“Um hospital que ‘enxerga’ tudo o que acontece em tempo real.” Esse é o propósito do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), o primeiro hospital inteligente do Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa busca estabelecer um centro de excelência em saúde digital, com foco na medicina de precisão e no cuidado centrado no paciente, redefinindo os padrões de atendimento e gestão hospitalar no Brasil.

Trata-se de uma nova era nos padrões operacionais de hospitais de alta complexidade. O projeto reúne integração de sistemas, interoperabilidade, automação hospitalar, monitoramento em tempo real, gestão orientada por dados, prontuários eletrônicos e sistemas preditivos de gestão assistencial.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre o Ministério da Saúde, o Governo do Estado de São Paulo e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). O investimento estimado é de R$ 4,8 bilhões, com recursos do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

A previsão é que a unidade entre em funcionamento em 2029, com a instalação de equipamentos, implementação de sistemas digitais e capacitação das equipes.

Estutura estrategicamente preparada

O hospital será construído em terreno cedido pela Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, junto a outros institutos do complexo do HC. O projeto arquitetônico prevê um edifício com 150 mil m², dentro de padrões internacionais de sustentabilidade, segurança e inovação.

O hospital será construído com suporte a tecnologias de ponta, incluindo Internet das Coisas (IoT), IA e automação.
Foto: Reprodução/ HCFMUSP

A estrutura será projetada por meio de técnicas globais avançadas e aplicação de métodos eficazes de redução de infecções hospitalares. Além disso, será estrategicamente preparada para as condições climáticas locais, desastres naturais e pandemias. E também contará com um sistema de eficiência energética.

O ITMI foi inspirado em experiências internacionais, como Mayo Clinic, Johns Hopkins, Karolinska, hospitais de Singapura e Israel, além dos grandes centros chineses e indianos que hoje lideram a implantação em escala de hospitais inteligentes. Contudo, foi desenvolvido a partir das necessidades do contexto brasileiro.  

A unidade servirá de modelo nacional de inovação a ser escalado. Para Alexandre Padilha, ministro da saúde, o projeto impacta o complexo industrial da saúde em um momento de reorganização das cadeias globais de insumos no pós-covid. “É a concretização de um hospital inovador no complexo do HC. Será um ecossistema de saúde que reúne o que o Brasil tem de melhor na área médica e na pesquisa, reforçando o espírito de inovação que a USP mantém desde sua fundação”, afirmou em coletiva de imprensa.

Rede de UTIs Inteligentes pelo país

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) contará com 350 leitos para atender os pacientes da rede pública com medicina de alta precisão. O projeto integrará, também, 14 UTIs inteligentes em hospitais de referência de 13 estados e serviços automatizados nas cinco regiões do país, que começam a funcionar ainda este ano.

As UTIs inteligentes vão operar de forma interligada, conectadas a uma central de pesquisa e inovação. A monitorização será inteligente e totalmente integrada ao prontuário eletrônico, permitindo o acompanhamento integral dos sinais vitais, ventilação mecânica, uso de drogas vasoativas, balanço hídrico e exames laboratoriais. Essa conexão permite decisões mais rápidas e seguras.  

Além disso, as UTIs contarão com o suporte de uma equipe multiprofissional em tempo real, que garante uma abordagem colaborativa e especializada.

Segundo Ludhmila Abrahão Hajjar, cardiologista intensivista, Professora Titular de Emergências da Faculdade de Medicina da USP e idealizadora do projeto, a expectativa vai além de apenas monitorar. “Essa estrutura permitirá que os profissionais de saúde tenham acesso imediato às informações críticas, promovendo intervenções mais eficazes e reduzindo riscos. A combinação de tecnologia avançada e expertise humana transformará o atendimento em ambientes de terapia intensiva, elevando os padrões de segurança e eficiência”, explica.

O modelo também inclui telemedicina integrada e tele-UTI, ampliando a capacidade de suporte especializado, auditoria assistencial e escalabilidade para o SUS.

Diante dessa gestão automatizada de dispositivos invasivos e rastreabilidade de procedimentos e medicamentos críticos, a segurança do paciente será amplamente aprimorada. Protocolos clínicos baseados em evidência serão digitalizados com alertas automáticos para condições como sepse, sedação, delirium, ventilação protetora, tromboprofilaxia e antibioticoterapia, garantindo a padronização e redução de eventos adversos.

“O paciente grave, de emergência, é o que mais se beneficia dessas tecnologias redutoras de tempo, que vão instituir terapias personalizadas. Esse hospital dá um salto para a medicina de precisão, centrada no paciente”, reforça Hajjar.

Nova era tecnológica no SUS

O hospital inteligente vai reunir um conjunto de tecnologias que transformam completamente a forma de operar um hospital de alta complexidade. Entre as principais inovações estão: integração total de sistemas, automação hospitalar, monitoramento em tempo real e gestão baseada em dados.

De acordo com o Ministério da Saúde, o uso de inteligência artificial e big data na unidade marca um importante avanço na modernização do SUS. Essa inovação tem o potencial de reduzir em 25% o tempo de espera na emergência. No pronto socorro, a expectativa é que a média caia de 120 minutos para 90 minutos.

Além disso, o tempo de permanência de pacientes clínicos na UTI pode ser reduzido de 48 horas para 24 horas, enquanto o período médio de internação na enfermaria pode cair de 48 horas para 36 horas. Com a integração dos sistemas, espera-se também uma redução de até 10% nos custos operacionais, promovendo maior eficiência e sustentabilidade no atendimento.

Conheça 7 principais tecnologias inovadoras de gestão do ITMI:

1. Prontuário eletrônico integrado e interoperável

Com integração entre emergência, UTI, centro cirúrgico, exames, farmácia e enfermarias, o hospital passa a operar com dados completos do paciente em tempo real.

Benefício para a gestão: redução de retrabalho, eliminação de duplicidade de exames e aumento da eficiência assistencial e administrativa.

2. Data Lake hospitalar e painéis inteligentes (Business Intelligence)

Todos os dados clínicos e operacionais ficam centralizados e transformados em indicadores de desempenho.

Benefício para a gestão: decisões baseadas em evidência, controle de produtividade, qualidade e custos com rastreabilidade total.

3. Centro de Comando Operacional (Command Center)

Um sistema de gestão em tempo real do fluxo hospitalar: leitos, filas, exames, transferências e cirurgias.

Benefício para a gestão: melhora do giro de leitos, redução do tempo de espera e aumento da capacidade operacional sem precisar ampliar fisicamente o hospital.

4. Inteligência Artificial aplicada à gestão e ao cuidado

Uso de IA para prever demanda, antecipar deterioração clínica, otimizar uso de UTI e apoiar protocolos como sepse, AVC e IAM.

Benefício para a gestão: redução de mortalidade, redução de permanência hospitalar e maior eficiência no uso de recursos críticos.

5. Monitoramento contínuo e Internet das Coisas (IoT)

Utilização de sensores e dispositivos conectados para rastrear equipamentos, medicamentos, sinais vitais e movimentação de pacientes.

Benefício para a gestão: controle de estoque e ativos em tempo real, redução de perdas e aumento de segurança.

6. Automação logística e rastreabilidade de insumos

Rastreio inteligente de medicamentos, materiais e órteses/próteses com sistemas digitais e auditoria automática.

Benefício para a gestão: redução de desperdício, redução de fraudes e aumento de transparência.

7. Hospital verde e inteligente (eficiência energética)

Automação predial para controle de energia, climatização, água e manutenção preditiva.

Benefício para a gestão: redução de custos operacionais e aumento de sustentabilidade do hospital.

Planejamento estratégico de implementação do hospital inteligente

A professora Ludmilla explica que o roadmap digital do ITMI funcionará como um plano de implantação em camadas, com entregas progressivas que priorizam tanto o impacto assistencial imediato quanto o avanço da maturidade tecnológica. “Não se trata apenas de um cronograma de TI, mas de um plano estratégico voltado para a transformação integral do hospital”, destaca.

O roadmap inicia-se com a construção de uma infraestrutura crítica, que inclui conectividade robusta, segurança cibernética avançada, redes redundantes, padronização de identidade digital e uma estrutura sólida de interoperabilidade.

Na sequência, ocorre a etapa de integração dos sistemas assistenciais e administrativos, assegurando que diferentes áreas, como prontuário eletrônico, laboratório, imagem, farmácia, centro cirúrgico, UTI e gestão de leitos, estejam plenamente conectadas e operem de forma integrada.

A terceira fase consiste na consolidação de um data lake hospitalar e na implementação de painéis de gestão e inteligência operacional. Essa estrutura permitirá o monitoramento em tempo real de diversos aspectos, como o fluxo de pacientes, taxa de ocupação, tempo de permanência, consumo de insumos e indicadores de qualidade, garantindo maior eficiência, transparência e suporte à tomada de decisão estratégica.

Em seguida, será implantado o Centro de Comando Hospitalar, que funcionará como uma verdadeira torre de controle, permitindo decisões rápidas e baseadas em dados. Na etapa seguinte, serão incorporadas tecnologias de automação e Internet das Coisas (IoT), incluindo rastreabilidade de ativos, sensores inteligentes, logística automatizada e integração direta com dispositivos médicos, para garantir a precisão nos processos hospitalares.

E por fim, quando a base de dados estiver consolidada e confiável, entram as aplicações de inteligência artificial em escala, tanto para suporte clínico quanto para previsão de demanda, otimização de leitos, prevenção de eventos adversos e melhoria de desfechos.

“O diferencial é que cada etapa do roadmap é acompanhada de capacitação de equipes, governança clínica e auditoria de resultados, garantindo que o hospital evolua com segurança, aderência assistencial e impacto real no SUS”, destaca Hajjar.

Processo de capacitação e treinamento

Os gestores e todos os profissionais serão capacitados por meio de um programa estruturado de formação contínua, desenvolvido junto às áreas assistenciais, administrativas e de tecnologia, para garantir que o hospital inteligente não dependa apenas de ferramentas digitais, mas de pessoas preparadas para operar esse novo modelo.

“A capacitação inclui treinamento em gestão baseada em indicadores, uso de painéis em tempo real, interpretação de dados clínicos e operacionais, governança de processos, segurança da informação e tomada de decisão orientada por evidência. Além disso, haverá certificação progressiva por níveis, acompanhamento de desempenho e suporte permanente durante a implantação, para que a transição ocorra com segurança e adesão”, explica Hajjar.

Ainda de acordo com a idealizadora do projeto, a iniciativa busca formar gestores capazes de liderar um hospital moderno, digital e eficiente, garantindo que a tecnologia seja utilizada como instrumento de qualidade, produtividade e sustentabilidade do sistema.

“O objetivo é transformar o HC em um grande laboratório vivo de pesquisa aplicada. Porque quando você integra prontuário, exames, UTI, cirurgia e desfechos em tempo real, você passa a produzir ciência continuamente, com escala e qualidade. Isso acelera ensaios clínicos, fortalece pesquisa em inteligência artificial e permite medir impacto e custo-efetividade de cada decisão”, completa a professora.