O custo da saúde não é um problema exclusivo do Brasil. No entanto, nosso país possui características singulares que não se limitam apenas ao impacto econômico. Outros fatores geram alto grau de incerteza no sistema e sinalizam que a insustentabilidade dos modelos atuais está no horizonte.
A comparação entre o aumento dos custos gerais, que podem ser medidos pela variação do IPCA, e da “inflação na saúde”, que pode ser mais bem definida pelo “custo de saúde” é desproporcional. Alguns estudos mostram que, na última década, o aumento médio dos gastos com a saúde ficou cerca de 8% acima do IPCA, com uma mediana ainda mais alta.
Do total de 53 milhões de brasileiros que atualmente têm acesso à saúde suplementar, 16,2% são planos individuais ou familiares, 11% são planos por adesão e a grande maioria são de planos coletivos empresariais (72,7%), segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Para reduzir ou mesmo eliminar esta tendência de alta nos gastos, é preciso compreender os reais motivos que levam a este resultado. O envelhecimento da população é uma delas. Não deixa de ser boa notícia para todos, pois estamos vivendo mais e de maneira ativa! Porém, o crescimento desta faixa etária vem acompanhado de doenças crônicas e outros episódios que requerem intervenção – o que provoca aumento natural e projetado da utilização de recursos de saúde e, portanto, dos custos. Como fator adicional a ser analisado, temos a tendência de menor capacidade financeira desta faixa da população. Temos que estimular o acesso a iniciativas de promoção de saúde que postergam e atenuam os efeitos e complicações de doenças crônicas e episódios que acometem os idosos.
As novas tecnologias – medicamentos, procedimentos e equipamentos – em sua maioria entram no mercado com custos mais elevados e muitas vezes não são substitutivas, mas aditivas às já existentes nos ambientes hospitalares. Os cálculos de valor (eficiência, sobrevida e qualidade de vida) relativos aos custos adicionais comparados com as tecnologias já existentes são medidas necessárias. Devemos apoiar e aperfeiçoar os órgãos reguladores, ampliando o espectro de participantes, amparados por evidências concretas e objetiva de literatura da vida real.
Por fim, temos a questão central sobre o nosso modelo de saúde, investimos pouco em prevenção e diagnóstico precoce. Estimulamos a atenção secundária e terciária na busca de especialistas sem triagem e tratamentos superficiais feitos no pronto-socorro, com estímulo para o uso indiscriminado de recursos de saúde percebido como melhor “qualidade” para o paciente. A solicitação indiscriminada de exames diagnósticos, tratamentos ou internações desnecessários, não acarretam um melhor desfecho, pelo contrário, a jornada do paciente se mostra desintegrada e desacompanhada, funcionando em degraus isolados.
O modelo de cuidado precisa mudar. A análise feita por algumas operadoras é que a carteira de clientes gira, em média, a cada 2 anos. Isto não é motivo para não termos ações coordenadas de medicina preventiva, atenção primária, gestão de doenças crônicas, bem como integradores da jornada de saúde dos indivíduos. É preciso engajar as empresas, RHs e os setores de saúde corporativa, para participarem desta responsabilidade. Como ferramenta importante, precisamos evoluir para interoperabilidade – disponibilizando prontuários compartilhados e acessíveis para toda população. Os hospitais associados à Ahfip têm investido nestas estratégias, mesmo com utilização ainda inicial, analisando esta premente necessidade.
A parceria entre operadoras e prestadores precisa sair do discurso, pois está claro que a verticalização é uma estratégia legítima, mas não funciona sempre e nem para todos – inclusive financeiramente, como podemos acompanhar recentemente. O estímulo à utilização de recursos contrabalançado pelas estratégias de atraso ou (não) pagamento é ruim para todos e acarreta crises cíclicas e intermináveis. O foco nas melhores práticas de utilização de recursos, remuneração adequada para melhores desfechos com foco no menor custo total (e não no menor preço isolado) é o caminho a ser trilhado. É necessário fazer a diferenciação para aqueles que têm os melhores indicadores de qualidade, pertinência e eficiência, reais e auditados.
Não podemos cair na tentação de acreditar que estas iniciativas citadas são fáceis e rápidas. Mas precisamos começar. E estamos atrasados.
*Wilson Pedreira é CEO da Associação dos Hospitais Filantrópicos Privados (Ahfip)