Uma noite na UTI pediátrica mudou a trajetória de Brian Han, médico intensivista e cardiologista pediátrico da Stanford University. Durante o atendimento a um bebê de três meses, em estado crítico após uma cirurgia cardíaca, o cardiologista percebeu que, enquanto tentava cuidar do paciente, era constantemente interrompido por mensagens, ligações e notificações.
Os alertas tinham sido criados para informar os profissionais, mas, naquele momento, produziam o efeito contrário: dificultavam a assistência.
A experiência levou Han a questionar não apenas a tecnologia utilizada no ambiente hospitalar, mas o próprio sistema em que ela estava inserida. “O sistema ao meu redor não estava realmente projetado para me ajudar. Na verdade, estava trabalhando contra mim”, relatou.
O episódio foi o ponto de partida para uma trajetória que passou a combinar prática clínica, saúde digital, inteligência artificial, startups e indústria. Han compartilhou essa experiência durante a primeira palestra do Healthcare Innovation Show 2026, com o tema “O Clínico Inovador: Arquitetando a Saúde Digital no Ecossistema de Stanford”.
Para o especialista, o desafio não está em transformar médicos em engenheiros ou cientistas de dados, mas em criar condições para que o conhecimento clínico participe ativamente do desenvolvimento de novas soluções.
“Essas são as pessoas que ainda podem inovar, trazer talentos clínicos, trabalhar com grupos e promover mudanças reais”, afirmou.
Da necessidade à solução
A entrada de Han no universo da inovação ocorreu a partir do Stanford Biodesign, programa de inovação em saúde e tecnologia que reúne profissionais de diferentes áreas, como clínicos, engenheiros, investidores e especialistas da indústria.
Um dos principais aprendizados, segundo o cardiologista, foi mudar a ordem tradicional do processo de inovação: antes de pensar em uma tecnologia, é preciso compreender qual necessidade ela deve atender.
“O que importa é entender o problema e, em seguida, desenvolver uma solução em torno dele”, explicou.
A metodologia também ampliou o repertório do médico para além da assistência. Durante sua formação em inovação, Han passou a lidar com temas como estratégia financeira, regulação, propriedade intelectual, modelos de reembolso e negócios — elementos necessários para que uma solução consiga sair do ambiente de desenvolvimento e se sustentar no mercado.
“Ser capaz de combinar os aspectos clínicos com isso fornece as habilidades e a capacidade de realmente ajudar a inovar e, o mais importante, ajudar a inovar de maneiras que sejam sustentáveis”, afirmou.
Para o cardiologista, a experiência do Biodesign também demonstra que esse modelo não precisa ficar restrito a Stanford. A metodologia já foi disseminada para mais de 60 países, incluindo o Brasil, onde existe o Centro de Biodesign Albert Einstein.
Tecnologias desenvolvidas, de acordo com o especialista, durante os treinamentos do programa já teriam alcançado mais de 22 milhões de pessoas.
Saúde digital exige novas competências
A trajetória de Han avançou para a saúde digital, área que apresenta desafios diferentes daqueles encontrados no desenvolvimento tradicional de dispositivos médicos e produtos farmacêuticos – como o próprio cardiologista define.
Dentro do Biodesign, Han teve contato com uma equipe dedicada à aplicação da metodologia orientada por necessidades do ambiente digital. A experiência também mostrou que, em determinados momentos, as próprias ferramentas necessárias para inovar ainda precisavam ser construídas.
Entre os projetos mencionados no HIS 2026, estão iniciativas relacionadas à conexão de plataformas de registros de saúde e ao desenvolvimento de pipelines de dados para criação de aplicações.
A lógica, porém, permanecia a mesma: aproximar o conhecimento clínico de profissionais capazes de desenvolver a tecnologia.
Para o cardiologista, esse modelo é especialmente relevante porque a inovação não acontece de maneira linear. Diferentemente da formação médica e acadêmica, que seguem etapas relativamente estruturadas, o processo de inovação exige adaptação constante, experimentação e colaboração.
“Você não pode fazer isso sozinho. Não é um único programa, não é uma única pessoa. E essa é a grande lição: você precisa encontrar suas pessoas”, destacou.
IA clínica: da experimentação à avaliação
A inteligência artificial tornou-se outro capítulo da trajetória. Han contou que seu primeiro contato mais direto com iniciativas de IA em saúde surgiu de maneira pouco convencional: um convite encontrado em um QR Code colocado em um poste de luz.
A partir dessa oportunidade, passou a participar do AI Health, iniciativa ligada à avaliação de tecnologias de IA em saúde, em um momento de rápida evolução dos grandes modelos de linguagem.
A experiência o levou posteriormente ao Rise Network, iniciativa multi-institucional envolvendo Stanford, Harvard e Beth Israel, com apoio de parceiros da indústria. O objetivo, segundo Han, é contribuir para o desenvolvimento de sistemas de IA clínica seguros e confiáveis.
Nesse contexto, a avaliação dos modelos ganha papel central. Em vez de depender apenas de declarações dos desenvolvedores, a proposta apresentada pelo especialista envolve benchmarks e testes que permitam comparar o desempenho dos modelos em diferentes conjuntos de dados e tarefas clínicas.
“Não se trata apenas de alegações de marketing. Existem testes que você pode inspecionar por conta própria”, afirmou.
Para Han, a velocidade da evolução da inteligência artificial também exige novas formas de produzir e disseminar conhecimento. O intervalo entre a produção de um estudo acadêmico e sua publicação pode fazer com que os resultados já estejam defasados diante do lançamento de novos modelos.
Por isso, o Rise também trabalha com benchmarks abertos e relatórios voltados à indústria, aproximando a produção acadêmica de empresas, profissionais e outros atores envolvidos no desenvolvimento da tecnologia.
Do campus ao mercado
A construção do ecossistema de inovação não termina na universidade. Na trajetória apresentada por Han, a conexão com startups e empresas foi fundamental para transformar conhecimento e necessidades clínicas em produtos.
Uma das experiências ocorreu com o Plug and Play, plataforma internacional de startups que atua também na área de saúde. Han destacou iniciativas voltadas a doenças crônicas e à busca por soluções capazes de melhorar o cuidado sem ampliar a sobrecarga dos médicos.
Outro passo foi a atuação junto à Samsung Research America, onde trabalha como consultor de inovação clínica. Nesse papel, conecta conhecimento médico e evidências clínicas ao desenvolvimento de soluções de saúde digital voltadas ao consumidor.
Mesmo com a atuação em inovação, Han continua trabalhando como cardiologista e médico intensivista. A prática clínica, segundo sua trajetória, permanece como uma espécie de conexão entre os diferentes ambientes em que atua.
O caminho percorrido pelo especialista reúne, assim, diferentes pontos do ecossistema: a metodologia de inovação do Biodesign, a aplicação clínica, a inteligência artificial, a conexão com startups e a aproximação com a indústria e o consumidor. “É como um circuito. Eles estão todos conectados”, resumiu.
O clínico como parte do ecossistema
Mais do que apresentar um modelo pronto para ser reproduzido, Han defendeu que cada profissional precisa construir seu próprio ecossistema de inovação a partir de suas competências, interesses e necessidades.
O ponto, portanto, não é reproduzir exatamente a estrutura de Stanford, mas criar redes capazes de conectar diferentes conhecimentos e acelerar a transformação de problemas reais da assistência em soluções aplicáveis.
“O de vocês será diferente, o trabalho de todos será diferente porque todos temos habilidades e origens diferentes. Mas o ponto é que você encontre suas pessoas e os recursos que o façam crescer”, explicou.
Han retomou a situação que deu origem à sua jornada: a tecnologia, a inteligência artificial, os modelos de negócio e os ecossistemas de inovação só têm sentido quando conseguem melhorar o cuidado.
“Há um paciente esperando por um cuidado melhor e há um médico do outro lado esperando que o sistema seja melhor para ele”, disse.
É nessa conexão entre necessidade clínica, tecnologia e colaboração que o especialista situa o papel do clínico inovador: não como alguém que precisa dominar todas as ferramentas, mas como um profissional capaz de identificar problemas, participar da construção das soluções e conectar as pessoas necessárias para levá-las até o paciente.