O avanço da tecnologia e da inteligência artificial (IA) está revolucionando a medicina, permitindo que dados antes desorganizados sejam estruturados para salvar vidas e otimizar o atendimento hospitalar. Exames tradicionais estão se tornando mais produtivos e precisos graças a novos modelos de análise de dados, que oferecem diagnósticos mais rápidos e assertivos

Esse cenário foi tema central do painel “Saúde preditiva: Estamos prevendo doenças ou apenas vendendo dados?”, realizado no espaço Arena do HIS 2026. Durante o debate, Alex Gonçalves, médico nefrologista e gestor em saúde, destacou a importância de organizar os dados para melhorar os processos de saúde. “Quando os dados estão desorganizados, enfrentamos desafios enormes. Por isso, buscamos criar modelos e estratégias para melhorar o atendimento e garantir que as informações fossem bem inseridas nos sistemas”, afirmou. 

Marcelino Laud, gerente de inovação e IA do Hcor, complementou a discussão ao reforçar o papel essencial da tecnologia da informação na transformação do setor. “A área de TI é fundamental. Ela mantém a operação funcionando e nos dá a base para implementar soluções como inteligência artificial e automação, quando necessário”, explicou. 

O painel evidenciou como a saúde preditiva, impulsionada pela IA, está remodelando o atendimento médico, trazendo benefícios tanto para os profissionais quanto para os pacientes. 

O novo papel do “Eletro” 

Um exemplo positivo da revolução digital na saúde preditiva é o exame eletrocardiograma. Tradicionalmente, os médicos utilizam esse exame para identificar condições diretas, como infarto, apneia ou problemas de pressão. No entanto, com a aplicação de sistemas inteligentes, pesquisadores e profissionais agora conseguem extrair insights que vão muito além do que o exame foi originalmente programado para fazer. 

Ramon Santos Malaquias, CEO da HaisTech, explicou como a tecnologia está transformando esse processo. “Com a IA, conseguimos identificar padrões que antes eram invisíveis nos exames de ecocardiograma. Isso permite que os médicos recebam dados mais detalhados, como a detecção precoce de alterações cardíacas que podem indicar riscos graves, como insuficiência cardíaca ou até mesmo predisposição a infartos”, afirmou.  

Segundo ele, a tecnologia não apenas acelera o diagnóstico, mas também aumenta a precisão, permitindo intervenções mais rápidas e eficazes. 

Laud complementa ainda que atualmente o eletro funciona como uma verdadeira “porta de entrada”. A tecnologia permite cruzar informações e identificar padrões sutis nas linhas e traçados do exame que antes passavam despercebidos pelo olho humano. “O objetivo não é substituir o médico, mas fornecer a ele um segundo diagnóstico rápido, apontando riscos com base em dados de anos anteriores, cabendo sempre ao profissional de saúde a tomada de decisão final”, explica.  

Os especialistas explicam ainda que a capacidade de extrair dados profundos não se limita ao eletro. O cruzamento de informações já possibilita gerar insights a partir de exames de retina e hemogramas, auxiliando até mesmo na estratificação de riscos de câncer. A inteligência artificial consegue processar um volume massivo de dados para gerar diagnósticos preditivos mais rápidos e precisos. 

O desafio da integração na saúde 

Apesar do potencial da inteligência artificial (IA), o setor de saúde ainda enfrenta um desafio significativo: a falta de interoperabilidade. Diferentemente do sistema financeiro, que alcançou uma integração eficiente com ferramentas como TED e Pix, hospitais, clínicas e laboratórios ainda não compartilham dados de forma automática e integrada. 

Para Liguori, a ausência de motivação e interesse por parte das instituições é um dos principais entraves para que essa comunicação aconteça de maneira efetiva. No entanto, ele acredita que a inteligência artificial pode atuar como um “catalisador”, acelerando essa integração essencial para o avanço do setor. 

O especialista citou um exemplo prático do impacto da IA: a aplicação de modelos preditivos para reduzir o tempo médio de internação após a alta hospitalar. “Conseguimos diminuir o tempo médio de internação para 10 dias, o que representa um avanço significativo. Agora, os médicos têm acesso a informações mais precisas e podem tomar decisões de forma mais rápida e assertiva”, destacou. 

Além disso, Liguori ressaltou que a automação e a organização das informações assistenciais trouxeram ganhos expressivos no fluxo de trabalho. “Reduzimos o tempo de comunicação entre médicos e enfermeiros em uma média de 120 a 140 minutos, otimizando as operações dentro das instituições e melhorando a eficiência do atendimento.” 

Apesar dos avanços, os participantes concordaram que ainda há desafios significativos a serem superados. “O uso da inteligência artificial na saúde não é apenas sobre implementar tecnologia em qualquer lugar. É sobre entender onde ela realmente faz a diferença e como podemos utilizá-la para melhorar a vida dos pacientes”, concluiu Alex Gonçalves. 

O painel encerrou com um chamado à ação para que instituições de saúde invistam em integração de dados e tecnologias avançadas, garantindo um atendimento mais eficiente e centrado no paciente.

Acompanhe a cobertura completa dos painéis e atrações do HIS 2026 pelo portal Saúde Business e fique por dentro das inovações do setor.