A construção de registros nacionais de dispositivos médicos implantáveis deixou de ser apenas uma ferramenta administrativa para se tornar um instrumento estratégico de gestão em saúde. Em um cenário de pressão crescente sobre os sistemas públicos e privados, acompanhar a incorporação, a utilização e os resultados dessas tecnologias é essencial para garantir sustentabilidade, eficiência e segurança assistencial.
Essa é uma das principais conclusões do estudo internacional Databases and registries recording the usage of cardiovascular implantable medical devices: A rapid review of the literature, recentemente publicado no periódico científico JRSM Cardiovascular Disease, ligado à tradicional Royal Society of Medicine.
A pesquisa analisou experiências de diversos países que mantêm bancos de dados nacionais sobre dispositivos cardiovasculares implantáveis, como marcapassos, desfibriladores, válvulas cardíacas e stents, demonstrando que esses registros oferecem benefícios concretos tanto para os pacientes quanto para os sistemas de saúde.
Entre os principais achados, destaca-se a capacidade desses registros de melhorar o controle de gastos públicos e apoiar decisões mais eficientes de incorporação tecnológica. Os dispositivos implantáveis representam investimentos significativos para hospitais, operadoras e sistemas públicos de saúde.
Em muitos casos, trata-se de tecnologias de alta complexidade, com custos elevados e impacto direto nas despesas assistenciais. Sem mecanismos estruturados de monitoramento, torna-se mais difícil avaliar resultados clínicos, comparar desempenho entre tecnologias e identificar oportunidades de racionalização de recursos.
Os registros nacionais permitem justamente transformar dados assistenciais em inteligência estratégica. Ao acompanhar indicadores como volume de implantes, perfil dos pacientes, taxas de complicação, necessidade de reintervenção e durabilidade dos dispositivos, gestores conseguem compreender quais tecnologias apresentam melhor custo-benefício e quais modelos assistenciais geram melhores resultados.
Além disso, esses bancos de dados contribuem para aumentar a transparência na utilização de recursos públicos e privados, fortalecendo políticas baseadas em evidências e não apenas em estimativas de mercado ou análises isoladas.
Outro aspecto importante apontado pelo estudo é o potencial desses sistemas para apoiar a incorporação responsável de novas tecnologias. Em um ambiente de inovação acelerada, especialmente na área cardiovascular, acompanhar o desempenho real dos dispositivos após sua utilização em larga escala é fundamental para validar benefícios clínicos e econômicos no mundo real.
Para a América Latina, o tema ganha relevância ainda maior. O estudo mostra que muitos países latino-americanos ainda possuem modelos fragmentados de monitoramento ou estruturas limitadas de registro nacional.

Essa lacuna limita o planejamento dos sistemas de saúde e dificulta a comparação de indicadores de acesso, eficiência e qualidade assistencial. Avançar na criação de registros nacionais robustos pode representar um passo importante para reduzir desigualdades regionais, ampliar a rastreabilidade dos dispositivos implantáveis e fortalecer a governança em saúde.
No Brasil, essa discussão dialoga diretamente com os desafios de sustentabilidade do setor, especialmente diante do envelhecimento populacional, do aumento das doenças cardiovasculares e da crescente demanda por tecnologias médicas de alta complexidade.

Mais do que uma ferramenta estatística, os registros nacionais podem se tornar instrumentos de segurança do paciente, qualificação assistencial e gestão inteligente dos recursos em saúde.
A experiência internacional demonstra que investir em informação estruturada é também investir em eficiência, previsibilidade e melhores resultados clínicos. Em um sistema cada vez mais orientado por valor, acompanhar dados reais de utilização e desempenho das tecnologias deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade estratégica.
Davi Uemoto, diretor executivo da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI) e Patrícia Marrone, economista e Phd em engenharia pela USP.