com preço fixo ganham tração. O movimento existe, falta infraestrutura dedicada.
E é aqui que as duas agendas se encontram. A unidade de cirurgia ambulatorial — a UCA, tema central desta coluna — é precisamente a estrutura de custo enxuto capaz de tornar o procedimento cirúrgico acessível e custo-efetivo ao bolso de 102 milhões de brasileiros.
Sem as diárias, os custos compartilhadose a complexidade do hospital geral, a UCA viabiliza o pacote de preço fechado em patamares que o hospital tradicional não alcança. O out of pocket, por sua vez, é a demanda solvente que faltava para acelerar a expansão das UCAs no país. Oferta e demanda, enfim, alinhadas.
O setor passou a última década discutindo o out of pocket como curiosidade de mercado. Os números não permitem mais essa contemplação distante. R$ 317 bilhões não são tendência, são realidade consolidada, maior que toda a saúde suplementar.
A pergunta que gestores, investidores e operadores precisam responder não é se esse capital financiará procedimentos cirúrgicos, mas quem construirá a infraestrutura para recebê-lo. Os que enxergarem a UCA como a ponte entre o diagnóstico acessível e o tratamento resolutivo capturarão o elo de maior valor da cadeia.
Os demais continuarão disputando consultas de tíquete baixo em um oceano cada vez mais vermelho. A visão está dada. A execução, como sempre, separará os protagonistas dos espectadores.