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Quem nos dirá oficialmente que a pandemia acabou? Ninguém. Só saberemos depois

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Não haverá um ‘Dia da Vitória’, mas muitos

Vivemos tempos estoicos! Anos inacabáveis, meses infinitos, dias intermináveis... Fundado no século III a.C., o estoicismo nasceu grego, floresceu em Roma e teve Sêneca (04 a.C.–65 d.C.) como um de seus mais iluminados representantes. Para os estoicos a vida em si não é algo bom ou ruim, mas o que fazemos com ela é o que lhe dá sentido. Estoicos estão sempre preparados para o pior, sempre vigilantes mentalmente. Não se deixam levar por crenças e paixões que sequestrem a sua racionalidade na hora de agir. São resilientes, por definição. Estoicos são fiéis ao conhecimento e a razão, concentrando seus esforços em tudo aquilo que pode ser controlado somente por eles mesmos. Nas palavras de Marco Aurélio (imperador), um estoico imutável: “Pensamentos externos não são o problema. É a nossa avaliação deles que nos impede de eliminá-los”. Covid-19 nos cobra estoicismo porque fomos “condenados” a viver de pensamentos, ordenações e acontecimentos externos a nossa imanência.

Em meio a tantas “idas e vindas”, aberturas e fechamentos, notícias de agravamento e pesquisas explicando o poder das novas variantes, permanecem as perguntas referenciais: Quem vai nos comunicar oficialmente que a pandemia acabou? Como será feita essa notificação? Qual será a informação-científica-central que abrirá as portas do mundo? Essas questões sufocam a população humana a quase dois anos. Por mais estoicos que possamos ser, estamos cunhando nossa vida pelo que ocorre fora dela. A externalidade nos comanda. Todos os dias as mídias globais nos comunicam tudo sobre o Sars-Cov-2, sem nos informar, no entanto, quando sairemos dessa enrascada. Uma das conclusões está cada vez mais clara: não haverá o dia da “comunicação final”, o dia da festa, do choro, da libertação. As coisas acontecerão numa curva descendente, de forma assíntota e sem conclusões definitivas.

Uma das concepções que reforçam a improbabilidade desse “Dia da Vitória”, foi apresentada no estudo “The end of the pandemic will not be televised”, publicado em 14/12/2021 no BMJ (British Medical Association), tendo sido desenvolvido pelos pesquisadores David Robertson (Princeton University) e Peter Doshi (University of Marylan). Se você não gosta de frustrações pandêmicas, pare o texto por aqui. Mas se continuar, vai perceber que estudos bem-intencionados também podem levar a conclusões tolas. O paper contém um contexto sistêmico e histórico, mostrando que ao contrário das pandemias passadas a Covid-19 é monitorada minuciosamente por métricas, estudos científicos, notícias regionais, painéis epidemiológicos e dramas pessoais, numa confluência que monitora em tempo real a passagem do coronavírus. Um ciclo que rastreia aferições laboratoriais (testes), internações hospitalares, transmissibilidade, alcance e distribuição vacinal, sem contar as estatísticas virais, curvas pandêmicas e até discursos negacionistas que emergem e submergem ao sabor dos protestos. “Nossas televisões, computadores e smartphones estão hiper conectados à pandemia, que em seu cerne contém o fascínio pela objetividade e pela necessidade de dados que permitam as pessoas se agarrar em algo no meio de tanto medo e incerteza”, explica o estudo, que até aqui não se contesta.

Esse manancial de informações, rico em perspectivas médico-científicas, ajuda as populações a se conter, aumentando ou diminuindo as pressões por contramedidas que mantenham o ‘contexto emergencial’. Dados oferecem alguma sensação de controle, como também um sentimento de impotência. Ou seja, as discussões sobre “abertura”, ou “retorno ao normal”, ou mesmo “obtenção de imunidade coletiva” pairam no ar cotidianamente sustentando tensões pessoais e coletivas. Uma ducha-gelada, por exemplo, veio em março de 2021, quando a Nature apresentou o paper “Five reasons why COVID herd immunity is probably impossible”, onde o epidemiologista Stefan Flasche (do London School e participante do WHO's Strategic Advisory Group of Experts) explicou: “Dado o que se sabe sobre o Covid-19 até agora, será bastante improvável alcançar a imunidade de rebanho somente por meio da vacina. Ela é um desenvolvimento absolutamente surpreendente, mas é improvável que interrompa completamente a propagação. Então, precisamos começar a pensar em como podemos conviver com o vírus”.

Robertson & Doshi começam bem o estudo, salientando que “não existem definições universais ou parâmetros epidemiológicos comprovados que definam o fim de uma pandemia. Portanto, não existe um indicador clássico e conclusivo (ou algo parecido com isso) que nos permita identificar com certeza o desfecho epidêmico da Covid-19. Como o melhor instrumento de aferição ainda é a testagem, e essa é pouco realizada em muitas nações, há pouca certeza se estamos “perto do fim”, ou “perto da próxima variante”. Tão pouco sabemos se alguma ‘comunicação conclusiva’ viria da OMS ou de cada país, ou região ou mesmo de cada cidade. O que se percebe (e nisso o estudo acerta) é que a onipresença dos números pandêmicos ajuda a criar uma sensação de que a pandemia terminará quando “todos os indicadores tenderem a zero” (casos, internações, óbitos, transmissão, etc.), ou quando tenha ocorrido 100% de vacinação. Os dois pesquisadores mostram que as pandemias respiratórias ocorridas no século passado tiveram “desfechos” pouco claros, e que seu fim foi “mais compreendido com a diluição dos índices e não com o cumprimento de metas epidemiológicas específicas”. Segundo o estudoas pandemias respiratórias dos últimos 130 anos foram seguidas por ondas sazonais (anuais), alimentadas por níveis de ‘endemicidade viral’ que normalmente continua até a próxima pandemia, como explica outro estudo (“Imagination and remembrance: what role should historical epidemiology play in a world bewitched by mathematical modelling of COVID-19 and other epidemics?”), publicado em junho/2021 e realizado por pesquisadores da University of Melbourne.

Nesse sentido, a dificuldade de datar o fim pandêmico está refletida na literatura histórica e epidemiológica. Algumas correntes de estudiosos descrevem a "gripe espanhola", por exemplo, como ocorrendo em ‘três ondas’ de "1918 a 1919", embora existam abundantes referências de que ela foi de "1918 a 1920", incluindo inclusive uma ‘quarta onda’. Outro caso é a pandemia de “gripe asiática”, em meados do século XX. Geralmente ela é descrita como um evento de ‘duas ondas’ (1957 a 1958), mas não são poucos os que incluem uma ‘terceira onda’ (1959). Assim, “a noção, reforçada pelos painéis de controle da Covid-19, de que uma pandemia termina quando os casos ou mortes caem para zero, está em desacordo com a evidência histórica, onde índices substanciais de morbidade e mortalidade (influenza, por exemplo), continuaram a ocorrer, temporada após temporada, entre os ciclos pandêmicos”, adverte o estudo.

Robertson & Doshi asseveram que medidas usadas em pandemias anteriores foram mais fugazes e menos intrusivas do que aquelas utilizadas na Covid-19. Mesmo na catastrófica gripe espanhola, que matou três vezes mais pessoas nos EUA, a vida voltou ao normal em pouco tempo, embora seja quase certo de que isso decorreu porque não havia outra opção. Afinal, não havia internet, apps de entrega de alimentos, whatsApp, etc., sem falar que o distanciamento social generalizado e prolongado era impossível em função do tipo de trabalho da sociedade da época. Assim, especifica o estudo: “um breve exame das pandemias anteriores nos EUA mostra que não há uma relação fixa ou determinística entre a patogenicidade de um vírus e a intensidade e longevidade das intervenções de saúde pública. As pessoas há muito experimentam a tragédia da doença e da morte (pandêmica ou não), com a Covid-19 passando a ser historicamente a única em que a interrupção e retomada da vida social têm sido intimamente ligadas às métricas epidemiológicas”.

A partir daqui Robertson & Doshi abandonam as perspectivas de notória ciência, se esbaldando em ilações de notório achismo. “Alguns historiadores observaram que as pandemias não terminam quando a transmissão da doença finda, mas quando, na atenção do público em geral e no julgamento de certos meios de comunicação e elites políticas (que moldam essa atenção), a doença deixa de ser notícia. Desativar ou desconectar-nos dos painéis pode ser a ação mais poderosa para acabar com a pandemia. Isso não é enterrar a cabeça na areia, é reconhecer que nenhum conjunto único ou grupo de métricas pode nos dizer quando a pandemia acabou”. Para eles, o fim da pandemia é mais um fenômeno sociológico do que biológicoacreditando que a Covid-19 ainda não terminou simplesmente porque dados epidemiológicos sufocam a população, tirando dela o foco para questões mais relevantes. Obviamente, trata-se de uma débil conclusão. Em pleno século XXI sugerir que a melhor forma de escapar de uma crise epidêmica é eliminar a informação, deixando que as pessoas naveguem por escapismos cotidianos que as distraiam, é no mínimo estapafúrdio.

Como este, inúmeros outros estudos estão sendo publicados tentando “jogar uma cortina de fumaça” nas mortes, casos, internações, índices de morbidade, dados estatísticos, etc., sofismando fatos históricos para justificar teses conspiratórias ineptas e casuísticas. Embora o estudo seja instigante no seu desenvolvimento contextual, avaliando o impacto do desfecho em pandemias passadas, é frágil e inconsistente nas conclusões. Afinal, nem todos concordam que as métricas para identificar o fim pandêmico inexistem. William Schaffner, especialista em doenças infecciosas do Vanderbilt University Medical Centerexplica“quando dissermos que a pandemia desapareceu, teremos de garantir que o público entenda que isso não significa que o vírus desapareceu e tudo acabou. Significa que esta fase inicial, essa fase de transmissão intensa com consequente doença, foi reduzida e que temos o vírus sob melhor controle. Teremos algumas métricas para isso, como os níveis de hospitalização ou a proporção de testes positivos realizados (inferior a 5%). Mas, em que patamar vamos finalmente nivelar, não tenho certeza. No momento, acho realmente que pode haver dois níveis. O primeiro será menor nos estados muito bem vacinadas, e o outro nos estados que ainda não chegaram lá”.

Outros especialistas, como o consultor médico chefe da Casa Branca, Anthony Fauci, concorda que a Covid pode nunca desaparecer completamente. Timothy Brewer, por exemplo, professor de epidemiologia da Universidade da California (UCLA) é mais enfático: “É muito improvável que algum dia sejamos capazes de nos livrar da Covid-19. A ideia de lidar com essa doença para sempre pode parecer assustadora, mas viver com um vírus endêmico é muito diferente do que aconteceu no mundo nos últimos meses de vida pandêmica - e a transição não acontecerá da noite para o dia”. A ideia do “vírus endêmico”, da gripe comum, por exemplo, é didática. O patógeno circula constantemente em segundo plano, aumentando e diminuindo sazonalmente a cada ano. As pessoas são vacinadas regularmente contra ele, ajudando a construir várias camadas de imunidade ao longo de muitos anos. Brewer explica que a Covid provavelmente cairá em um padrão semelhante: “Como a maioria dos vírus respiratórios, provavelmente vai piorar durante os meses frios e melhorar durante o calor. Temos de parar com a ideia de que se fizermos tudo certo faremos com que o coronavírus desapareça completamente. As pessoas deveriam tentar minimizar as consequências econômicas e sanitárias ao máximo e continuar com suas vidas”.

Também é importante avaliar a visão da população sobre o “desfecho covidiano”Pesquisa da Ipsos realizada em 33 países entre outubro e novembro de 2021 (antes, portanto, da ômicron), não encontrou consenso nacional’ com referência a “qual evento específico sinalizaria com o fim da pandemia”. Em quase todos os países pesquisados (22 mil adultos) a maioria espera que algo como uma vida normal (pré-Covid) não ocorrerá em menos de “6 meses”. Da mesma forma, o público pesquisado mostra-se dividido sobre “qual seria o melhor indicador de que a pandemia está terminando e quando as principais restrições podem ser levantadas em seu país”. Na média, 20% acham que será quando pelo menos ‘75% da população tiver sido vacinada’19% dizem que será quando a ‘transmissão do vírus parar completamente’; e 17% quando os ‘hospitais tiverem operações normais sem falta de pessoal ou equipamento por pelo menos um mês’. Além disso, 12% acham que será quando houver ‘menos de 10 novos casos para cada milhão de pessoas/dia’; e 7% quando houver ‘menos de duas mortes para cada milhão de pessoas/semana’. O mais importante: 14% dizem que simplesmente não sabem quando vai acabar.

Hoje, quando os casos confirmados ultrapassam 268,6 milhões em todo o mundo (Johns Hopkins University), com 5,28 milhões de óbitos e mais de 8,35 bilhões de doses imunizantes administradas (Our World in Data), entender o caráter da tendência-endêmica é fundamental. Segundo o FDA‘endêmico’ significa que uma doença atingiu uma presença “constante” ou “usual”, ou mesmo “normal”“Acho que será um pouco como incêndios florestais: em um momento mobilização total e no seguinte uma redução de atenção”, explica também Cheryl Bettigole, diretora e responsável pela Saúde Pública da Filadélfia (Pensilvânia, EUA). Pandemias vão se diluindo, transformando em endemias, depois em surtos, depois em casos, até se agigantarem novamente.

Assim, como tudo na Covid-19 é novo, não é razoável um perfil comparativo e definitivo com outras convulsões virais havidas no passado distante. É provável mesmo que nunca saibamos ao certo quando ‘é o fim’, sendo mais plausível sabermos a posteriori quando ‘foi o fim’. Talvez em anos, ou décadas, vamos acompanhar nas revistas científicas, nos jornais, ou nos livros didáticos a “oficialidade” sobre o fim do Sars-Cov-2É razoável pensar que dificilmente teremos um “Dia da Vitória” comunicando o seu desfecho, ou uma “bastilha” libertadora onde todos saiam as ruas comemorando o seu término. Não haverá esse dia. Alegoricamente será como “...o desfile do último passista, da última ala, realizado pela última escola de samba no último dia de carnaval...”. Aos poucos as pessoas vão retornando, escutando ao fundo os últimos batuques, com a certeza de que voltarão no ano seguinte. Teremos esse cortejo pandêmico: ações de controle sendo reduzidas, contenções sendo atenuadas, imunização amplificada, ciclos de isolamento social crescentes ou  flexibilizados, o trabalho voltando ao seu ‘lugar de fala’, a economia em “pisca-alerte” e a maioria das pessoas utilizando máscaras por longos períodos, quiçá para sempre em lugares fechados e públicos... Enquanto essa matiz-patológica declinante não chegar, continuaremos disciplinadamente contidos, preventivos, informados, vacinados, evitando sacrificar vizinhos, família e até o mais distante habitante da mais longínqua tribo da África Oriental. Sêneca nos ajuda: “Todos podem viver bem. Alguns podem ajudar os demais a vivê-lo. Mas cumpra, porque ninguém tem o poder de viver muito”.

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator Hospitalar Hub

Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

TAG: Hospitalar
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