A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante para se tornar parte da transformação das organizações de saúde. O desafio, agora, é incorporar a tecnologia sem simplesmente reproduzir modelos antigos em novas ferramentas.
Essa foi uma das principais provocações de Renato Grau, futurista e especialista em transformação digital, no segundo dia do Healthcare Innovation Show 2026 (HIS), em São Paulo.
Com 30 anos de atuação em transformação digital, Grau defendeu que a IA deve ser entendida como uma camada tecnológica que precisa estar alinhada às demais estruturas da organização, como processos, dados e governança.
Da tecnologia para a arquitetura organizacional
Na visão apresentada pelo futurista, a tradicional combinação entre pessoas, processos e tecnologia continua válida, mas ganha novas complexidades com a inteligência artificial (IA).
A governança passa a ter papel central, especialmente diante do avanço da chamada Shadow AI, quando soluções são desenvolvidas ou utilizadas dentro das organizações fora dos processos formais.
A mudança também alcança a forma como a saúde organiza seus dados e presta assistência. Segundo Grau, muitos sistemas ainda estão estruturados em episódios — como consulta, exame ou internação — em vez de acompanharem a jornada do paciente de maneira integrada.
É justamente nessa transição que o especialista identifica uma das oportunidades da IA: conectar informações que hoje permanecem fragmentadas e permitir que sinais relevantes sejam identificados ao longo da jornada.
Como exemplo, citou um caso da Rede D’Or em que dados obtidos em exames de imagem passaram a ser analisados para identificar alterações que não estavam relacionadas ao objetivo inicial do exame. Os alertas eram encaminhados à equipe de enfermagem, que podia acionar o sistema para investigação.
IA pode liberar tempo — mas exige uma decisão sobre como usá-lo
O impacto da IA sobre produtividade e tempo dos profissionais também foi discutido. Grau citou aplicações de transcrição de consultas e outros agentes de IA utilizados em organizações de saúde.
Entre os exemplos apresentados, mencionou a Hapvida, que teria registrado mais de 600 mil consultas transcritas entre janeiro e maio deste ano. Também apresentou dados relacionados ao tempo de atendimento médico e de registro clínico após a utilização de agentes de IA.
A questão, porém, não termina na eficiência. Para o futurista, se a tecnologia libera tempo das pessoas, as organizações precisam decidir como esse tempo será utilizado.
Essa discussão ganha outra dimensão quando a IA é combinada a sensores, dispositivos conectados e monitoramento remoto. Grau apontou para uma tendência de desospitalização, na qual parte do cuidado pode migrar do ambiente hospitalar para a casa do paciente, sem que a responsabilidade assistencial seja transferida junto com o local do atendimento.
O especialista citou projetos de monitoramento remoto no Reino Unido e um projeto de monitoramento neonatal de uma Santa Casa, que, segundo os dados apresentados, já contabilizava mais de um milhão de horas.
Organizações híbridas
A próxima transformação, segundo Grau, envolve a própria composição das organizações. Em vez de equipes formadas exclusivamente por pessoas, a tendência seria a consolidação de estruturas híbridas, nas quais agentes de IA executam tarefas definidas enquanto os profissionais assumem a responsabilidade pelo processo e pelas exceções.
Nesse modelo, a área de tecnologia também muda de função. Em lugar de concentrar todas as soluções, passa a atuar principalmente na governança, enquanto os usuários ganham autonomia para solucionar problemas com plataformas que exigem menos conhecimento de programação.
Para Grau, essa combinação entre humanos e máquinas precisa vir acompanhada de regras claras. Ele apresentou um exemplo relacionado à adoção de agentes de IA em protocolos, no qual a adesão às condutas previstas teria passado de 57% para 93%.
Também citou a aplicação de dados e automação na relação entre hospitais e operadoras. Segundo os números apresentados durante a palestra, a utilização dessas tecnologias teria contribuído para reduzir glosas de 12% para menos de 2%.
O humano como responsável pela decisão
É nesse ponto que a apresentação se desloca da arquitetura tecnológica para a arquitetura humana. Grau defendeu o conceito de “humano expandido”: um profissional que não apenas utiliza tecnologias para ampliar sua capacidade, mas desenvolve novas competências para atuar em um ambiente no qual máquinas também executam tarefas e produzem informações.
Entre essas competências está o que ele chamou de “julgamento soberano” — a capacidade de definir propósito, estabelecer limites, lidar com ambiguidades e exceções e decidir o que não deve ser delegado à máquina. “A responsabilidade é e deve ser humana”, pontuou.
A provocação ganha outra dimensão à medida que a IA passa dos sistemas digitais para o mundo físico, com robôs capazes de interagir diretamente com o ambiente. Grau também citou a evolução da computação quântica como uma tecnologia que poderá acelerar áreas como pesquisa de medicamentos, desenvolvimento de moléculas e modelos científicos.
Cinco perguntas antes de começar
Grau traduziu a discussão em orientações práticas para quem pretende iniciar um projeto de IA.
A primeira é avaliar se existe um problema real a ser resolvido. Se ele puder ser solucionado com uma ferramenta mais simples, como o Excel, não haveria razão para utilizar IA.
A lista inclui ainda compreender o processo, garantir a qualidade dos dados, estruturar governança e cibersegurança e definir o retorno esperado sobre o investimento. Para o futurista, os projetos precisam estabelecer métricas capazes de demonstrar ganhos de horas, economia financeira ou aumento de produtividade.
A tecnologia amplia o que é possível. No entanto, de acordo com Grau, é o humano quem deve decidir qual futuro quer construir.