A digitalização dos processos de suprimentos hospitalares trouxe ganhos inegáveis para a saúde brasileira. Os portais de compras, em especial no segmento de Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPME), desempenham um papel relevante ao organizar demandas complexas, ampliar a rastreabilidade e promover maior governança nas aquisições. No entanto, como todo sistema em evolução, o modelo atual apresenta distorções que precisam ser enfrentadas com maturidade e diálogo.
Nos últimos anos, observou-se a multiplicação de plataformas com diferentes estruturas, regras e práticas comerciais. A ausência de parâmetros comuns, sejam autorregulatórios ou normativos, resultou em um ambiente fragmentado, que muitas vezes impõe custos adicionais e barreiras operacionais desproporcionais, principalmente para pequenos e médios distribuidores. Em alguns casos, criou-se um efeito cumulativo de taxas e exigências que impacta diretamente a sustentabilidade da cadeia de fornecimento.
Não se trata de questionar a relevância dos portais, mas de reconhecer que o modelo econômico vigente chegou a um ponto crítico. Quando o acesso ao mercado passa a ser condicionado a custos obrigatórios ou a critérios que não estão diretamente ligados à qualidade técnica, há um risco real de distorção da livre concorrência e, consequentemente, de prejuízo para o próprio sistema de saúde, que deixa de acessar as melhores soluções disponíveis.
É nesse contexto que a ABRAIDI propõe a abertura de um diálogo franco, técnico e transparente com os gestores de portais de compras, hospitais, operadoras e demais atores do setor. O objetivo é construir, de forma conjunta, um modelo mais equilibrado, sustentável e orientado à geração de valor.
Três pontos centrais orientam essa proposta. O primeiro é a garantia de acesso isonômico aos processos de cotação, sem bloqueios baseados exclusivamente em critérios comerciais dos portais. A tecnologia deve ser um vetor de inclusão e eficiência, não uma barreira de entrada.
O segundo diz respeito à revisão da lógica de custos de homologação. A validação de fornecedores é essencial para a segurança e a qualidade do sistema, mas não pode ser tratada como fonte de receita sobre o próprio auditado. É preciso reposicionar esse processo como um requisito técnico, alinhado às melhores práticas de governança.
Por fim, defendemos a substituição de taxas compulsórias por serviços efetivamente baseados em valor. Em um ambiente maduro, o fornecedor deve ter liberdade para escolher soluções que agreguem eficiência operacional, inteligência de mercado e integração tecnológica, e não ser obrigado a arcar com custos que pouco contribuem para sua competitividade.
A construção desse novo modelo passa, necessariamente, por um esforço coletivo. A autorregulação do setor pode e deve ser o primeiro passo, com a definição de diretrizes claras e equilibradas. Quando necessário, o debate também pode avançar para o campo regulatório, sempre com o objetivo de garantir isonomia, previsibilidade e sustentabilidade.

Mais do que uma crítica, esse é um convite à construção conjunta. A ABRAIDI reafirma sua disposição em contribuir tecnicamente para esse processo, ouvindo diferentes perspectivas e buscando soluções que fortaleçam toda a cadeia de OPME.
O momento é de convergência. Ao alinhar interesses e revisar práticas, temos a oportunidade de consolidar um ambiente mais justo, transparente e eficiente, em benefício não apenas das empresas, mas dos pacientes e do sistema de saúde como um todo.
*Davi Uemoto, diretor executivo da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI).