A ortopedia contemporânea deixou de ser um campo restrito ao domínio técnico e cirúrgico. No cenário atual da saúde suplementar e privada, o ortopedista que atua em clínicas especializadas precisa desenvolver uma competência adicional e cada vez mais determinante: a capacidade de gerir. Pessoas, processos, indicadores e resultados passaram a fazer parte da rotina médica com o mesmo peso da prática assistencial.

A clínica moderna é uma organização complexa. Reúne equipes multiprofissionais, incorpora tecnologia de alto custo, opera sob forte regulação e precisa manter sustentabilidade financeira sem comprometer a qualidade do cuidado. Nesse contexto, o médico deixa de ser apenas o executor do ato clínico para assumir um papel estratégico na tomada de decisões — um verdadeiro gestor de saúde.

Gerir uma clínica especializada vai muito além da administração cotidiana. Significa liderar equipes com perfis diversos, alinhar objetivos assistenciais e financeiros, estruturar fluxos eficientes, controlar custos e acompanhar indicadores de desempenho. Mais do que isso, significa compreender que a experiência do paciente é resultado direto de processos bem desenhados e de uma cultura organizacional saudável.

Essa nova realidade impõe um desafio claro: a formação médica tradicional não prepara o profissional para a gestão. Por isso, a busca por capacitação específica deixou de ser diferencial e passou a ser necessidade. Especializações, MBAs em gestão médica, liderança em saúde, inovação ou saúde corporativa tornaram-se ferramentas essenciais para o ortopedista que deseja manter sua clínica competitiva, organizada e preparada para crescer de forma sustentável.

A prática médica desconectada da gestão já não se sustenta em um mercado cada vez mais pressionado por custos, exigências regulatórias e expectativas crescentes dos pacientes. Entender o negócio da saúde, interpretar dados, planejar estrategicamente e tomar decisões baseadas em indicadores tornou-se parte inseparável do exercício profissional.

Além disso, o conceito de liderança também evoluiu. A autoridade baseada apenas no conhecimento técnico perdeu espaço para um modelo mais colaborativo, que valoriza comunicação clara, empatia, escuta ativa e alinhamento de propósito. O médico gestor eficaz é aquele que inspira sua equipe, constrói confiança e cria um ambiente propício à excelência clínica e operacional.

No futuro — que já começou —, o ortopedista de destaque será aquele capaz de transitar com segurança entre o centro cirúrgico e a sala de reuniões. Não será apenas um especialista em ossos, articulações e procedimentos, mas um gestor de pessoas, de processos e de valor em saúde. Em um setor cada vez mais empresarial, complexo e competitivo, liderar bem deixou de ser uma escolha. Tornou-se uma condição para permanecer relevante.

*Sérgio Costa é gestor das clínicas Akro, Ortomédica e Clifom, e médico ortopedista.