O Einstein Hospital Israelita e a Siemens Healthineers iniciaram a operação de um Centro Colaborativo de Inovação (CCI) voltado ao desenvolvimento e à validação de tecnologias em saúde. A iniciativa prevê, nos próximos cinco anos, o codesenvolvimento de soluções em medicina de precisão, com foco na validação clínica e na preparação para escala. A proposta reúne competências das duas organizações em assistência, pesquisa, inteligência artificial (IA) e medicina diagnóstica.
O primeiro projeto do CCI será dedicado ao câncer de pulmão e investigará o uso de inteligência artificial e radiômica para identificar, em exames de imagem, padrões que possam indicar mutações tumorais relevantes para a definição do tratamento. A hipótese é que essas características, algumas não identificáveis pela leitura convencional das imagens, possam atuar como biomarcadores não invasivos e complementar informações obtidas por testes moleculares especializados.
IA e radiômica no estudo do câncer de pulmão
A abordagem ainda está em investigação. Embora grupos internacionais estudem possibilidades semelhantes, segundo as organizações, não há uma ferramenta amplamente disponível para aplicação clínica com essa finalidade. As instituições também afirmam não ter identificado iniciativas publicadas no Brasil que integrem IA, radiômica e inferência molecular nesses moldes.
O projeto busca avaliar o potencial da tecnologia para apoiar a caracterização dos tumores e a definição de estratégias terapêuticas, com perspectivas de ampliar a acessibilidade e a escala dessas análises.
A escolha do câncer de pulmão como foco inicial está relacionada à relevância epidemiológica da doença e aos desafios da definição terapêutica. Em 2022, o tumor foi o tipo de câncer mais diagnosticado no mundo, com cerca de 2,5 milhões de novos casos, e a principal causa de morte por câncer, com aproximadamente 1,8 milhão de óbitos, segundo o GLOBOCAN 2022, da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS).
Apesar dos avanços terapêuticos, muitos casos ainda são diagnosticados em estágios avançados. Além disso, a escolha do tratamento pode depender da identificação de alterações moleculares específicas, cuja investigação exige exames especializados nem sempre acessíveis em todos os contextos assistenciais. É nesse cenário que o projeto pretende avaliar se a análise de imagens pode fornecer informações complementares às obtidas pelos métodos convencionais.
Estrutura reúne pesquisa, assistência e desenvolvimento tecnológico
O CCI reunirá médicos, pesquisadores, cientistas de dados, engenheiros e especialistas em inovação. A estrutura ficará em um espaço na Vila Einstein, no Morumbi, com inauguração prevista para o segundo semestre. O Einstein contribuirá com sua experiência em assistência, pesquisa aplicada, medicina de precisão e infraestrutura de dados, enquanto a Siemens Healthineers aportará conhecimento em tecnologias diagnósticas e pesquisa aplicada, além de capacidade de desenvolvimento de soluções com potencial de aplicação global.
“Com o Centro Colaborativo de Inovação, criamos um ambiente permanente para transformar desafios identificados na prática assistencial em tecnologias capazes de gerar impacto para pacientes e profissionais de saúde. Ao integrar pesquisa, assistência, dados e desenvolvimento tecnológico desde o início dos projetos, conseguimos acelerar a geração de evidências e aumentar o potencial de que essas soluções cheguem de forma efetiva à prática clínica”, afirma Rodrigo Demarch, diretor executivo de Inovação do Einstein.
Para Manuel Coelho, head de Pesquisa e Inovação da Siemens Healthineers para a América Latina, a parceria também está alinhada à estratégia da companhia de ampliar sua atuação no desenvolvimento de soluções para os desafios dos sistemas de saúde.
“A combinação entre a complexidade do contexto brasileiro e a excelência científica e clínica do Einstein cria oportunidades únicas para gerar conhecimento, desenvolver novos modelos de cuidado e ampliar o acesso à saúde de qualidade. Mais do que avanços tecnológicos, buscamos promover inovação com impacto social para contribuir com sistemas de saúde mais acessíveis, sustentáveis e centrados nas pessoas”, explicou o executivo.
Com duração prevista de 16 meses, o estudo marca o início da agenda de desenvolvimento tecnológico do centro. Outras frentes estão em avaliação, incluindo pesquisas relacionadas ao câncer de fígado e possíveis aplicações de computação quântica no desenvolvimento de modelos avançados de inteligência artificial para a saúde.
A proposta do CCI é manter uma estrutura permanente de colaboração entre pesquisa, assistência e desenvolvimento tecnológico, com o objetivo de aproximar descobertas científicas da aplicação clínica. A efetividade desse modelo dependerá da capacidade de validar as soluções, demonstrar sua utilidade na prática assistencial e avaliar as condições necessárias para sua implementação em escala.