Portugal dá um salto triplo. Tem problemas demais em saúde e pouca paciência para esperar soluções clínico-assistenciais conservadoras. “O futuro do SNS depende diretamente da nossa capacidade inovadora para colocar a tecnologia ao serviço dos utentes, reduzindo distâncias e aumentando o acesso aos cuidados de saúde”, explicou a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, ao anunciar a parceria com a Sword Health, uma healthtech portuguesa que cresceu no mercado norte-americano e vale US$ 4 bilhões, segundo a Forbes. Além disso, a empresa possui uma das plataformas de IA fisioterapêutica mais respeitadas do mundo.
Seria demasiado provocador dizer que Portugal “terceirizou” um de seus maiores problemas em saúde, mas o acordo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é claro: “a empresa oferecerá fisioterapia remota apoiada por Inteligência Artificial (IA) a mais de 10 milhões de pacientes, reduzindo a lista de espera, o tempo de tratamento em até 97% e mitigando os custos do Estado em 45%”. O principal motor tecnológico por trás desse acordo é a plataforma Phoenix (“AI Care Specialist”), uma das primeiras inteligências artificiais especializadas do mundo, centrada em cuidados clínicos fisioterapêuticos e desenvolvida pela própria Sword Health.
Ela combina voz, memória clínica, análise de movimento e regras de segurança para guiar o paciente durante a sessão. Trata-se de uma experiência de voz em tempo real, com baixa latência, memória clínica e “guardrails” de segurança para orientar tratamentos em escala. Na prática, funciona com o paciente fazendo exercícios em casa, usando o aplicativo, em tablet ou celular, e sensores médicos (wearables), conforme o programa de cuidado previr. A IA observa o movimento, identifica se a execução está correta, corrige postura, ritmo e amplitude, com toda a orientação feita por voz. Não é como ver um vídeo de exercícios no YouTube. A diferença é que o sistema “vê” o corpo se mexendo e responde ao que observa. Cada repetição é rastreada e o feedback é imediato.
A Phoenix faz basicamente quatro coisas: (1) Monitora o movimento: analisa se o paciente está fazendo o exercício de modo correto, com sensores e visão computacional; (2) Corrige em tempo real: avisa se há compensação, postura inadequada, amplitude errada ou execução insegura; (3) Personaliza a sessão: adapta a orientação ao histórico do paciente, à dor, fadiga, progresso e adesão do paciente; e (4) Alimenta a equipe clínica com dados: gera informações para que fisioterapeutas e clínicos acompanhem evolução e ajustem o plano. A Sword explica que “não é uma IA autônoma solta”. O modelo é híbrido e inclui IA + supervisão clínica humana. No acordo com Portugal, por exemplo, a equipe clínica supervisiona cada programa e ajusta os planos terapêuticos quando necessário, enquanto a IA monitora e corrige a execução dos exercícios em tempo real. Não há custos para os pacientes: o tratamento é coberto pelo Estado.
A plataforma já está nos EUA, Europa e Austrália, principalmente via empresas, seguradoras e planos de saúde. O caso português passa a ser uma entrada em escala nacional dentro do sistema público. O Governo anunciou que médicos do SNS poderão prescrever fisioterapia remota para patologias musculoesqueléticas comuns, como lombalgia, dor no ombro, dor no joelho, entorses e distensões musculares. O acompanhamento será feito por dispositivo médico certificado e IA monitorada, analisando e corrigindo movimentos em tempo real. O modelo funciona por meio de um sistema de IA conversacional, baseado em modelos proprietários treinados especificamente para a área de reabilitação.
Guardadas as devidas proporções, “o que Portugal fez com a Sword Health tem semelhança com o acordo que o Reino Unido fez com a Flok Health”: ambos os países recorrem a uma empresa privada de IA para aliviar filas de fisioterapia musculoesquelética. Em ambos os casos, o sistema público deixa de tentar resolver tudo apenas com fisioterapia presencial e passa a contratar uma ‘camada digital/algorítmica’ para ampliar o acesso, acelerar atendimento e reduzir a pressão sobre serviços públicos. No caso britânico, o NHS, por meio da Flok Health, lançou uma clínica de fisioterapia operada por IA em Cambridgeshire e Peterborough, com consultas automatizadas pelo vídeo do aplicativo. Em um piloto de 12 semanas, mais de 2.500 pacientes usaram o serviço e as listas de espera musculoesqueléticas caíram 44% (fonte: The Guardian).
Portugal talvez não esteja apenas adotando uma nova ferramenta de fisioterapia. Está testando uma “nova gramática para o cuidado público”: quando o Estado não consegue entregar presença clínica suficiente, terceiriza uma camada de inteligência operacional. A fila não desaparece porque surgiram milhares de fisioterapeutas. Ela promete desaparecer porque parte da presença clínica foi comprimida em sensores, voz, visão computacional e supervisão remota. A Sword Health não entra no SNS oferecendo apenas uma aplicação. Oferece escala, continuidade e o acompanhamento que o sistema público não consegue sustentar com atendimento presencial. O paciente continua tendo um plano terapêutico, mas a sala de fisioterapia migra para casa. O olhar do fisioterapeuta passa a ser mediado por dados e a correção do movimento chega pela voz da IA.
Esse é o ponto em que as principais nações do mundo estão aprendendo: em saúde, na maioria dos casos, a IA não aparece como diagnóstico espetacular, nem como robô cirúrgico ou como promessa futurista. Aparece como infraestrutura de demanda reprimida. Onde há milhões esperando, a automação deixa de ser cosmética e passa a ser política pública. A pergunta deixa de ser “a IA é melhor que o fisioterapeuta?” e passa a ser: “o que um sistema público faz quando não tem fisioterapeutas suficientes, tempo suficiente, salas suficientes e dinheiro suficiente?”.
É claro que há desconforto político e social tanto em Portugal quanto no Reino Unido. Precisa haver, senão vira foco de malversação. Mas também é preciso haver ambição política e credo na transparência, afinal, terceirizar uma IA para cuidar de dor não é igual a terceirizar software de faturamento. Não é automatizar uma fila administrativa, mas parte da relação terapêutica humana. O toque, a leitura corporal, a hesitação do paciente, a dor que não aparece no ângulo do sensor, tudo isso vira fronteira ética e clínica. Todavia, em tempos de redução colossal do acesso aos sistemas de saúde, é preciso enfrentar os obstáculos paradigmáticos. As pessoas estão sofrendo ou convulsionando em dor. Se não houver uma aliança público-privada clara, sustentada por regulação, a dor represada enfraquece o Estado.
No Brasil, por exemplo, há um separatismo aviltante entre a iniciativa pública (SUS) e a privada (Saúde Suplementar). Um apartheid histórico. Os dois lados evocam um debate cujas questões mais abrasivas já estão sendo resolvidas pela tecnologia. Uma IA pode identificar as fronteiras participativas de cada lado com margens mínimas de erro (aliás, é o que o Reino Unido e Portugal estão empregando para manter seus acordos). IAs Multiagênticas e Multimodais podem acompanhar o percurso clínico-assistencial de cada paciente, mesmo quando ele nem desconfia se a unidade que o atende é “.com” ou “.gov”. Todos os cálculos atuariais são feitos em tempo real pela camada agêntica, devidamente controlados por ambos os lados dessa “selva fragmentada” que é a saúde.
A tendência está lançada. Saúde pública sempre terceirizou exames, laboratórios, leitos, ambulâncias, call centers, imagem diagnóstica e gestão. A novidade é que agora começa a terceirizar a cognição clínica operacional. Não terceiriza a decisão médica soberana (ainda não), mas sim a “camada de acompanhamento, correção, adesão, monitoramento e reorientação”. Nesse ponto, a IA é cada vez mais soberana: não como substituta do profissional, mas como multiplicadora da relação auxiliadora.
Governos contratando plataformas privadas de IA. Não para emitir relatórios, mas para sustentar jornadas clínicas inteiras. Essa é a contemporaneidade. Primeiro, a crise musculoesquelética, porque é prevalente, cara, repetitiva e cheia de protocolos. Depois, quem sabe, a saúde mental leve, o cardiometabolismo, a reabilitação, a triagem crônica, o acompanhamento domiciliar, etc. A lógica é simples: onde o cuidado é contínuo, escasso e repetitivo, a IA será convocada a dividir a seara pública.
O risco não é pequeno. Um sistema público pode confundir inovação com alívio orçamentário, pode também chamar de acesso aquilo que, em alguns casos, é só substituição de cuidado presencial por cuidado remoto. Pode até transformar a IA em um biombo para o subfinanciamento (os críticos da iniciativa lusa apontam que o modelo mascara o subfinanciamento, transferindo fundos públicos diretamente para a tecnologia em vez de contratar mais fisioterapeutas). No fundo, Portugal está colocando uma pergunta difícil na mesa: a saúde pública do futuro será mais estatal, mais privada ou mais algorítmica? Certamente serão as três coisas, a um só tempo e no mesmo espaço.
A Sword explica que uma prescrição para fisioterapia remota com IA libera o paciente para entrar no site da empresa, fazer um registro e iniciar o tratamento (sempre será feita depois uma consulta inicial com a equipe clínica da Sword, para avaliar o estado do paciente). Ainda de acordo com a Sword, o paciente receberá “num prazo médio de dois dias” um dispositivo médico certificado para realizar os exercícios do plano terapêutico. A IA monitora os movimentos, analisa o entendimento destes por parte do usuário e corrige falhas em tempo real. Por trás dessa lógica está o colossal desafio do autocuidado e da alfabetização em saúde, que podem avançar na transferência ao paciente de parte do cuidado.
A plataforma Phoenix não realiza uma triagem estática. Ela atua ativamente durante todas as sessões residenciais. Sua visão computacional (captada por câmera do device, seja ele tablet, celular ou TV) e seus sensores vestíveis (Sword Move) rastreiam o movimento humano milímetro a milímetro, identificando desvios posturais. O “feedback por voz em tempo real” (protocolos WebRTC) “fala” com o paciente de forma fluida durante o exercício. Se o usuário errar o movimento, a Phoenix interrompe e corrige a postura para evitar lesões. O mais importante, no entanto, é a orquestração e hiperpersonalização da fisioterapia: a IA analisa o histórico e o nível de fadiga do paciente, relatando seu nível de cansaço ou dor. A plataforma adapta-se dinamicamente à carga, diminuindo as repetições e trocando exercícios difíceis por mais leves.
As doenças musculoesqueléticas (lombalgia, omalgia, gonalgia, entorses e distensões musculares, etc.) afetam mais de dois bilhões de indivíduos em todo o mundo. Só nos EUA, seu tratamento representa o maior custo em saúde, superior, por exemplo, ao custo do tratamento de doenças oncológicas e mentais somadas. O caso português está só no começo. Será preciso esperar seus desdobramentos para identificar o valor operacional da iniciativa. Mas, sem dúvida, a resposta de Portugal foi pragmática: contratar uma camada privada de IA para ampliar a capacidade pública.
Esse é o desafio da saúde pública no século XXI. Seu rumo não será definido apenas por quem paga, ou por quem presta o serviço, ou mesmo por quem regula. Será definido também por quem orquestra a saúde digital. O Estado continuará sendo mais necessário do que nunca. Mas seu papel muda: menos um operador incansável e solitário de todos os atos clínicos e mais um organizador das relações público-privadas em saúde. A IA privada, por sua vez, não poderá entrar como um cavalo de Troia. Terá que emergir como infraestrutura mensurável, transparente e subordinada ao interesse público. Portugal não resolveu o futuro da saúde pública. Fez algo talvez mais importante: colocou o futuro em teste.
(*depois de seis anos, este é meu último paper publicado na plataforma Saúde Business, da Informa Markets. Agradeço muito a todos os que estiveram envolvidos nessa trajetória e, sobretudo, à Informa, pela liberdade autoral que sempre me foi deferida).
Guilherme S. Hummel
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)