Ronaldo Sampaio*

Existe um pressuposto básico que sustenta qualquer atividade econômica: a capacidade de planejar. Empresas investem, contratam profissionais, desenvolvem tecnologias, ampliam operações e assumem riscos calculados porque acreditam ser possível projetar cenários futuros com razoável grau de segurança.

Sem previsibilidade, essa capacidade perde consistência e a sustentabilidade dos negócios passa a depender mais da resistência do que da estratégia.

A pesquisa ABRAIDI constatou que mais de 70% das transações realizadas com operadoras de saúde e hospitais privados são informais e sem contratos firmados.  

Um setor estratégico sob crescente instabilidade

Essa reflexão se torna especialmente relevante quando observamos o setor de dispositivos médicos no Brasil. Trata-se de um segmento que ocupa posição estratégica na assistência à saúde, responsável por disponibilizar tecnologias que viabilizam diagnósticos, tratamentos, cirurgias e procedimentos que impactam diretamente a qualidade e a expectativa de vida da população.

No entanto, nos últimos anos, as empresas têm convivido com um ambiente de crescente instabilidade que desafia até mesmo os mais robustos modelos de gestão. 

A elaboração de um plano de negócios pressupõe a existência de algumas variáveis minimamente conhecidas: custos, demanda, carga tributária, prazos logísticos e expectativa de recebimento. Quando esses elementos se tornam imprevisíveis, o planejamento deixa de ser um instrumento de desenvolvimento para se transformar em um exercício permanente de adaptação. 

O cenário atual impõe desafios em praticamente todas as etapas da cadeia. Mudanças tributárias inesperadas alteram custos previamente calculados. Oscilações cambiais impactam diretamente produtos e componentes importados. Processos logísticos e burocráticos ampliam prazos e comprometem a eficiência operacional.

Ao mesmo tempo, empresas precisam administrar estoques estratégicos para garantir que hospitais e pacientes não sofram desabastecimento, imobilizando recursos financeiros significativos em um contexto de juros elevados. 

A deterioração da previsibilidade financeira

Mas talvez o aspecto mais preocupante esteja na crescente deterioração da previsibilidade financeira. Na grande maioria dos casos, os prazos originalmente pactuados para pagamento deixam de representar uma referência concreta para a gestão do fluxo de caixa.

Recebimentos são sistematicamente postergados por planos de saúde e hospitais, e os prazos originalmente pactuados deixam de representar uma referência concreta para a gestão do fluxo de caixa. Valores são retidos por longos períodos, negociações retroativas tornam-se cada vez mais frequentes. Além disso, glosas injustificadas são aplicadas a procedimentos previamente autorizados, sem transparência quanto aos reais motivos das recusas.

O resultado é uma inversão da lógica: empresas cuja missão é fornecer tecnologia para o sistema acabam assumindo, involuntariamente, o papel de financiadoras da própria cadeia de saúde. 

Essa situação não afeta apenas os balanços corporativos. Seus impactos alcançam todo o ecossistema. Quando a previsibilidade desaparece, investimentos são adiados. Projetos de expansão são reavaliados.

A introdução de novas tecnologias torna-se mais lenta. A capacidade de geração de empregos especializados diminui. E a inovação, elemento fundamental para a evolução da medicina moderna, perde espaço para a gestão de crises cotidianas. 

É importante destacar que o setor de dispositivos médicos tem demonstrado extraordinária resiliência ao longo das últimas décadas. As empresas aprenderam a operar em ambientes complexos, adaptaram-se a mudanças regulatórias, superaram crises econômicas e continuaram abastecendo hospitais mesmo nos momentos mais desafiadores, como ficou evidente durante a pandemia. Contudo, resiliência não pode ser confundida com capacidade ilimitada de absorver instabilidades. 

Nenhum segmento econômico consegue sustentar indefinidamente uma realidade em que as regras mudam constantemente e de forma impositiva. O debate transcende os interesses empresariais.

Trata-se de uma discussão sobre a capacidade do Brasil de manter uma cadeia de suprimentos robusta, inovadora e preparada para atender às crescentes demandas de uma população que envelhece e necessita de soluções cada vez mais sofisticadas para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. 

O país precisa avançar na construção de condições que valorizem a estabilidade regulatória, previsibilidade e segurança jurídica; respeito às normas previamente estabelecidas e preservação do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, além da atualização de preços de acordo com índices oficiais de inflação.

Esses elementos são condições indispensáveis para estimular investimentos, promover inovação e garantir que as tecnologias continuem chegando aos profissionais de saúde e aos pacientes que delas dependem. Em um momento em que a medicina avança em velocidade sem precedentes, a capacidade de planejar o futuro tornou-se tão importante quanto a própria tecnologia.

*Ronaldo Sampaio é presidente eleito da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI)