Uma das dúvidas mais instigantes em nossos tempos (últimos 30 meses) é se as tecnologias de Cognição Artificial Generativa vão catapultar a produtividade humana. Mesmo que assim fosse, seria difícil cobrar resultados de algo que mal entrou na criancice. Além disso, trata-se de uma tecnologia mimada, superprotegida e rica. Pode acumular vícios e cacoetes difíceis de eliminar na adolescência. Mas, convenhamos, produtividade é a única palavra realmente importante neste século na Economia Global. Sem ela, e sem a coragem de enfrentá-la, nações minguam nas curvas de PIB, IDHF, TFP, etc.

O edital da plataforma Health Equity de 2026 assevera: “Se o preço das maçãs tivesse seguido a mesma trajetória da inflação em saúde desde 1970, um quilo de maçãs custaria US$ 14,57 em 2025. Isso é aproximadamente US$ 5 a US$ 7 por maçã”.  Não é um dado matreiro, oportunista, mas uma visão firme e calculada sobre por que, na Saúde, fugimos da questão da “produtividade” como quem foge do abismo. Mais que isso: achamos que a Saúde é uma indústria de insumos e serviços tão diferenciada e única que não pode ser comparada a nenhuma outra. Exagero, ou tolice.

Nos anos 1970, um pomar de maçãs era mais parecido com a sala de espera de um pronto-socorro do interior do país: muita gente precisando de atenção ao mesmo tempo, poucos instrumentos diagnósticos e um arsenal limitado de “remédios” para combater o exército de pragas, bactérias e vírus na entrada do pomar. Os agricultores vasculhavam a copa das macieiras em busca de larvas da traça-da-maçã como quem procura sinais vitais; aplicando inseticidas de amplo espectro (a quimioterapia do campo). Geadas de primavera? Eram ‘paradas cardiorrespiratórias coletivas’: queimava-se óleo em latões para tentar aquecer o ar, enquanto as flores delicadas morriam de hipotermia botânica. A ciência começava a registrar tudo isso, mas carecia de protocolos: depender de previsões do tempo na TV em branco-e-preto era o equivalente a um estetoscópio sem diafragma.

Nas décadas seguintes, surgiram programas de manejo integrado, nutridos por experimentos de grandes Centros de Estudo (Cornell University, nos EUA; Embrapa, no Brasil) e boletins táticos ensinaram os pomares a distinguir o patógeno vilão do inseto inofensivo. Feromônios passaram a confundir machos da traça, reduzindo pulverizações químicas; sensores de umidade e temperatura tornaram-se ‘monitores multiparamétricos da UTI agrícola’, disparando irrigação e névoa antigeada no segundo exato em que a planta “gritava” por socorro. Se cada maçã carrega invisivelmente uma UTI logística, cada paciente carrega invisivelmente uma usina de dados, decisões, medicamentos e riscos, só que a maçã já domesticou seu ecossistema; a saúde, ainda não.

A colheita também saiu da Idade da Pedra. Ainda em 1975, frutos machucados nas cestas de vime chegavam ao mercado com a ‘mesma frequência que pacientes voltavam ao hospital por erro de dosagem’. Hoje, robôs acariciam a casca da maçã com garras acolchoadas, enquanto câmeras hiperespectrais detectam hematomas invisíveis a olho nu (algo como triagem por ressonância magnética). O armazenamento deu seu salto quântico quando os engenheiros e agricultores descobriram que maçãs respiram: “retirando oxigênio e adicionando CO em câmaras de atmosfera controlada, elas entram numa espécie de coma induzido, dormindo meses sem envelhecer”. O truque, refinado por grupos de pesquisadores, foi manter o paciente vivo, porém desacelerado, até que o “mercado lhe desse alta”.

Ainda assim, da semente até a maçã pronta para consumo, sempre foi uma luta renhida. A maçã continua uma fruta frágil: basta um erro na cadeia de frio, um degrau no asfalto, e a epiderme se machuca, liberando etileno como um “soro antienvelhecimento” às avessas, que apressa a morte de todas as companheiras (um surto infeccioso digno de ala hospitalar).

Mesmo a “última milha” (a ida para o supermercado ou à fruteira da esquina) trocou as ‘ambulâncias sem suspensão’ pelos furgões refrigerados que atravessam continentes. Hoje, o rastreamento por RFID segue cada maçã como um prontuário eletrônico portátil: sabemos quem a podou, qual fungicida recebeu, quanto tempo ficou em estase e até o número do lote que compartilhará a fruteira com ela. Nos anos 1970, o planeta colheu pouco mais de 21,8 milhões de toneladas de maçãs; hoje circulam cerca de 84,5 milhões, quase quatro vezes mais fruta a cada safra. Essa escalada não foi um milagre botânico, mas o resultado de um “upgrade sistêmico” que incluiu melhoramento genético, sensores climáticos, feromônios-armadilha, armazenagem em atmosfera controlada e muita ciência, algo equivalente à passagem de um pronto-socorro analógico para uma UTI totalmente monitorada.

Nos EUA, coração tecnológico da pomicultura, a colheita comercial era de 2,8 milhões de toneladas em 1971; em 2025 a safra deve chegar a 5,2 milhões de toneladas (um ganho de quase 90% de produtividade em meio século). A extensão de áreas plantadas não cresceu tanto assim; quem fez o “milagre” foram a busca obsessiva por eficiência e a adoção de tecnologia de precisão, impulsionadas por órgãos e por centros de pesquisa. No Brasil, a história começa tímida, mas cresce graças à alta tecnologia, sendo o país um dos 12 maiores produtores do mundo. A macieira só ganhou escala comercial no início da década de 1970, ainda com volumes ínfimos (linha de base “quase zero” para quem dependia de importações). Meio século depois, o setor projeta 1,05 a 1,15 milhão de toneladas na safra 2025/26, após recuperar-se de dois anos difíceis de clima, segundo a ABPM (Associação Brasileira de Produtores de Maçã). Passamos de paciente crônico a exportador ocasional, graças, em boa parte, ao salto tecnológico capitaneado pela Embrapa, que tropicalizou porta-enxertos, sistemas anti-granizo e logística de cadeia fria.

A ironia? Quanto mais impecável a fruta, mais invisíveis ficam as camadas de tecnologia, capital e cuidado que a protegem, subindo a régua da expectativa. É por isso que, se a inflação em saúde tivesse regido o pomar, pagaríamos seis dólares por maçã: não pelo luxo em si, mas pelo custo de manter viva, crocante e sem cicatrizes. Talvez a cadeia de cuidados médicos ainda precise aprender com a pomicultura a arte de medir cada risco, modular cada ‘feromônio’ administrativo e, sobretudo, sair do improviso para o manejo integrado, antes que o próximo inverno congele a produtividade no galho.

Mas o que dizem as vozes mais abalizadas sobre produtividade turbinada por IA? Que evidências já dispomos sobre a produção de bens e serviços ancorada em cognição artificial? O recém-publicado relatório da OCDE, “Unlocking Productivity with Generative AI” (julho/2025), lança muitas hipóteses e poucas certezas. Ainda assim, podemos destilar algumas de suas conclusões em achados-chave (observações deste autor em vermelho):

  • Há ganho de produtividade mensurável, mas não é uniforme. Nas tarefas como escrever, resumir, editar, traduzir texto e código de programação, experimentos mostram ganhos médios na faixa de 5% até mais de 25%.
  • Quem mais ganha, em média, é o “iniciante”, ou seja, usuários ‘menos experientes’ tendem a dar saltos maiores porque a GenAI atua como “andaime cognitivo”: ajuda a preencher lacunas, oferece estrutura, sugere próximos passos e reduz o custo de “não saber por onde começar”.
  • Os mais experientes podem obter vantagem, mas dependem de ‘complementaridade’ e ‘confiança’. Profissionais experientes conseguem extrair valor quando a IA complementa sua expertise (não quando tenta substituí-la). E aqui há um freio comportamental: gente experiente tende a usar com mais cautela, o que pode reduzir ganhos imediatos.
  • Quando a IA não “calça” a tarefa, pode fazer naufragar a produtividade. Quando é usada ‘fora do que ela faz bem’, pode piorar o desempenho: introduz erro, degrada qualidade, dá respostas plausíveis porém dúbias (embora vários estudos mostrem que as IAs cada vez “alucinam” menos).
  • Produtividade de curto prazo pode vir com custo de ‘pensamento independente’. Em outras palavras: evidências experimentais (citadas no texto) sugerem que com GenAI as pessoas performam melhor, mas mostram sinais de redução de ‘pensamento independente’. Ou seja: melhora o “agora”, mas pode corroer musculatura cognitiva se virar muleta (uma conclusão apressada: pessoas que trabalham constantemente em grandes times operacionais perdem pensamento independente?)
  • Na inovação, ajuda a prototipar e acelerar P&D, mas pode “homogeneizar” ideias. IA ajuda mais quem é menos criativo e menos treinado, elevando qualidade e novidade individual. Porém, as ideias geradas podem ficar mais parecidas entre si, reduzindo a “novidade coletiva” do grupo (visão dúbia: todas as ideias após um tempo são parecidas entre si, ficando datadas e isso não tem nada a ver com cognição artificial).
  • Empreendedorismo: o diferencial não é “ter IA”, é “saber integrar”. O estudo aponta que empreendedores de empresas mais fortes tendem a capturar mais ganhos, enquanto os de firmas fracas podem ganhar pouco ou até ter setback, retrocedendo em expectativas (absolutamente correto).

Produtividade em Saúde mede a eficiência com que o Sistema transforma um volume de insumos (por exemplo, pessoal, medicamentos, equipamentos médicos, etc.) em um volume de resultados (procedimentos cirúrgicos, consultas clínicas, atendimentos ambulatoriais, emergenciais, etc.).

No âmbito clínico-assistencial, são tantos fatores e tão fragmentados que a produtividade é uma complexa e arriscada prática (pouco utilizada). O recente relatório da Deloitte (“2026 Global Health Care Outlook”) pondera: “produtividade agora é segurar margem e capacidade assistencial num cenário de pressão de custos e escassez de capital humano, usando automação, analytics e IA para ‘destravar fluxo’ e reduzir trabalho administrativo”. Os executivos entrevistados apontam três fontes principais de economia/eficiência em 2026 ligadas diretamente a IA e automação: (1) 64% de redução de custos via padronização e automação de workflows (tirar variabilidade, reduzir retrabalho, automatizar rotinas); (2) 55% de ganhos com ‘predictive analytics’ para otimizar a força de trabalho (escala, alocação, previsão de demanda, staffing/scheduling); e (3) 49% de economia/eficiência pelo engajamento do paciente, habilitado por tecnologia e monitoramento remoto (menos visitas desnecessárias, acompanhamento fora do hospital).

Além disso, o relatório menciona explicitamente “AI Agents” para follow-up de pacientes como parte da transformação do modelo de cuidado (o que, na prática, é produtividade por “desafogar” equipes e reduzir no-show/reentrada/falhas de continuidade). No âmbito de “workforce & productivity challenges”, o documento aponta (sempre na ótica dos entrevistados) um eixo central para 2026: mais de 90% dos executivos dizem que melhorar a produtividade é prioridade (seria difícil aceitar qualquer outra resposta diferente dessa).No que se refere à Maturidade real(talvez um “freio de mão” à produtividade via IA),o estudo deixa claro que as GenAIs ainda estão em ‘escala parcial’ e não em ‘escala total’. Mais de 30% dos sistemas operam “GenAI-at-scale”; e só 2% com IA implantada na empresa toda, revelaram os executivos entrevistados. Nesse sentido, o estudo crava a mensagem: a maioria não espera “impacto estratégico grande” das IAs em 2026, apesar de reconhecer o potencial. Serviços de Saúde não esperam ‘colher maçãs otimizadas’ em curto espaço de tempo. Pena.

Sobre as iniciativas clínicas, diagnósticas e terapêuticas,há poucos sistemas públicos de saúde testando a Cognição Artificial (apesar de todos planejarem fazê-lo).“Embora as pessoas estejam vivendo mais, com expectativa de vida maior, também estão passando mais anos com saúde debilitada. O tempo médio de convivência com doenças aumentou de cerca de 8,7 anos em 2000 para 10,2 anos em 2025, e a projeção é que chegue a 11,4 anos em 2050”, explica o estudo “The health of nations: Stronger health, stronger economies”, publicado em fevereiro de 2026 por outra respeitada consultoria global, a McKinsey Health Institute. O estudo mergulha na produtividade do setor ancorada em boa saúde e bem-estar. Ele chama de produtividade a essência da existência humana: viver mais, melhor e, de preferência, saboreando frutas diariamente.

Maçãs de seis dólares; pacientes de seis mil. São cadeias de valor incomparáveis, mas o primeiro setor tem pressa no uso das IAs. Em fevereiro último, em Berlim, aconteceu o Fruit Logistica Briefing 2026, um dos maiores eventos do mundo em tecnologia na área de fruticultura. O tema central foi “AI is changing everything – are you ready for it?”. Foram apresentados desenvolvimentos específicos em toda a cadeia de valor, saindo da produção inteligente de maçãs, passando pela irrigação de precisão, contornando a robótica autônoma na colheita, chegando ao controle de qualidade, tudo sendo embarcado pelas Inteligências Artificiais, como mostra o relatório“Fruit Logistica Trend Report 2026”.

Em Berlim, as máquinas no pomar já entendem o idioma dos píxeis: câmeras hiperespectrais escolhem o ponto exato da colheita, LLMs calculam a rota que poupa combustível e mantém a cadeia fria e robôs pinçam cada fruta com delicadeza cirúrgica. Foi isso que o evento martelou: “a fruticultura não está perguntando se vai usar IA, mas onde ainda falta encaixar o último parafuso algorítmico”.  E o ecossistema de Saúde?…

Guilherme S. Hummel

Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)